A Gruta do Lou

Olheiras de Cristo

Antes de mais nada, não deixe de ler minha última postagem no Filantropia Br. A coisa lá no CMDCA é pior do que briga de cego no escuro. Depois o avião cai e todo mundo chora.
Estou mantendo o post para dar oportunidade de leitura a todos. Grande abraço a todos.

Tendo lecionado em vários seminários e escolas bíblicas, tive muitos alunos. Dentro dos currículos mais comuns de teologia, é possível que tenha ensinado todas as matérias. Até as línguas originais cheguei a ensinar, embora seja muito fraco nessa área. Como adotei o estilo professor coordenador, ao invés de professor sabichão, pude levar adiante todas as matérias e com certa maestria.

Alguns dos meus ex-alunos chegaram a conquistar notoriedade. Uns na chamada banda boa e outros, nem tanto. Para minha tristeza, um dos meus alunos é um dos bispos da Igreja Renascer envolvidos no escândalo conhecido. Há alguns notabilizados por fazerem bom e digno trabalho ministerial. De certa forma, sinto-me responsável por todos eles. Às vezes até me lembro deles em minhas orações.

Um deles, o José Carlos que nos tempos do seminário tinha “chamado” para trabalhar com mendigos, transformou-se em um bom recuperador de drogados e alcoólicos. Tive oportunidade de visitar a casa de recuperação, que ele dirige lá para os lados de Ribeirão Pires. Lembro que, certa vez, em aula, ele me fez duas perguntas esquisitas, para dizer o mínimo, que nunca mais esqueci. Sem mais nem menos perguntou: Professor, o senhor crê no amor de Jesus Cristo? Respondi que sim e ele emendou: Então por que o senhor tem essas olheiras tão pronunciadas?

Devo tê-lo mandado lamber sabão ou tomar banho, com aquela vontade de mandá-lo a algum lugar exótico. Mas a pergunta me incomodou. Nunca consegui respondê-la. Não sei se menti quando disse sim à primeira pergunta ou quando respondi à segunda. Hoje eu poderia dizer que acredito no amor de Jesus, mas com a ressalva que esse amor ainda não chegou por aqui, ou que minhas olheiras são a evidência desse amor real que ainda não me atingiu, ou algo nessa linha.

O amor de Jesus Cristo, para mim, é como a paz em Israel: Sei que há, mas não consigo vê-la. Recomendo esse amor a todos. Da maneira como o concebo, não há nada melhor a oferecer ao próximo, mas sempre digo: desde que não seja como é para mim. Na verdade, não sou alvo das piores coisas. O que dói mais é a indiferença, a falta de oportunidade, suportar essa insignificância, onde até os demônios são mais importantes. Às vezes preciso fazer alguma traquinagem para apanhar, mas sentir-me amado. Nada como uma boa surra de um pai decepcionado, para sentir o quanto ele nos ama.

Enquanto isso, vivo com minhas olheiras. Ainda bem que não tenho mais alunos impertinentes como o José Carlos para me fazer perguntas ridículas como essas.

2 thoughts on “Olheiras de Cristo

  1. Nota dez seu post. Aliás, tem de sobra o que mais me agrada nos seus escritos: sinceridade e a ausência daquele triunfalismo barato tão comum nos círculos eclesiais.
    A indiferença é realmente uma coisa terrível. Sua abordagem me lembrou uma passagem de “Notas do subterrâneo” (Dostoievski) onde o narrador-personagem entra em uma taverna com o intuito de caçar confusão e ser lançado pela janela. Se ao menos fosse lançado pela janela, era uma forma de ser notado. Mas não: o brutamontes lá o ignora, como se ignora uma mosca. Uma passagem incrível.
    Abração.

  2. As vezes, suas olheiras não são oriundas de cansaços e decepções.
    Conheço gente que as tem, mas é algo genético, somente..
    O ideal é não perder a fé, no Cristo Senhor.
    Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *