A Gruta do Lou

O palhaço e as finanças

O Palhaço - N. Mello
O Palhaço – de N. Mello

Pintura de Nivaldo de Mello (in memorian)

Não sei se é o seu caso, mas muitas pessoas enfrentam grandes dificuldades nessa vida, sobretudo na área financeira. Há uma série de razões para isso, circunstâncias, modelo econômico, formação, conhecimento, equilíbrio psicológico, religiosidade, enfim a lista pode ser enorme.

O fato é que para cada pessoa nessa situação, uma dessas causas tenderá a prevalecer, no máximo duas. Em minha experiência, uma das razões de instabilidade na área financeira mais frequente é o desequilíbrio psicológico, geralmente herdado através do modelo econômico paterno.

Meus pais formavam um casal “sui generis”, de difícil entendimento nessa área.

Minha mãe é do tipo mais adaptado, sempre preferiu a segurança de um emprego, com salário fixo e carteira assinada. O lema dela sempre foi: “O seguro morreu de velho”.

O auge da carreira profissional dela foi um cargo de supervisão em vendas na Avon Cosméticos, uma função acima das promotoras que, por sua vez, cuidavam do trabalho das vendedoras, hoje conhecidas como consultoras. Enfim, uma posição bastante sólida que ela cultivou começando desde o primeiro estágio e permaneceu por quatorze anos, até ser despedida com pompa e circunstância, para viver dos louros dessa conquista.

Fora isso, ela trabalhou como funcionária pública durante dezoito anos, legado da minha avó, uma italiana que sempre dizia: “Para mim é preto no branco”, ou seja, tudo por escrito. A velha sempre poupou parte do que ganhou e, aos oitenta e três, continua poupando. Costuma dizer que ela faz isso por nós.

A situação financeira dela sempre esteve estável, principalmente depois que se divorciou do meu pai, embora nivelada por baixo. Atualmente vive da aposentadoria e outro dia, tentou conseguir um emprego em uma imobiliária que, gentilmente, alegou falta de vagas. Enquanto a idade lhe permitiu, depois do evento Avon, ela aferiu renda em vários trabalhos de vendas, inclusive no ramo imobiliário.

Já o meu pai, era o oposto. Aos quatorze anos saiu de casa uniu-se a um circo que passou por sua cidade, São José dos Campos, apaixonado pela garota que fazia o número do cabo de aço, presa pelos cabelos ela descia de uma altura de vinte metros, via cabo, até tocar o solo. Aos dezoito anos, eles já estavam casados e tinham um filho. Logo depois veio outro. Então houve uma epidemia de tuberculose e meu pai perdeu a mulher e o filho mais velho e, aos vinte e poucos anos, estava viúvo com um filho a tira colo.

No circo, a renda era dividida, todas as pessoas envolvidas (atores, auxiliares, malabaristas, trapezistas, acrobatas, domadores, mágicos, palhaços, etc.) eram de uma mesma família (no caso, a família Aretuza), com raras exceções. Então a renda era dividida quase irmãmente.

Era um sistema parecido com o comunismo, não aquele que não deu certo, mas um tipo que funcionava, embora precariamente. A tal renda variava um bocado, dependendo das circunstâncias. Nessa época, meu pai não tinha contas a pagar, pois aluguel, luz, água, roupas e comida eram providenciados pela comunidade circense dele.

Depois dessa fase, com a derrocada dos circos, que viraram circos-teatros, antes de acabar, meu pai foi parar no rádio, como ator de novelas.

Em 1950, quando a televisão começou a funcionar no Brasil, trabalhou na primeira novela apresentada na TV, uma adaptação da novela caipira do rádio, então com imagem, além de som.

Não precisa perguntar o nome artístico do meu pai, pois isso não fará a menor diferença. Assim. o velho era um artista e como tal, levava a tal “vida de artista”.

Não sei se você sabe, mas a vida financeira dos artistas (de rádio, TV ou teatro) costuma ser muito instável. Geralmente eles ganham por trabalho realizado e não tem registro em carteira. Os trabalhos não são sequenciais e tem curta duração, geralmente.

Há exceções, como no caso dos atores que fazem jornalismo ou os que mantêm programas fixos, desses que só acabam quando o cara morre, como o “Cassino do Cacrinha”, “Domingão do Faustão” e “Programa do Jô”.

O velho nunca perdeu sua alma de artista, até morrer. Paralelamente, Passou a dedicar-se à confecção de outdoors e decoração de ruas e vitrines, graças a um talento nato para o desenho e, principalmente, para a pintura. Esse trabalho, muitas vezes, foi extremamente rentável, especialmente durante as campanhas políticas, quando a produção se multiplicava exponencialmente.

Cheguei a participar do trabalho, muito, nessa fase. Então ele comprou casas, inclusive na praia, tínhamos dois carros, que não era comum naquela época, e frequentávamos os melhores restaurantes. Entretanto, em outros momentos, a coisa virava de cem para zero, meu pai ficava endividado, a Ligth (Cia de luz daqueles dias) vinha e cortava a luz, que o velho religava assim que o caminhão deles se afastava e a comida caia para qualidade E, ou seja, “E agora”?

Essa diferença entre meus pais, como você deve imaginar, era a razão principal do litígio entre os dois e que culminou na separação definitiva, se bem que, o velhinho safado já tinha se garantido com outra mulher (mais nova que minha mãe) lá para os lados do Paraná, onde por sinal, a carcaça dele repousa. Por lá a situação continuou do mesmo jeito, até ele passar dessa para uma melhor, segundo a lenda.

Embora não tenha sido por opção, acabei herdando esse modelo financeiro instável do meu pai, mesmo porque, ele me levou para conhecer o circo, participar de seriados (Vigilante Rodoviário, programas de rádio, etc.). Conheci muitos artistas famosos, desses que se eu mencionar, ninguém acreditará, sem falar nos jogadores do time do Corinthians, campeão do quarto centenário.

O problema é que não fui abençoado com nenhum talento especial, pelo menos que se saiba. Nos tempos de vacas magras, meu pai entrava em um evento qualquer no Parque do Ibirapuera e depois no Palácio de Exposições do Anhembi, acompanhado da malinha de pintura dele e ficava por lá durante os dias da montagem. No final voltava para casa com uma graninha razoável.

Uma vez tentei fazer o serviço de limpeza num desses acontecimentos e fui despedido por incompetência. Isso explica o meu currículo, recheado de experiências em várias áreas, de motorista a pastor missionário, passando por professor (Ed. Física e Teologia), profissional em marketing e informática, etc.

Atualmente, não sei bem o que sou, profissionalmente falando. Talvez consiga lograr a posição de aposentado, se encontrar algum bom e corrupto advogado. Fora isso, sempre há o bom e velho Deus, se bem que o Gondim não creia nisso e o Caio não perca a oportunidade de fazer alguma propaganda em cima dele.

Meu desafio é manter minha vida financeira equilibrada e, para isso, preciso lidar com minhas tendências heterodoxas em termos financeiros.

Meu lado artista e boêmio grita muito alto e é necessário abaixar esse som, constantemente. Gosto muito de estar no púlpito, no palco iluminado, palhaço de perdidas ilusões. Mas isso, quase sempre, não paga as contas e no mundo de hoje, o capitalismo superou-se em técnicas de cobrança e exclusão dos maus pagadores, também conhecidos como inadimplentes.

Livros de Auto-Ajuda não são opção para mim, mas a regra é lê-los logo que acordo e antes de dormir, diariamente. Sempre que interrompo essas leituras a coisa desanda. Talvez essa seja a causa de tantas pessoas como eu escreverem esses livros e resolvem suas vidas financeiras com eles. Depois do livro, vem as palestras, os cursos, os DVDs ou MP4 e boa.

Essa história não termina aqui, claro. Só não sei quando continuará.

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2 thoughts on “O palhaço e as finanças

  1. Não sei como vc não está ganhando dinheiro com o que você escreve, porque você escreve bem demais! Tá perdendo tempo! E as histórias são incríveis!

  2. Laura
    Sem dúvida, há material no blog para mais de um livro. Nos nossos arquivos estão estocados cerca de 1500 textos e imagino que daria para separá-los de acordo com suas tendências. Isso está feito de certa forma, através da separação em categorias, opção fornecida pelo sistema WordPress. Há um livro que estou escrevendo completo e que imaginei fazer com a ajuda dos leitores, comentando e criticando. Ele já foi visto mais de seiscentas vezes e não sei quantos o leram, talvez a maior parte porque ele ainda tem poucas páginas. Está muito longe de estar acabado, nem a introdução, ainda muito longe do que espero. Tenho um plano geral para ele, mas o negócio dos palpites não funcionou e já me decidi a terminá-lo. Só falta por as mãos na massa e estou certo que o farei. Ele está em um site chamado Bookess e pode ser acessado no link do rodapé aqui no blog. Esse sistema pode ajuda a conseguir uma futura edição, por aí.

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