A Gruta do Lou

O maior pecador

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Domingo, Janeiro 01, 2006

Lá pelos idos de 1960, eu estava fazendo o curso primário no Meninópolis, uma escola católica em São Paulo.

Certo dia, o Pe. Carlos entrou na minha classe e perguntou quem ainda não havia feito a primeira comunhão. Fui um dos alunos a levantar a mão. Então, ele disse para a minha professora D. Clotilde que iria levar aqueles meninos para uma reunião. Como ele era o diretor da escola, não houve contestação.

Fora da classe, estavam os meninos das outras classes e o grupo ficou grande. Fomos encaminhados para o cinema. Os padres, além da escola, mantinham o cinema ao lado, que servia de auditório para nós, também.

O grupo grande foi dividido em vários grupos menores e o Toninho Malavazzi, filho do zelador da escola, foi designado para ensinar o catecismo ao meu grupo. Durante semanas, tivemos uma hora de aula, diariamente.

Em sua linguagem tosca e pouco erudita, o Toninho expôs o evangelho de Jesus para nós. Fiquei encantado com as histórias, os milagres e me emocionei com o relato da via sacra. Fomos instruídos sobre os rituais seguintes ao nosso aprendizado, ou seja, a confissão, o ato de contrição e depois a comunhão.

Chegou o dia da confissão e fomos conduzidos à Igreja, em frente à escola. Sentei no banco, junto aos meus colegas e fiquei aguardando minha vez de confessar. Quando chegou a hora, dirigi-me ao confessionário e fiz meu relato. Não tinha muitos pecados para confessar. Era bom menino. Na ordem católica de pecados, só tinha alguns pecados veniais. Uma desobediência aqui, uma mentirinha acolá e era isso.

Terminada a confissão rezei o Ato de Contrição (obrigatório) e dirigi-me ao altar para pagar a penitência. Voltei e sentei no banco junto com os colegas que já haviam confessado e ao lado do Sérgio Faca. Era um menino todo empertigado, único a ir à escola de gravata e o cabelo penteado com Gumex (o geo da época).

Logo que sentei, ele começou a contar os pecados confessados e dentre eles, seu maior pecado: ter assassinado um gato. Em seguida, perguntou quais tinham sido os meus. Para não ficar por baixo, fui logo dizendo: “ih, você acaba de me lembrar do carneiro que eu matei e esqueci de contar p’ro padre”. Carneiro era maior que gato, o que me colocava em vantagem.

Esperto, o Sérgio disse: “Então é melhor você voltar lá e confessar”. Não dava para recuar, pensei em enganá-lo. Mas, não deu. Ele me seguiu até o confessionário e ficou bem perto. Então, só me restou ficar firme e confessar o pecado que eu não cometera e que me rendeu uma penitência muito maior.

Fui o último a terminar. Mas, ganhei o jogo e me tornei o maior “pecador” da turma. Claro que o Sérgio se encarregou da propaganda e fez todo mundo saber da minha traquinagem que, na verdade, nunca cometi.

Quanto ao título de maior pecador, acho que foi merecido, não pelo assassinato de um carneiro que nunca cometi, mas pela grande mentira, obviamente.

# posted by Lou @ 12:23 PM

 

1 thought on “O maior pecador

  1. Porque será que a lembrança de nossos pecados,e além de tudo,o fato de sermos “o maior pecador”,acontece muito nessa época do ano??Seria época de Balanço??Só Deus sabe…

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