A Gruta do Lou

O Mágico e a gravata

 

Stan Laurel

Clube dos Mágicos

 

O mágico e a gravata já apareceu em posts anteriores, tive oportunidade de relatar algo sobre a frustração de meu pai, em relação à minha participação no circo. Ele tentou me levar ao trapézio, mas minha mãe vetou. Mais tarde ele atacou de novo. Como alguns sabem, meu avô foi o primeiro. Ele fugia de casa certas noites e acabaram descobrindo a razão, muito diferente do que imaginavam, o velhinho ia ao circo fazer mágicas e tocar violino. E ele não era um mágico de ocasião. Era membro do Clube dos Mágicos, uma espécie de confraria secreta, onde é preciso cumprir certas exigências para fazer parte. Para ser mágico reconhecido é necessário ter sua competência reconhecida e fidelidade ao Clube. O grande problema é o cuidado para que os truques não sejam de domínio público.

Quem entra para o clube se compromete a não revelar os truques a ninguém, exceto ao seu herdeiro, escolhido para essa finalidade, que não precisa ser, necessariamente, alguém da família. Meu avô teve muitos problemas nos últimos anos de vida e não teve tempo de ensinar os truques a ninguém. Segundo meu pai, foi no leito de morte que ele pediu para que sua arte fosse entregue a mim. Como ele não poderia me ensinar, eu deveria ser encaminhado ao Clube onde os mágicos se encarregariam da tarefa.

Um belo dia, meu pai chegou em casa carregando um monte de badulaques, muito estranhos. Eram umas gaiolas esquisitas, cartolas, bengalas de vários tipos, capas estranhas, lenços, flores artificiais, etc. Foi nesse dia que fui informado da história toda e da minha herança. Meu pai me levou ao Clube e me entregou para o aprendizado mágico. Na verdade, não aprendi quase nada lá, em termos dos truques, os velhinhos eram uns malandros, pois ficavam me enrolando e não ensinavam nada. Só um me ensinou alguma coisa e não foi truque. O nome dele era Grande Mestre Soares. Ele foi o primeiro a me dizer: As pessoas acreditam no que veem e isso é o todo da mágica.

A Mágica

Saí desse episódio do clube sem saber como fazer mágicas, mas me achando um grande mágico. Aqueles truques básicos com moedas e cartas de baralho, eu aprendi rápido. Ao longo da vida, diverti as crianças com eles, em todos os lugares onde passei. Meus filhos sempre me viram como uma espécie de mágico. Até hoje, percebo neles certa expectativa de que, a qualquer momento, farei alguma mágica e coisas inesperadas aparecerão ou desaparecerão.

Além do truque da carta furada, aquele que o mágico joga o baralho todo para o ar, dá um tiro e no fim aparece furada, bem no centro, a carta previamente escolhida por alguém da platéia, que não posso mais fazer devido à lei que proíbe o porte de armas, tem o truque da gravata. Esse eu faço há mais de trinta anos. Como nunca trabalhei em circos, fiz de minhas palestras o meu picadeiro e, invariavelmente, começo-as com mágicas, sendo o número da gravata o meu principal.

Consiste em escolher na platéia uma gravata apropriada. Como faço isso há mais de trinta anos, tenho olho clínico para a gravata adequada. Tem que ser daquelas que o Sobel gosta de furtar em Miami. Eu prefiro as italianas, pois costumam ser as mais caras. Então, eu chamo a vítima lá na frente e peço a gravata dele emprestada para fazer a mágica, lembrando, sempre, que faço isso, há mais de trinta anos. Claro que dou uma conferida na etiqueta para me certificar que se trata de uma gravata autenticamente cara. Então, minha assistente, devidamente vestida (com aquelas roupas curtinhas, meias de nylon escuras, salto alto e cartola) traz a nossa mesa de mágica, onde o material necessário para a mágica está preparado. Pego a gravata e começo a picá-la com uma tesoura enorme, colocando os pedaços dentro da cartola. De vez em quando, dou uma olhada para o dono da gravata e lembro que faço isso há trinta anos ou mais. Depois de picar toda a gravata, acrescento farinha de trigo, pó de café, um líquido branco que chamo de cola e uns três ovos, quebrados com estilo. Misturo tudo bem e com uma pinça mostro a gosma para a platéia, lembrando os mais de trinta anos de experiência.

No momento de maior êxtase, pois as mágicas fazem isso com as pessoas, pego minha varinha de mágico, aponto para a cartola e digo três vezes: Abra ka dabra! Pego o produto dentro da cartola e ao verificar que continua tudo do mesmo jeito, olho para a plateia e digo: Não deu certo, ainda. Vamos tentar de novo. Fiquem tranquilos, faço isso há mais de trinta anos. Confiem em mim. Aponto de novo a varinha para a cartola e: Abra ka dabra, três vezes. Outra vez constato que tudo continua na mesma com a gravata.

Aí chegamos ao Gran Finale, quando digo a todos:

De fato, faz mais de trinta anos que faço essa mágica e ela nunca deu certo.

Capricornio PB

14 thoughts on “O Mágico e a gravata

  1. HAUhUHauhaHAUHAu

    Essa foi ótima.

    Você já apanhou alguma vez do dono da gravata ou era sempre um irmão espiritual que não liga para perdas materiais?

  2. Hernan

    Prometi a mim mesmo, nunca, revelar essa parte da história. São os ossos do ofício.

    Vilma

    Eu sempre fico com os restos das gravatas.

  3. Lou,
    🙂
    no próximo TRECO – oscar dos nossos adolescentes, você já está confirmadíssimo p’rá ser o mágico!!!
    e todos vão de gravata!
    vai ser norma!
    🙂
    🙂
    beijos,
    alê

  4. Tuco
    Na verdade, o lance é não funcionar. Como eu aprendi no Clube dos Mágicos, as pessoas acreditam no que vêem. Mas há um truque aí, afinal é mágica.

  5. Você me pegou, fiquei uns dois minutos tentando mover a foto, achando que tinha um texto sob a mesma.

    Abraço

  6. Junior
    Desculpe. Foi mal. Quando disse “há um truque aí” me referia ao momento em que a mágica é feita no salão. Apesar de não dar certo, como as pessoas pensam e vêem, ela dá certo, uma vez que o objetivo é fazer uma mágica que nunca dá certo. Entendeu? Fácil né?

  7. Lou,
    Você é o mágico perfeito para o circo contemporâneo. O circo que precisa cortar gastos.
    Afinal, com um mágico destes quem precisa contratar palhaços?

  8. AHHHH TÁÁÁÁÁÁ! Achei que o truque era jogar a gravata para o alto e todos serem curados. Pela fé deles é claro!

  9. AHHHH TÁÁÁÁÁÁ! Achei que o truque era jogar a gravata para o alto e todos serem curados. Pela fé deles, é claro!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *