A Gruta do Lou

O mestre traduz sua parábola

“Acercando-se dele os discípulos , disseram-lhe: Por que lhes falas por meio de parábolas? Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado.” Mateus 13: 10 e 11

Bom, se o mestre dos mestres explicou sua parábola aos seus discípulos, porque eu, o último dos discípulos, não o faria. Prometi a Tinoca que o faria e promessas feitas à Tinoca precisam ser cumpridas.

Espero fazer melhor que o mestre. Ele explicou a parábola com outra parábola e deixou a rapaziada mais desnorteada que antes. Eu não farei isso, mas temo que a minha explicação cause alguns arrepios.

Não cabeção! Não pretendo explicar a parábola do semeador, mas a “A Novela”, texto que publiquei aqui na Gruta, ontem.

Faz tempo que observo os scripts, não apenas os usados no teatro, no cinema e nas novelas da TV, mas os scripts que cada um de nós desempenha na vida. Aprendi com um cara chamado Eric Berne (criador da Análise Transacional) que nós, como escravos, servimos aos scripts de vida que nos são dados por nossos pais, professores, governantes, pastores, etc… Bom, mais isso é outro assunto.

Acontece que, um belo dia, me caiu uma ficha. Sei que muitos de vocês já tinham percebido, mas sou sempre o último a desconfiar das coisas, devido a esse meu caráter inocente e lerdo. Percebi o script usado pela igreja e fiquei estarrecido ao descobrir que era o script mais manjado da face da terra.

Quando eu era mais jovem, adorava ler aqueles livrinhos que são vendidos em bancas de jornal. Agora vendem todo tipo de livros nas bancas, até o Nietzsche anda por lá, coitado. Mas, tempos atrás, eram os livrinhos de aventuras amorosas que se achava naquelas pocilgas. Cheguei a colecioná-los. Aliás, não faço idéia onde minha coleção foi parar. Provavelmente minha mãe tratou de se livrar dela durante alguma de minhas incontáveis viagens. Mas esses livrinhos eram escritos sempre do mesmo jeito, com um script único: O mocinho e a mocinha estavam felizes da vida com a descoberta do amor entre eles, aí vinha o vilão com seu bigodão (os vilões usam bigodes, cavanhaques e barba comprida) e raptava a mocinha. O resto da história continha o mocinho desorientado procurando sua amada e sendo sacaneado pelo vilão. No cativeiro, a mocinha dançava nas mãos do malvado. Só nas últimas páginas é que o mocinho lograva libertar a mocinha e casava com ela e dava-se o “happy end” de sempre. Os vilões, na maioria das vezes fugiam, pois são como as baratas, nada pode eliminá-los para sempre.

Uma vez, quando mudamos para nossa nova casa (devia ter meus nove anos de idade) que ainda não tinha luz, estava lendo um desses livrinhos, depois do jantar e sob a luz do lampião de gás, como fazia todas as noites, naquela época. Na parte em que a mocinha tinha sido raptada e estava no cativeiro, sozinha com o danado do vilão bigodudo, ele babando por ela, descrita na situação como uma jovem cheia de medo, ouvi minha mãe gritar: Lou, apaga esse lampião e vá dormir! Sabia que se não apagasse logo, ela viria e me deixaria no escuro, em poucos minutos, então tratei de ler logo o apocalipse da história. Abri o livro na última página (pois os apocalipses sempre aparecem no fim dos scripts) e li os últimos parágrafos descobrindo, com grande prazer, a libertação da mocinha e o casamento final com o mocinho e, para finalizar, o “e foram felizes para sempre”, assim fui dormir feliz da vida.

Dei-me conta que esse maldito script é mais velho que andar para frente. A igreja adotou-o há dez mil anos atrás, diria o finado Raul Seixas. Foi isso que quis descortinar com meu “A Novela”. No caso, meus personagens representam os personagens da história que a igreja inventou, à minha moda e na seguinte ordem: o mocinho, sem dúvida, é Jesus (traído, vilipendiado, enganado, adulterado, espancado e crucificado e cheio de bons princípios). A mocinha, lógico, é a igreja (adultera e não confiável, mas bonitinha) e o vilão, claro, é vivido na pele de cada pastor, padre, reverendo, bispo, apóstolo (malvado, adultero, sem ética, zero de escrúpulos, ladrão, com casa em Miami e contas no exterior , sem falar nos muitos outros maus predicados) ou seja, a maneira como o mal costuma encarnar.

Nem perca nosso precioso tempo tentando isentar seu pastor, ou sua igreja. Claro que estou generalizando e seu pastor e sua igreja fazem parte da exceção.

Era só isso, sem falar, óbvio, que os sacerdotes vestiram esse modelo de script porque ele á campeão. Não há quem não acredite nele. Eles têm séculos de experiência positiva a dar-lhes razão.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

4 thoughts on “O mestre traduz sua parábola

  1. ..Oi Lou….amei a parábola…rsrssss…. na minha novelinha, o vilão foi e é tão vilão que expulsou a mocinha da cidade… ainda bem o que o mocinho sabe o endereço dela…hahahaaaa….
    abraços

  2. Olá! Encontrei seu blog através do Saia Justa, há algum tempo. Estou lendo aos pouquinhos, mas já gostando bastante do que você posta. Leitura muito prazerosa. Abraço!

  3. Célia

    Obrigado! Fico feliz que você esteja gostando do blog. Agora você faz parte de uma minoria insistente e persistente. Parabéns! É um prazer tê-la conosco.

  4. Legal Lou.Gostei de sua parábola.Realmente ela faz sentido.A comparação foi muito boa!Em se tratando da igreja enquanto instituição,creio que não existam exceções.

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