A Gruta do Lou

O não evangelho

Sei do incomodo sentido por algumas pessoas com as misérias deste mundo. Dificilmente alguém aceita os argumentos de um endividado ou entristecido, principalmente, quando ele se mostra impotente e desanimado. Na base dessa relação há grande quantidade de idéias e falsas crenças pré-concebidas.

Nossa geração foi educada para o trabalho, sobretudo, para o emprego. Nesse caminho, esforço, persistência, recompensa, valor, etc… são palavras representativas das posturas requeridas à manutenção desse sistema. A formação pagã da grande maioria e sobretudo dos oriundos de países católicos contribui fortemente e está na raiz do problema. Mesmo os que se dizem adeptos da Graça, traem-se em suas posturas e argumentos, mostrando-se paganistas, muitas vezes.

Fico pensando na estranheza causada por Jesus com seu discurso anárquico, desprestigiando essas posturas e dogmas de segunda. Quantas vezes tentaram repreende-lo por isso? Aquela mulher doida que lavou seus pés com lágrimas e enxugou-os com o próprio cabelo. A outra que pediu as migalhas caídas de sua mesa. A conversa fiada com Judas preocupado com os gastos excessivos de perfume daquela perdulária. Maria preferindo estar ao lado do Nazareno itinerante ao invés de cuidar dos serviços da casa. Eu vim para os doentes, dizia. Imagino o pessoal a boca pequena cochichando coisas como: “Por que ele não manda essa gente trabalhar?” “Cambada de vagabundos!” ou “Ele devia mandar que exercitassem sua fé”; “Bando de inúteis”; “São todos perdedores”; e vai por ai.

Jesus não foi o Deus que nós queríamos. Ele próprio foi derrotado. Como bem disse Albert Schweitzer: ele não teve sucesso em sua missão. Mandou os discípulos pregarem cheios de poder e os caras, não só voltaram de mãos vazias, como foram envergonhados ao não conseguirem expelir um demoniozinho de quinta categoria. Seu discurso a favor dos mendigos maltrapilhos, dos indesejados, dos sofredores esvaziou a platéia. No fim ele estava falando sozinho. Só restou-lhe o ato radical da cruz.

Penso, cá com meus botões, se estamos conseguindo lograr algum êxito, nesse mundo perverso, ótimo. Se o Mestre estivesse aqui agora, ele não diminuiria o valor desses felizardos. Mas, sua ênfase recairia outra vez sobre os que não conseguem, sem julgá-los e com as mãos estendidas em sua direção.

Ele conhece como ninguém o problema e por isso escreveu o texto mais pregado da bílbia, a parábola do filho pródigo (Lucas 15). Sabia que a síndrome do irmão mais velho pegaria os “certinhos” pelo calcanhar. Paciência. Ele é assim. Um absoluto paradoxo.

“Ele chega ao nosso encontro como um desconhecido sem nome, tal como se aproximou, na margem do lago, daqueles homens que ignoravam quem ele era. Ele pronuncia a mesma palavra: Tu, porém, segue-me! E nos coloca diante de tarefas que ele precisa solucionar em nosso tempo. Ele ordena. E àqueles que lhe obedecem, sábios ou ignorantes, ele se revelará naquilo que eles experimentaram na sua companhia: Paz, atividade, luta e sofrimento, e então, através de um indizível mistério, eles virão a saber quem ele é…”

Apropriei-me dessas palavras de Albert Schweitzer por considerá-las exatas.

Dificilmente, alguém que nunca experimentou a dor entenderá o doente. Mesmo, assim, muitos sofredores não são capazes de solidarizar-se com os outros que sofrem.

10 thoughts on “O não evangelho

  1. É verdade, Lou… dificilmente quem n vive dor pode compreender quem está em dor… mas tb tens razão… mesmo os que passam por isso, mtas vezes parece que se esquecem…

    Tenho pensado mto em tudo o que escreveste. Sim, definitivamente Jesus não foi o Deus que desejávamos… mas a mim enche-me o coração saber que, tal como o Pai do filho pródigo, ele faz uma festa cada vez que eu me aproximo dele, eu que falho, eu que por vezes abandono a casa…

    O amor de Deus é incompreensível… escandaloso… irracional… e só quem consegue viver e conhecer isso pode ser como Ele.

    Um abraço… és mto usado por ELe.

  2. De acordo com o conceito de sucesso deste mundo, Jesus aparentemente não teve sucesso. Mas a aparente “derrota” dele foi a maior das vitórias e o melhor dos sucessos. Realmente só existe um vencedor: Jesus Cristo. Ele venceu o diabo, a morte e o pecado. Jesus venceu, Aleluia!

    A sua perda é o nosso ganho. “Graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.” Nele vencemos.

    DTA!

  3. Eu gostei muito deste teu texto, do jeito que falou de Jesus e da conclusão final. Não sei como expor considerações acerca deste teu pensamento.
    Até,

  4. Jorge

    Não sei se entendi bem, mas, você está dizendo que a vitória de Jesus foi conseguida através de perder-se para ganhar, dar para receber, morrer para viver e nessas aparentes derrotas é que a verdadeira vitória reside?

  5. Jesus é o Mestre do Sofrimento… e da Vitória!
    Talvez por isso quem não sabe o que é sofrer (o que duvido) não sabe o que é vencer.
    God bless you.
    T.

  6. Jesus não foi o libertador que os judeus esperava, não veio como um rei num palácio como os reis magos pensavam, não tinha um reino na terra mas no céu. Morreu quando esperavam que conquistasse a coroa, mas ressuscitou quando pensavam estar morto! Não é mesmo o Deus que nós queriamos e ainda bem! Como seria previsível, diminuido se fosse como a nossa tacanhez desejasse! Assim Ele é muito e surpreendentemente mais!
    Coom gostei destas suas palavras!

  7. Li um texto na ABU, de Samuel Escobar (que eu me lembre), onde ele descrevia Jesus (“Eis um homem…” começava) como um fragoroso fracasso e terminava dizendo que na história nunca houve alguém que tivesse tanta influência no mundo como ele.
    Muito lindo e pertinente.

  8. Pingback: Lou Mello

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