O Vale do Silêncio

Entrando no Círculo de Distorção da Realidade…


Por volta de 1971, um imbecil disse que eu nunca chegaria a lugar nenhum, ou seja, seria um fracassado. Talvez tenha sido uma medida preventiva, geralmente usadas por pais de moças promissoras (na opinião deles) ou qualquer outra razão rasa. O QI do cara não chegava nem perto do potencial intelectual de uma ostra. Mas aquilo mexeu comigo.

Casualmente, por aqueles dias, chegou a mim um convite para ir estudar nos Estados Unidos, mais propriamente em Reno, Nevada. Naquele tempo eu ainda não tinha nada contra os norte-americanos, tirando as ideias de Benjamim Franklyn, óbvio. Depois de refletir longamente, por mais de trinta ou quarenta minutos, decidi aceitar. Entre o convite e o embarque, propriamente dito, passaram-se três dias. Fui levado de carro ao aeroporto de Viracopos em Campinas, onde nunca estivera antes, e embarquei em voo da extinta Pan Am, que vinha desde Buenos Aires. Meu destino era Los Angeles, Califórnia, com escalas no Rio de Janeiro, Manaus, Kingston-Jamaica e Cidade do México, um saco. A grana para as passagens (o bilhete era de ida e volta, válido por um ano), estadia, matricula em um curso de inglês na Universidade de Nevada em Reno, apareceu rapidinho. Até fez parecer que meus pais queriam me tirar logo daqui.

Minha primeira missão, caso eu chegasse lá, era encontrar o filho de um casal amigo dos meus pais que morava lá e iria preparar o terreno para mim. Em troca, o pai dele me encarregou de levar-lhe algum dinheiro, com a advertência de que se ele estivesse muito mal (costumava fazer uso de drogas pesadas, conforme me informou) deveria fazer a entrega no método conta-gotas, para evitar que ele queimasse tudo de uma só vez. Desembarquei no aeroporto de Los Angeles e não tive maiores problemas com a alfândega, graças ao indescritível curso de inglês que fiz durante séculos na Cultura Inglesa. De taxi, fui para o terminal de ônibus, de onde parti para Reno, by bus.

Quando cheguei ao terminal rodoviário de Reno (Reno fica em Nevada, estado vizinho à Califórnia e muito conhecido por abrigar a cidade de Las Vegas) meu anfitrião não estava lá, como combinado. Em seu lugar apareceu uma jovem, bonita por sinal, que se identificou com uma placa contendo o meu nome. Rapidamente me explicou que era amiga da namorada do maluco e que iria me ajudar a encaminhar as coisas, pois o casal em questão não estava em condições para tanto, naquele dia. Levou-me para a escola, onde já havia uma reserva para minha matrícula e alojamento. Por lá fiquei, com cara de: e agora?

Morei em Reno por dois meses e meio. Depois disso, a conselho de minha amiga (aquela que me recebeu no dia em que cheguei) e do pai dela que era pastor batista na cidade, me transferi para Los Angeles, onde consegui uma vaga para dar continuidade ao meu curso de Educação Física na Berkeley University of Califórnia, com certa ajuda do pai da jovem amiga. Além da vaga, logrei ser admitido no programa de bolsas de estudos, mantido por uma associação de pais e mestres de ex-alunos da escola e isso quebrou um baita galho na organização de minhas finanças.

Para completar E. Física levou dois anos, somando os créditos que havia carregado do Brasil. Como dispunha de tempo, a partir do segundo semestre lá, comecei a estudar Administração de Empresas, assistindo às aulas na qualidade de ouvinte. Quando terminei meu curso, solicitei uma bolsa para mestrado e fui agraciado. Dessa forma, continuei estudando administração enquanto fazia o mestrado e resolvi incluir algumas matérias relacionadas à teologia, por mera curiosidade.

Nessa época, havia um enorme caos na cidade, ocasionado pelo Big Bem da era da informática. Só se falava nisso e acabei atingido em cheio também. Isso me levou a fazer cursos menores, tanto de hardware quanto de software, onde conheci um cara chamado Esteve Wozniacke. Ele era muito amigo do famoso Esteve Jobes, que ainda não era muito conhecido naquele tempo. Devido ao meu interesse pelo assunto e a facilidade que demonstrei em mexer com aquilo tudo, o cara me convidou para trabalhar com ele, pois estava mesmo recrutando gente para a equipe dele, na empresa onde estava trabalhando, a AGAPÊ.

O trabalho era part time e podia ser feito no horário noturno, com a vantagem de ser muito bem remunerado. Trabalhei com ele lá durante sete meses. Na ocasião, o Woze e o Jobes estavam começando outro projeto que veio a tornar-se na PinApple. O Woze me levou para trabalhar com eles, também. Quando terminei o mestrado, encerrei meu tempo de preparação escolar, afinal trabalhar no ramo cibernético era ótimo, especialmente em termos de remuneração.

Tornei-me expert em chips, placas, circuitos, processadores, memórias, bytes, etc. Na PinApple, todo mundo temia o Jobes, mas ele nunca me fez nada. Nas poucas vezes que dirigiu-se a mim, tratei de escutar e pensar se e como poderia fazer algo para ajuda-lo. O jeitão desleixado e rebelde dele não me incomodava. Talvez o fato de ter tomado LSD e fumado maconha com ele e o pessoal dele, no tempo da escola, tenha ajudado. Sei lá.

Um ano após o lançamento do PinApple II, (um computador de uso pessoal para os que não são daquele tempo), verifiquei que o pessoal no Brasil estava consumindo o aparelho feito água. Isso surpreendia, pois era proibido importar computadores, então. Em uma de minhas vindas a titulo de visita e manutenção dos vínculos, tratei de fazer uma pesquisa e verificar as possibilidades de abrir uma Revenda PinApple no Brasil, importando legalmente as máquinas. Descobri que poderia abrir a revenda, mas só poderia revender máquinas montadas aqui. A lei só permitia a importação das peças. Mas o General Golberry do Coito e Silva, uma das pessoas com quem conversei, me alertou que a carga tributária poderia ser desanimadora. Pesquisei e me certifiquei que era, de fato.

Voltei meio down para a Califórnia. Quando essa ideia começou a rondar minha mente, cheguei a ficar eufórico, mas a realidade me pegou. Em uma das cochiladas durante os voos, sonhei com uma fábrica. Quando acordei pensei: é isso! Fabricar as máquinas de fio a pavio no Brasil. Agora o problema tinha outro nome, ou seja, Esteve Jobes. A não ser que… a ideia fosse dele. Todo mundo dizia que ele era useiro e vezeiro em cooptar a ideia alheia, então eu precisava dar a ideia para ele e depois esperar ele me devolver, como se fosse dele.

Foi o que aconteceu, tim tim por tim tim. Belo dia ele me pegou pelo braço e disse, sem mais: Tive uma ideia e acho que você é o cara certo para fazer parte dela. Antes que eu dissesse algo, completou. Que tal abrirmos uma revenda PinApple no Brasil? E mais, o Jobes achou melhor começarmos uma loja igual a que eles tinham em Los Angeles. Ele resolveu enviar 20 máquinas totalmente desmontadas, cada caixa contendo um tipo de peça. O local da loja e o projeto de fabricação posterior ficaria a meu cargo. A mobília da loja, com adereços e tudo, mais a parte legal (abertura da filial brasileira, etc.) ficaria por conta do pessoal de Los Angeles. A divisão acionária seria dividida em 30% para o Jobs, 30 % para mim e 40% para distribuir via Bolsa de Valores. Nascia assim a PinApple Brasil S/A

A fábrica surgiu, milhares de computadores foram fabricados, desde então. Primeiro os desktops, depois os Maqbooks e aí vieram os Ipodes, Ipedes, Itelefones, etc., e tal. Quando casei, alguém disse: esse cara tem só 27 anos e já tem mais de cento e cinquenta milhões de dólares de patrimônio. Hoje isso se multiplicou exponencialmente. Deixei a empresa quando o Esteve saiu da presidência por motivo de enfermidade . Agora sou só um dos acionistas. Valeu a pena.

 

…Saindo do Circulo de Distorção da Realidade

Essa seria uma das opções que poderiam ter acontecido se eu tivesse tido um pouco de dignidade quando aquele imbecil disse que eu não chegaria a lugar nenhum. Mas, como dei de ombros… e preferi viver pela fé, etc…