A Gruta do Lou

O Velório

Harold Lloyd

Certa vez, o Tio Cássio (falecido pastor da Igreja Cristo Salva) me convidou para ir com ele ao velório do pai de um membro da Igreja. O evento era em Campinas e o pastor queria minha ajuda para dirigir o carro dele até lá. Acontece que o pastor estava com uma rouquidão enorme. No caminho, ele pediu para fazer uma parada em uma farmácia, onde adquiriu umas pastilhas para a garganta. Durante a viagem, me alertou que se sua voz não melhorasse, possivelmente, eu teria que assumir a tarefa de ministrar a cerimônia fúnebre. Até aí, nada de mais. Estava preparado e ele sabia disso. Para evitar sua piora, o pastor não disse mais nada, o caminho todo. Como não sabíamos onde era o local, exatamente, custamos um pouco encontrá-lo e nos atrasamos. Quando entramos no salão onde estava o caixão com o corpo e umas quinhentas pessoas, não por causa do morto, mas porque a família era grande e importante na cidade, não houve tempo para delongas e o Tio Cássio apenas me faz sinal negativo, a minha deixa para assumir o trabalho. Dirigi-me para o local apropriado (atrás da extremidade do caixão onde estava a cabeça do moribundo) e abri minha Bíblia. Fez-se silêncio sepulcral. Naquele momento, dei uma olhadela para o morto, com o canto do olho e uma discreta levantada da pestana, assim, me dei conta que não tinha a menor idéia de quem ele havia sido. Pelo aspecto, era um falecido de cerca de setenta anos e isso era tudo. Decidi fazer uma preleção tipo trivial. Iniciei uma longa descrição das qualidades do digníssimo, cujo nome era Antonio e do qual não havia qualquer informação disponível. Bom pai, esposo extremoso, cumpridor de seus deveres, zeloso, altaneiro, bondoso, sempre pronto a servir e ajudar o próximo, etc… nessa altura, percebi um som que me pareceu com aquele característico de quando uma pessoa está tentando segurar o riso. A isso se somou uma risada escancarada do senhor à minha esquerda, depois outro e outro e o salão desabou em gargalhadas descontroladas. Até a viúva, que chorava quando chegamos, estava rindo tanto que agachava. Se não me engano, chegou a urinar. Fiquei ali atônito durante mais de quinze minutos. Cada vez que parecia ter cessado, o desatino total, e ameaçava retomar a prédica, alguém desatava a rir e todo mundo caia na gargalhada de novo. Imaginei que era um daqueles surtos coletivos dos quais ouvira falar, sem acreditar na possibilidade. Enfim a coisa parou. Resolvi ler um texto bíblico para evitar que a coisa reiniciasse. Li o texto de Primeira Pedro onde fala do marido que deve amar a esposa, pois pretendia fazer referência ao amor do Antonio pela esposa, mas a coisa ficou muito pior. Depois disso, não foi possível retomar a seriedade necessária para enviar o que sobrará de Antonio para debaixo da terra. Até o último momento, todo mundo ria. Nunca vi nada igual. Dirigi o primeiro enterro feliz da humanidade. Quando voltamos do cemitério, e o Tio Cássio não conseguira parar de rir, ainda, o filho do Antonio me explicou a causa de tudo aquilo. Acontece que o senhor pai dele, o Antonio havia sido um grande beberrão e conhecido mulherengo, tendo deixado filhos com diversas amantes e não havia um bar da cidade onde ele não tivesse uma conta pendurada de gastos com a marvada. Para variar o palhaço era eu, graças ao malandro do Antonio, aquele pinguço de uma figa.

16 thoughts on “O Velório

  1. Hilariante…. ehehehe.
    Eu vi logo que o pessoal pensava que estava no enterro errado….Lol!!!

  2. 🙂
    🙂
    assim em detalhes, ri mais ainda Lou!!!!!!!!
    mas pense, para grutense que é grutense mesmo, até enterro é diferente!!!!
    beijos,
    alê (ainda rindo…..)

  3. Meu primeiro e único velório não sobrou nem o nome do falecido. Esqueci. Mas já pra carregar o caixão quase faltou mão, se não fossem as minhas!

  4. Odeio funerais, mas se souber de outro como esse, me convida.

    Definitivamente: não há lugar em que o riso não possa penetrar.

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