A Gruta do Lou

O outro mago

Sabem, por certo, a história dos três magos do Oriente e como vieram oferecer suas dádivas junto à manjedoura de Belém. Nunca, todavia, ouviram contar do Outro Mago que também viu a estrela nascente, pôs-se a segui-la e, contudo, não chegou com seus irmãos à presença do Menino Jesus? O relato da aspiração deste quarto peregrino, de como lhe foi negado o cumprimento do seu anelo e de como na própria negação foi este realizado;  a narração de suas muitas viagens e das provações da sua alma; da sua longa procura, e do modo estranho como ele achou Aquele a quem buscava, essa é a história tal qual ouvi no Salão dos Sonhos, no Palácio do Coração do Homem.

“E vendo eles a estrela, alegraram-se com grande júbilo”. Mat. 2.10

Nos dias em que Augusto César era senhor de muitos reis e Herodes governava em Jerusalém, morava na Pérsia um homem chamado Artabã, cujo palácio ficava junto à última das muralhas que circundavam o Tesouro Real. Do alto de seu terraço, podia ele avistar para além das sete ameias pretas , brancas, carmesins, azuis vermelhas, douradas e prateadas, o cume sobre o qual refulgia a fortaleza do verão dos imperadores persas, como uma gema, numa coroa.

Então, foi assim que Artabã viu a estrela e a ela seguiu. A partir daí segue-se a narrativa de sua peregrinação e de como ele, embora desejasse seguir o sinal, encontrou e tratou os acontecimentos em seu caminho e por trinta e três anos esteve ocupado socorrendo vidas nos mais variados tipos de necessidades e lugares, sem nunca chegar ao mesmo destino dos outros magos. Então veio o fim:

Uma pulsação mais prolongada do terremoto agitou o solo. Uma pesada telha sacudida do teto, caindo, feriu-o na fronte. A escrava amparou-o. O sangue gotejava da ferida. Curvou-se ela para olhá-lo, temendo que estivesse morto.

Atravessou o crepúsculo uma voz serena e suave, semelhante a uma música longínqua em que as notas são claras, mas as palavras se perdem. A jovem olhou em roda em busca de quem falara, mas não havia ninguém. Então, os lábios do Outro Mago começaram a mover-se como que em resposta e ela ouviu-o dizer:

– Não, Senhor meu! Nunca te vi com fome e te dei de comer, ou com sede  te dei de beber. E, quando te vi estrangeiro e te hospedei? Ou nu e te vesti? E quando te vi enfermo ou na prisão e fui ver-te? Trinta e três anos te busquei, mas nunca vi tua face e nunca te servi, meu Rei.

A resposta suave, doce, soou e destra vez ouviu-a também a donzela, mui fraca e longínqua:

– “Em verdade, em verdade te digo que quando o fizeste a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste”.

Um calmo resplendor de admiração iluminou rosto pálido de Artabã. Um brando suspiro de alívio exalou-se-lhe dos lábios. Terminará a peregrinação. Seus tesouros haviam sido aceitos. O OUTRO MAGO tinha achado o Rei.

Princípio e Fim do livro O Outro Mago de Henry Van Dike Ed. Metodista 1969

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