A Gruta do Lou

Você tem medo da morte?

 Medo da Morte

Em três anos, escrevemos muita teologia por aqui. Falamos da teologia da morte dos protestantes em oposição à teologia da vida de Cristo e tantos outros temas. Nosso propósito, se os grandes teólogos me permitem, tem sido combater as falsas crenças, também, os exageros e as falácias mais escandalosas. Essas coisas escravizam as pessoas. A Gruta tem sido um lugar de amparo às vítimas desses males.

Nossas rubricas estão bagunçadas. Faz tempo que me proponho a colocar ordem nisso, mas ando procrastinando, até nisso. Imagino colocar tudo que foi falado e escrito a respeito desse tema sob a rubrica “Textos Sagrados da Gruta”.

Nada muito ambicioso. É que as coisas foram acontecendo e me parece haver algo bem aproveitável por aí. Claro que manterei tudo bem escondido. De repente a Cia. das Letras descobre e vai querer publicar.

Não, continuo em meu roteiro “low profile” e devo encerrar meus dias por aqui, assim. Depois vocês façam o que desejarem, inclusive, publicar tudo como se fosse seu, tá limpo, desde que deem o produto aos meus descendentes, óbvio.

Quando falo sobre a morte, a minha no caso, logo meus amigos me repreendem. Na verdade, esse cuidado me surpreende. É sim, fico com a aquela sensação meio estranha de que os caras acham que não acontecerá com eles.

Mais ainda, me passa a ideia de que estou infringindo o artigo 17428 da secreta lei da existência, onde reza expressa proibição de se falar da própria morte. Eles imaginam uma espécie de mortalha, onde o cara prepara tudo e depois morre.

Como fizeram aqueles estúpidos faraós do Egito, deixando aquelas abominações piramidais que ainda duram e um monte de panacas faz turismo e gasta os tubos para ver um monte de pedras empilhadas, onde dizem estar enterrado algum Faraó faraônico.

Sinto haver no receio de meus amigos crenças ainda mais funestas, tipo: se falarmos da própria morte, estaremos atraindo-a para nós e abreviando nossos dias por aqui.

Você tem medo da morte?

Bobagem. Todos nós estamos caminhando para a morte. Um pouco mais ou menos e catapimba, lá foi-se você também. Daqui alguns dias, completarei sessenta e sete anos. Provavelmente, estou no grupo dos chamados a ficar por aqui um pouco mais. Esse “mais” precisa ser bem entendido, ou seja, vinte anos mais para mim, agora, me levaria a uma vida de oitenta e sente anos, em um corpo já em adiantada deterioração ou envelhecimento, se preferir.

Trinta? Nem pensar, imagino. Pra quê? Enriquecer o dono da fábrica de fraldões? Talvez uns dez mais? Não sei, mas estou a caminho e não tem erro, para o acontecimento mais definitivo de todos os meus projetos e da minha vida, a morte.

Embora a morte seja inexorável, as pessoas vivem como se não fosse. Traçam planos mirabolantes como se fossem eternos. Diria mais, caso fosse um psiquiatra, as pessoas estão loucas.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem. Talvez minhas andanças com os mestres samurais tenham mudado meus conceitos cristãos sobre a morte. Dominar a arte é encontrar a vida, pois ela começa quando perdemos o medo da morte.

Era pouco mais do que um menino quando me confrontei com meu primeiro mestre. Infelizmente meu Alzheimer ou outra dessas doenças recém inventadas   levou o nome japonês dele para a parte inacessível de minha memória, ou estou precisando diminuir a vodka.

Era um japonesão, falava português com dificuldade e dizia chamar-se Mário, por ser mais fácil para nós. Era professor de Judô, mas não se preocupava quase nada com a luta em si, ensinava a Arte, pois era um Mestre.

Minha mãe combinou as aulas com ele e saiu para me comprar um quimono, me deixando com aquele cara enorme que mais parecia um lutador de Sumô, vestido em um quimono velho e surrado.

Sentei no tatame sob o olhar do mestre. Depois de um silêncio mortal de alguns minutos ele me disse de supetão: “Conheço você. Você é um mestre”. Fiquei pasmo. De onde seria? Como um adolescente meio banana como eu poderia ser um mestre? Começamos a praticar, meu primeiro exercício e depois a primeira sequência. Acho que me sai bem, mesmo sem quimono.

Minha mãe voltou com o quimono, entregou-me e foi embora. Pedi licença e fui ao vestiário vestir a coisa. Tirei minha roupa e comecei aquela dança ridícula de tentar vestir aquela geringonça estranha. Tirei e coloquei várias vezes, parecia haver algo errado, mas tinha vergonha de sair e perguntar ao mestre, na frente de todo mundo, como vestir aquilo.

Às tantas, percebi estar sendo observado, virei e quase morri de susto e/ou vergonha, era uma garota, uma japonesa e ela estava no vestiário me assistindo trocar de roupa, provavelmente me vira só de cueca.

Ela veio em minha direção com um espetacular auto controle do tipo gueixa e me ajudou com o quimono. Depois disse: agora está certo, pode voltar para sua aula. “Ah! Sou a Vilma , filha do Mário, seu professor. “

Voltei e sentei no tatame perto dos outros meninos. Não demorou e o Mário me chamou. Usou um menino mais velho que a maioria ali, provavelmente devia ser corinthiano, pois usava uma faixa preta prendendo o quimono branco e pediu para ele me mostrar uma passagem.

Fez isso com a ajuda do Mário. Saiu do chão de um lado, passou sobre as costas do mestre, com suas costas e caiu do outro lado, deitado no tatame e dando um urro estranho. Em seguida me disse, para repetir o mesmo exercício, passando sobre as costas de meu colega.

Hesitei, um pouco e o mestre me perguntou: “Que foi, está com medo de morrer?” Respondi de bate pronto: “Não tenho medo de morrer”. “Você é um mestre”. Repetiu. “Porque não tenho medo de morrer? Perguntei. “Sim, o fim de toda a arte é perder o medo da morte”. Disse o mestre.

Jesus era um samurai, mesmo sem nunca ter estado no Japão. Não temia a morte e sua teologia era uma grande apologia à vida. Para andar como ele andou, precisamos dominar a arte de viver, que começa com perder o medo da morte.

Capricornio PB

 

2 thoughts on “Você tem medo da morte?

  1. Não temos medo da morte.
    Temos medo é de viver de maneira ridícula, muitas vezes anulando
    os nossos sonhos, e não termos tempo para mudar…

    para mim, mesmo que possa viver um único dia celebrando a vida, valerá a pena.

  2. Aprendemos em “nossas igrejas”,a ter medo da morte e do inferno com seu fogo e enxofre.Se não andarmos na linha é para lá que iremos.Assim ensinamos às pessoas sobre o dito cujo,pra que elas se convertam. E o medo da morte parece nos convencer a ter uma vida “reta”.Ora,se Jesus disse que tinha vindo para termos vida, e vida abundante, se cremos que a morte é somente a passagem para mais vida, porque temer? Obrigada.

    Lou,escrevi para você,através do e-mail da Dedé,pois havia esquecido o seu.Pode por favor pedir a ela para deixá-lo dar uma espiadinha lá?Talvez ela ainda não tenha visto ainda.

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