A Gruta do Lou

O vendedor de pamonhas


… não importa qual seja o poder de Deus, o primeiro aspecto de
Deus jamais é o do Senhor absoluto, do Todo-Poderoso. É o do
Deus que se coloca no nosso nível humano e se limita.
Jacques Ellul, Anarchy and Christianity

Sei quanto deve ser difícil ver Deus no mundo de nossos dias. Acredite, sei como poucos. Por alguma razão sou uma espécie de homem privilegiado, pois encontrei Deus algumas vezes por aí, sempre de forma inesperada. Seja no corredor amplo e vazio de um Hospital construído no meio do século passado, ou em um café simples de uma das esquinas desconhecidas de Sorocaba, ou no sul da África em meio a um povo faminto e desesperançado, ou ainda em um Hotel de quinta em Tirana, onde o governo albanês, da época, mantinha, os poucos turistas, cativos.

Nessas ocasiões, trocamos palavras, ouvi, chorei, arrependi-me, perdoei e conheci a face magnânima do Criador. Embora esse seja um privilégio destinado a todos, poucos acabam por desfrutá-lo. Claro, nós colocamos esses relatos sob a rubrica ficção e erramos ao fazê-lo, uma vez tratar-se de fatos reais. De alguma forma, traímos ao nosso Pai e tentamos fazer o impossível: defender-nos. Ah, e se alguém me chamar de herege e insano ou as duas coisas?

Entretanto, o Grande Espírito (como o chamava um velho índio que conheci em Fort Lauderdale, na Flórida) se limita por mim e por você e nos aparece encarnado sob qualquer forma, desde que isso lhe permita um relacionamento conosco. Ah, quantas vezes ele não era um preso em meio a tantos de uma cela qualquer das infames prisões brasileiras? Outras tantas, lá estava ele, negro, vestindo uniforme de carregador de malas, com um sorriso maravilhoso dizendo “Bem vindo” a todos os viajantes e assim vai.

Ele não se incomoda em descer ao nível humano quantas vezes for necessário e fez isso milhões de vezes, desde a missão em Jesus nosso Senhor e em tantas outras oportunidades, antes e depois. Sempre teve em mente libertar-nos da nossa liberdade aprisionadora e de nossa independência colonial. Esse pai capaz de incluir em sua aljava a todos sem exceção, não descansa e não descansará enquanto não conseguir seu intento. Você e eu somos parte dos objetivos salvíficos de Deus.

Podemos pensar nos maiores crápulas desse mundo, gente como Hitler, Antíoco Epifânio, Nabucodonossor, Idi Amin Dada, Bin Laden, Bush, Lula, Serra, Marta Suplicy, Patricia Maldonado, Edir Macedo, Roberto Jakob, Douglas Mônaco, Carlos Mass, Luis Santos, Jonathan Santos, Estevan e Sônia Hernandes, Lou Mello e tantos outros, claro que estão todos condenados a um bom lugar no inferno, mas esse nosso Pai Celestial ainda faz planos para salvá-los desse destino cruel, mesmo sem obter nossa concordância. Ele já deixou clara a necessidade de perdoarmos toda essa gente malévola. Esse rancor todo nos apodrece por dentro e não causa nada nesses algozes. Morro de medo de chegar à salvação e dar de cara com o Roberto abraçado a Jesus e derramando lágrimas de alegria ao me ver ali. Imagine então, um Hitler ou um Douglas salvos.

É isso, nesse exato momento ele pode estar batendo à sua porta, travestido em vendedor de pamonhas autênticas de Piracicaba ou simplesmente na pele de uma empregada doméstica e pronto a dizer-lhe: Seu interior está uma bagunça e estou aqui para ajudá-lo a por ordem na casa.

Eu te abençôo, fique em paz.

Seu vendedor de pamonhas

14 thoughts on “O vendedor de pamonhas

  1. Pingback: Lou Mello
  2. ótimo texto. poucos são os que buscam as respostas nas coisas simples.
    grande abraço.

    É, e Deus não tem preconceitos e não mede esforços em sua obstinação em salvar sua criação.

  3. Belíssimo texto Lou!
    O homem bem que procura limitar Deus no Seu agir e na maneira como Ele se revela, e continua cego, pois nem se apercebe que quando Deus se limitou a Ser Humano, foi quando Ele se tornou mais ilimitado que nunca.
    Encontramos Deus nos lugares mais inesperados!
    Abençoou-me este teu texto.

    Pois é, até em um blog, às vezes… 🙂

  4. Dizem por aí que nós humanos fazemos o que fazemos devido as nossas experiências, criação e loucuras, deixando assim todos num só patamar.Todos nós estamos sujeitos a tudo!! Aí vem um desses vendedores de pamonhas (ignorado por todos) e concerta tudo.
    Meu Deus, se o céu existe, tive um gostinho de experimentá-lo nesse texto, pois o que me resta, é uma cadeira ao lado dos crápulas acima.

    É muito importante o que você diz, precisamos prestar atenção nessas pessoas simples, como os vendedores de pamonha, escritores de blog, etc., de repente, estamos falando com Deus, sem saber. 🙂

  5. Certa feita um homem “cristão protestante” foi questionado a respeito da morte de Chico Xavier. Ele respondeu ao repórter, que fizera a pergunta propositalmente: (na cabeça do crente, todo espírita vai pro inferno) eu não acho nada disso, porque ninguém morre sózinho e tenho a creteza que no seu leito de morte Deus estava com ele.
    Quem sou eu pra julgar alguém? QUEM SOU EU?

    Você está certa, principalmente em não julgar.

  6. Um exemplo de que sempre me lembro, é que quando um documentarista inglês perguntou a Madre Tereza, como é que ela tinha coragem de por a mão nas feridas dos leprosos dos quais cuidava,ela prontamente lhe respondeu, Psiu! Eles são Jesus disfarçado.”O que fizeres a um desses meus pequeninos a mim o fizestes”. Eles, quaisquer pequeninos, são o próprio Jesus disfarçado. E quem somos nós? Nós que tantas vezes nos jactamos, nos fazemos de santos? Deus é mesmo o Deus do mais símplices, e vem travestido deles. Falava sobre isso ontem com uma amiga… Tomara Deus me enxergar como enxerga a eles…

    Ele enxerga, pois quer salvar a todos.

  7. Façamo-nos lixo, escória do mundo, nada, muito menos, para obtermos a misericórdia de Deus.
    Principalmente nós que fomos ou somos “cristãos evangélicos” cheios de orgulho e de vícios…

    Provavelmente, Deus se faz pobre para nos enriquecer.

  8. OLha! Gostei do seu texto, só que eu acho que você foi além do que está explícito, por exemplo imaginar Hitler no céu é algo realmente chocante, entretanto condiz com a não lógica da graça. Existe alguma coisa de errado, com Hitler ou com o céu, o rapaz da cruz gamada não precisa de acusação,quanto ao conceito de céu seria bom se parassémos para refletir melhor sobre ele e sobre os outros que vem junto como salvação, pecado… Sabe Lou, sempre achei que escrever se parece muito com pintar, quando um pintor carrega num contraste é porque quer chamar a atenção para algo, quando vc colocou no mesmo plano desse quadro que é seu texto, Deus e um vendedor de Pamanhonha, a Glória celestial e o maior de todos os genocidas chamou nossa atenção para o erro de muitas verdades nas quais acreditamos. Não dá pra saber como é o céu, mas dá pra saber que lá tem amor o resto fica por conta dele que sempre permanece no nossa fé e na nossa imaginação

    Como defende o Uberto Eco, a literatura deve ser Obra Aberta. Seu comentário é esclarecedor. De fato, essas junções paradoxais são apelativas e propositais, no bom sentido.

  9. Sobre Deus nos aparecer: Acho que nos relacionamos com um Deus que existe da maneira como queremos existir para os outros. Ou melhor, inverto: Sou para o outro da maneira como acredito que Deus seja para mim. (Seria mais ou menos isso o que o Crisóstomo disse com sermos deuses por participação? E o que o Bonhoeffer disse com a fraqueza de Deus?). Por isso que os seus adversários inventaram aquele olhão de big-brother (nesse caso, de big-father) para que a relação com esse Deus-Pedro-Bial nos deixasse neuróticos para satisfazê-lo e agradá-lo e ganhar seu elogio. Melhor que Deus continue vendendo pamonhas, e aceite com uma risada entre irônica e bondosa a minha sugestão de adocicá-las um pouco mais…

    Na pele de um vendedor de pamonhas Ele tem a pachorra de não alterar nada na rotina do mancebo. Coisas de Deus. Talvez o velhinho aprecie quando o vemos em outras pessoas, sobretudo, nos mais simples. Excentricidades deísticas.

  10. Ao meu vendedor de pamonhas!

    Obrigada por passar pela minha casa todos os dias…
    não importa se está chovendo,fazendo frio,calor,você
    sempre está por aqui.Nem sempre eu posso comprar as
    suas pamonhas,por motivos vários,que só eu e você conhecemos.
    Outras vezes,o seu altofalante está com um ruído
    e eu não consigo entender o que você está anunciando…fico na dúvida,será ele mesmo?Daí,vou até
    o portão…e lá está você,nunca falha…

    ___Pamonhas,pamonhas,feitas com o puro suco do milho…

    É Deus tem mesmo essa personalidade.
    Seus comentários estão se popularizando na blogosfera. A pergunta que não quer calar é: Então, quando virá seu blog? 🙂

  11. Ah Lou…a minha pouca competência, pouca leitura e
    escolaridade, só me autorizam fazer comentários, (algumas vezes dou sorte, eles fazem algum sentido)

    Para blogar, vale mesmo a experiência em algo específico. Há todo tipo de blogs, até blog especializado em sofrimento, imagine. Os mais chatos são os intelectualizados e os superficiais. Você demonstra ter algo dizer, por sua vivência e sensibilidade.

  12. O que eu mais gosto de fazer é caçar pamonhas. Uma de minhas maiores diversões é ver as entrelinhas dos textos. As vezes eu acho que Deus embute coisinhas bem pequenas no meio das frases das pessoas, ou nos textos que elas colocam em seus blogues, tem vezes em que a pessoa nem está querendo passar mensagem nenhuma e sem querer ela passa. Curto isso demais. Até em medíocres canções populares dá pra achar coisa interessante, as pamonhas estão em toda a parte. Bom, vai ver que eu penso assim porque sou uma reles fabricante de pamonhas, e estou aqui querendo puxar sardinha pra minha brasa. Desconsidere portanto as bobagens embutidas neste texto.

    Posso falar por mim e por Deus. Nós não costumamos deixar nada nas entrelinhas. 🙂

  13. Mas você não deixa ferramentas de retorno, que complicado Lou navegar na sua página.

    Deixe-me contar-lhe um segredo: Nos bons blogs (O seu incluso) basta clicar sobre o Título do blog e você volta para a Home Page. Aqui há ainda outra opção, bem ao lado do título com o nome Home Page. É só clicar sobre. 🙂

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