A Gruta do Lou

Oráculo Noturno

WK_0_wk14Wilde_218113_0714 Gene Wilder

Enquanto escuto a trilha sonora do Blog, cuidadosamente preparada por mim, e que começa com a minha própria performance de “Hello Again”, insistentemente atribuída ao Neil Diamond e vai caminhando entre alguns craques da música brega (algumas nem tanto), escrevo essas linhas desconexas, em parte.

Não consigo deixar de pensar em Guillermo Arriaga. Isso mesmo, o roteirista de Babel e outros ótimos filmes, além de autor de alguns livros muito bons. Ontem à noite, acompanhei entrevista dele e, pelo visto, me deixei impregnar por algumas ideias subversivas que ele externou.

Ainda muito jovem, vinha de um relacionamento longo, desfeito por absoluta incompetência, típica de meninos que são preparados pela escola louca desse mundo tenebroso, capaz de roubar os melhores anos de nossas vidas, sob o pretexto de treinamento para o futuro, mas sem nunca chegar perto, se quer, desse intento. De repente me vi em meio a uma situação real, para a qual não havia nenhuma informação disponível no armário do saber. Daí meu, um adeus sonoro. Além desse fato bizarro, como a maioria dos meninos de minha idade, vivia duro e, agora, sem a menor ideia sobre o que fazer com a minha vida, ainda tenra.

Os dias se repetiam em um “doce far niente” e as noites eram consumidas em mesa de “buraco” (jogo de cartas), lá na casa do seu Nelson, pai do Chico, do Zé Nelson e da Marly. Além disso, as risadas dos participantes eram consequência das minhas observações e histórias, como sempre. Certa noite, e sem me dar conta, silenciei, envolvido pelo jogo, pela atmosfera funesta de um grupo sem eira e nem beira e por falta de um mínimo de disposição para alegrar. Isso causou reação esperada da Marly, que inocentemente perguntou a razão de meu emudecer, acostumada às sandices do meu palavrório. Antes que eu pudesse tecer uma resposta, mínima que fosse, seu Nelson, do alto de seu mundano saber declinou: “O que você espera de um homem sem amor, sem dinheiro e sem perspectivas?”

Poucas vezes ouvi uma frase de tal precisão e efeito arrematador, quanto aquela. Desatamos a rir sem parar e, assim, não houve mais o clima necessário para a jogatina.

Ao voltar para casa, ainda inebriado pelo efeito da frase do seu Nelson, fiz uma loucura. Ajoelhei ao lado de minha cama e orei, como nunca. As horas foram me envolvendo e acho que acabei entrando em alguma espécie de transe misturado com porre e sono, até que o som citando um salmo, estrondosamente, me despertou:

Salmo 128

Nunca levei tiro na vida (embora um tenha passado muito perto de mim e deu para ouvir a bala zunindo louca para encontrar alguém a quem pudesse tragar), mas calculo ter sentido a mesma sensação com  essas palavras, tanto que custei a endireitar os parafusos e fazer a coisa mais óbvia, para aquele momento: sacar a bíblia mais próxima e ler o texto gritado.

 

Bem – Aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos.

Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem.

A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa,

Eis que assim será abençoado o homem que teme o Senhor,

O Senhor te abençoará desde Sião, e tu verás os bens de Jerusalém em todos os dias de tua vida,

E verás os filhos de teus filhos, e a paz sobre Israel.

Bíblia Imprensa Bíblica Brasileira ERC

Essa foi a versão que li.

Mas o que tem isso a ver com o Arriaga? Se olhar para a segunda frase (versículo dois), está escrito: comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem.

Enquanto ouvia esse senhor falar de sua  profissão, bem sucedida, de  roteirista e escritor (ou vice versa)  deliciei-me com a possibilidade de viver escrevendo, oportunidade que desfruto com o Blog, agora. Iniciei alguns projetos literários que acabaram na mala dos inacabados. Mas ando com uma vontade, incontrolável, de tirar a poeira deles e terminá-los, além de realizar outros tantos. Nosso amigo deu, ainda, mais um senhor presente aos felizardos que o escutaram, ao ensinar que quando escrevemos, devemos nos perder para a nossa pena, em outras palavras, deixar que nossas mãos garantam o nosso sustento, com o mínimo de interferência de nossa parte.

“Feliz serás e te irá bem ao unir suas mãos hábeis ao temor do Senhor e no andar em seus caminhos”.

Capricornio PB

13 thoughts on “Oráculo Noturno

  1. Lou, vai lá entao, abre a gaveta e tire a poeira das suas anotacoes.

    Estou esperando e por favor, nao me deixe em pé por muito tempo.

    Boa semana

  2. Assim como somos criação de Deus, que se alegrou do resultado, nosso ofício é nossa criação, e nada tão bom quanto se alegrar de seu resultado, dedicando-o ao primeiro criador, bem como agradecendo-o por ter delegado a nós a atribuição a sua função criativa. Vai adiante, cara! Fazendo um belo resultado das letras, como um bom sub-criador!

  3. Rubens

    A lista (grutindicados) está logo abaixo dos últimos comentários, na barra lateral, sob o item páginas. Tentarei melhorar a visibilidade.

  4. Inesquecível o Roda Viva com o Arriaga. Nunca li nenhum livro do cara, mas me admira seus três roteiros, filmados pelo Iñarritu.
    Reitero o estímulo: retire a poeira dos seus trabalhos e mãos à obra. Como diria o mexicano, pouca coisa há de mais agradável e recompensador no mundo que criar, uma realidade que se destaca de nós e assume folêgo próprio, queiramos ou não.
    Abraços

  5. Ah, e hoje tem Amós Oz no Roda Viva Especial. Uma pena que é tarde demais: 00:30. Mas se explica: há coisas mais nobres a serem exibidas nos horários acessíveis.

  6. Salmo 171: nóis dois

    Má sorte maior

    o que tenta,

    com os pés comer.

    Adquirirá habilidades:

    no circo papel e

    da roupa sujar.

    Pois é amigo, já tentei comer sozinho sem as mãos e os pés (boca no prato), mas por educação dou trabalho para as mãos. Pelo menos tenho ido bem mal, mas feliz.

    Abraço

  7. Caro Lou, as vezes, tenho surtos. Sou levado a claridade, letras e sons belíssimos. Penso que são momentos de loucura ou extrema concentração. Posso estar errado. Outro dia, alguém me perguntou se estava me sentindo bem. Oh, claro que sim, respondi. Entretanto, são momentos como esse que me faz “ler as letras e ouvir bem sua seleção” . Obrigado tio.

  8. Mas o cara da foto è o ator Gene Wilder
    Correto?

    Lou Re: Obrigado pela correção Hoje é o dia da limpeza. Já despedimos um e agora outra cabeça rolará, seguramente. Isso é uma vergonha!

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