A Gruta do Lou

O touro de ouro

O Touro de Ouro
O Touro de Ouro


“E lançaram os seus deuses no fogo; porquanto não eram deuses, mas obra de mãos de homens, madeira e pedra; por isso os destruíram”. II Reis 19:18

A pouco mais de duas décadas estou vivendo como uma alma penada, pior, arrastando meus familiares ao meu limbo. Alguns suspeitam que o fato de meu filho mais novo ter nascido com um grave problema de saúde (uma cardiopatia congênita extremamente complexa) seja a causa. Mas isso é um grande engano. O nascimento dele trouxe sim, uma grande revelação para mim, a de que o deus que eu havia concebido e acreditava, então, não existe. Era só um touro de ouro fabricado por minhas mãos e mente.

Um dos textos bíblicos mais significativos para mim é este aí acima. Claro está o fato de ter desejado ser uma espécie de Ezequias, um dos poucos reis aprovados pelo Deus do Antigo Testamento. Entretanto essa era apenas mais uma das minhas grandes falácias. Estava muito mais para os assírios e seus deuses falsos, feitos de madeira e pedra do que para Ezequias e seu Deus de verdade. Naquele momento me dei conta que se meu deus fosse verdade nenhum filho nasceria com qualquer problema. A constatação de que, se há um Deus verdadeiro, ele consente com fatos como esse, foi trágico para mim.

O que é bom ou mau? Kierkegaard está certíssimo com sua conclusão de que não há dolo em Adão e Eva e, se não há, tampouco deveria haver a culpa. Mas os homens transformaram ou criaram o pecado, a desobediência e a culpa. O fizeram pela mais mesquinha das razões: prevalecer. Em toda a história da civilização ocidental ou oriental as pessoas foram e continuam sendo manipuladas pela culpa. Desde que um infeliz nasce ele (ou ela) é convencido do pecado e da culpa e daí para frente vive para servir. Logo aprende que para se dar bem, precisa produzir seu séquito de seguidores servis, igualmente, e manipula todos à sua volta para servi-lo, através da culpa. A maioria das religiões, se não todas, pelo menos as principais, tem como seu alicerce maior a culpa. Esse detalhe não é privilégio religioso e pastoral, políticos, professores, patrões, policiais e tantos outros filhos do p também adoram uma boa culpa para cumprir seus intentos dominadores e ambisiosos.

Jesus Cristo quando veio a esse planeta, tão mal desenvolvido e insustentável, talvez um dos maiores lapsos do pai dele, que nos obriga a dar um jeito de sustentá-lo, agora, sob o risco de sucumbir no universo, trouxe consigo a missão de liquidar com essa crença atroz e, como uma espécie de “plus”, deixou uma das maiores pistas a respeito de quem de fato seria seu pai, jamais vista. Segundo ele próprio, sua missão era pagar, de uma vez por todas, a totalidade dos pecados cometidos por todos os seres humanos, no passado, no presente e no futuro, banindo, dessa forma, a culpa da face do planeta ameaçado.

A pista acerca de Deus deixada por Jesus é a inexistência de qualquer reivindicação, por parte dele, de algum tipo de obediência ou serviço como pagamento ou penitência. Ao contrário, ele fez questão de liquidar essa pretensão humana inventada pelos senhores teólogos e logo usurpada pelas senhoras psicólogas, consideradas as atuais iconoclastas ou exorcistas da culpa, na falta de opções melhores.

Meus caros, isso é tudo que sei sobre Deus hoje. A totalidade do que eu pensava saber sobre ele, precisou ser queimada na fogueira dos falsos deuses. Razão pela qual me enfiei em uma Gruta, embora isso tenha acontecido só nos últimos sete anos.

Em palavras mais claras, eu que andei pregando sobre o meu falso deus em igrejas por todos os cantos do nosso país, dos bairros nobres aos mais simples de São Paulo, em Belo Horizonte – MG, em Curitiba – Pr., no Rio de Janeiro – RJ, em Aquidauana – MS, em Porto Alegre – RS, em cidades do norte e do nordeste; aos empresários da Av. Paulista, aos jovens do presbitério de Osasco, em palestras e seminários, em escolas de teologia, em acampamentos e retiros, em tantas cidades do nosso interior; em igrejas na África, nos Estados Unidos e na Europa. Cheguei ao cúmulo da presunção ao levar a mensagem do meu falso deus à Albânia marxista leninista dos anos setenta. Sim, essa fraude humana aqui cometeu esse pecado mortal, de crer e propagar um deus inexistente.

Estou bem na frente de uma montanha de contas vencidas e não pagas. Não tenho a menor ideia de como me livrarei delas. Esse não é o meu pior problema financeiro no momento, pois tenho outros por aqui, muito mais cabeludos. Não estou empregado, e não pretendo estar, pois considero essa opção parte da manipulação dos senhores da culpa, se bem que essa possibilidade tornou-se improvável depois que ultrapassei a barreira dos quarenta anos, e minha proposta empresarial não está funcionando, também. Meu ultimo cliente foi perdido em 2010. Tenho sim um ou dois sites hospedados em minha revenda de hospedagem, cujo total a ser pago não satisfaz nem a metade do custo da revenda. Estou a poucos dias de levar meu filho a uma consulta extremamente importante para ele, que poderá ser o inicio de um novo tempo, com mais qualidade de vida, capaz de libertá-lo da prisão a que está obrigado a viver hoje em dia, talvez dar-lhe outra longevidade e não tenho os míseros reais necessários para arcar com pagamento dela. Minha família me olha desconfiada e envergonhada ao constatar o pai e marido frustrado e derrotado em que me tornei. De novo, não faço a menor ideia de como mudar isso. E não vá se alegrando imaginando que estou lhe pedindo alguma esmola porque ainda sou bastante orgulhoso, mesmo tendo sido infiel a isso, ultimamente.

O deus que eu cria há duas décadas e pouco atrás, era capaz de me livrar dessa situação. Mas o Deus verdadeiro, aquele que Ezequias e Jesus conheciam, que nos deu a Graça para nos livrar da culpa, eu não sei se o fará. Temo que assim como ele permitiu ou condescendeu com a diabo para que meu filho viesse ao mundo como veio, deve estar condescendendo novamente com o chifrudo, que lhe desafia sem cessar, tentando convencê-lo de que mais um tempinho nessa penúria e acabarei abrindo mão de viver pela fé, como tentou fazer com Jó. De minha parte os dois senhores, o do Universo e o desse planeta insustentável, podem parar com esses jogos mortais e infantis. Se repararem bem, faz mais de vinte anos que joguei a toalha me declarando um total perdedor. Como diria o Apóstolo Jorge Tadeu, minha fé acabou, pelo menos naquele deus de mentira, é verdade. E ainda não descobri o verdadeiro para recriá-la.

Sei que há um Deus, daqueles que não sou capaz de imaginar. Minha mente não está e não foi criada para concebê-lo. O que é a bondade? Dizer que Deus é bom soa pueril, ridículo. Eu não sei como Deus é e não tenho sugestões a dar. Talvez eu siga o exemplo do Brabo e me debruce ainda mais na leitura e estudo dos evangelhos. Sinto que há mais a descobrir nos enigmas de Jesus. Ele já falou comigo e até me fez um ou outro milagre de menor importância, entretanto, isso nunca foi algo que me permitisse estabelecer algum padrão teológico. Para você ter uma ideia, a única parábola que consigo admitir, capaz de representar Deus de alguma forma é a montanha. Ela nos diz que Deus é grande, imóvel e silencioso. Ele nunca vem a nós, envia seu reino e nós vamos a ele, em orações. Orações que nunca serão respondidas, mas coletadas. Não me pergunte para o que.

Para encerrar, essas minhas raras e novas noções de Deus, podem ser outras formas de concepção de outro falso deus. Cuidado.

morcego-12

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