A Gruta do Lou

O presente não existe

 

Há três anos exatos escrevi Solilóquio do cumprir anos e vejo agora, perplexo quão tolo sou. Veja você, minha inocência me traiu a ponto de imaginar-me morando em São Paulo ainda naquele ano. Que bobagem mais prepotente e insana.

Cá estou, no mesmo lugar, na mesma Gruta e se fosse o Batman diria: a mesma BatCaverna sorocabana. Só para me contrariar e deixar claro quem manda de verdade, Deus nos manteve aqui, nesse mesmo lugar, contra todos os planos, prognósticos e vontades.

Hoje é o primeiro dia do meu futuro, de novo, e ontem foi o último do meu passado. Depois eu afirmo a inexistência do presente e o pessoal briga comigo. Afinal, onde fica esse presente (nos dois sentidos) se estou sempre no começo do futuro, à mercê do passado posto que é sombra?

Acho que o Amir Klink, caso fosse meu amigo e talvez seja sem saber, me diria hoje: Meu, o futuro é apenas um desafio de organização. Planeje tudo direitinho, sem deixar escapar nenhum detalhe e tudo dará certo.

Mas há o Maluco Beleza do outro lado, fantasiado de diabo, com tridente e tudo, dizendo preferir me aconselhar a sentar no trono do meu apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. Bom, os dois acertaram seus futuros.

De certa forma, sou meu maior traidor. Confesso meu prazer em relação ao inesperado e deixo lacunas à beira do caminho para permitir as surpresas, o não planejado, o tal imponderável. No fundo e no raso, acho chato ser previsível, capaz de antecipar meus atos e desatos.

Adoro ser sonoramente surpreendido. Bem, quando a surpresa é boa. Também existem as surpresas desagradáveis eu sei e como sei.

Pelo sim, pelo não, estou tentando mal traçar minhas linhas para esse ano. Dessa vez tentarei não fazer previsões incertas, evitando transformarem-se em promessas vãs. Escreverei todos os meus passos em ordem cronológica, se tiver saco, claro.

Se der dois passos por dia, no próximo aniversário terei dado setecentos e vinte novos passos, se der dez a cada vinte e quatro horas, serão três mil e seiscentos. Não sei se rio ou se choro, quanta bobagem.

Desejo mesmo é abrir um E-mail onde haja amizade, gesto de generosidade, lembrança, consideração e respeito. Até o clichê “orei por você” serve, desde que seja verdadeiro. Continuarei insistindo em ser mais generoso, menos irritadiço e prometo não falar em ecologia, preservação do planeta e pós modernidade por um ano, se vocês prometerem o mesmo em relação a mim.

Ah, prometo não dar contribuições em dinheiro a nenhuma instituição e isso inclui igrejas e só pagar os impostos inevitáveis e espero o mesmo de você. Isso contribuirá para um mundo melhor, tenho certeza.

Não há medo, depois de sessenta e um novos futuros ninguém teme mais, a gente sabe. Será o descortinar de alguns raros e belos momentos, que valem a pena vivermos, em um tsunami de incontáveis instantes que esconderemos no mais profundo de nossas histórias passadas, no arquivo “poderia ter ficado sem essa”.

Se você veio me parabenizar, pode apostar que me emocionou. Se apareceu por acaso, encontrou um cara absolutamente adepto do tal “não existem coincidências”, tão ao gosto calvinista e como disse uma antiga amiga, lembrando os indianos, “a pessoa certa é a que veio”.

Ninguém deixará de ser alvo dos meus mais enfáticos agradecimentos e admiração, sem limites ou preconceitos.

Um grande beijo.



2 thoughts on “O presente não existe

  1. Caro amigo, o presente é constante. Nem sempre as coisas saem como gostaríamos, como sonhamos ou como achamos que merecemos, mas o presente vem para nos lembrar de continuar/permanecer. Às vezes não se parece com presente para nós, não tem embrulho, nem alegria – parece mais um fardo, mas por algum motivo ininteligível para mim, podemos (nós) ser o presente de alguém, mesmo que não estivesse em nossos planos; e salvar uma vida – uma única que seja – significa muito, mesmo com o coração partido.
    Trace os “5 passos para a vitória”, os “12 passos para a plenitude”, os “61 passos para voltar à juventude”, ou quaisquer outros; só não deixe de caminhar. Você já sabe isso tudo, mas não custa lembrar. Amplexo.

    1. É verdade, meu problema deve ser lentidão, quando me dou conta o presente já virou passado e só me resta o futuro. Pode ser imediatismo, também, ou seja, designar ao presente só um ou dois segundos. Por exemplo, as palavras que escrevi antes dessa, já estão no passado. 🙂 Valeu, obrigado. abs.

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