O machado no chão

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“Os três fundamentos do mundo, segundo Kant seriam Deus (a teologia), o homem (a psicologia) e o mundo (a cosmologia). Deus teria morrido no século XIX (a declaração de Nietzsche deve ter algo a ver), o homem morreu no séc XX e o mundo está morrendo no séx XXI.´”, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro

No post anterior, divulguei, em português, notícias postadas pelo Dr. Dale W. Kietzman no perfil Facebook dele, sobre o Xamã (eufemismo de pajé) Davi Kopenawa, pagé yanomami que tem sido explorado para propagar ideias e filosofias ecologistas, mundo afora. Agora mesmo, prepara-se para uma nova rodada na Califórnia com objetivo de conseguir apoio em defesa das terras yanomamis (que se equiparariam ao estado norte americano do Missouri em termos do tamanho da área ocupada) em vias de ser novamente alvo da exploração de minério, devidamente respaldada pelo nosso ilibado Congresso Nacional.

Não pretendo entrar aqui na polêmica ecológica, embora não resista a uma ou outra observação irônica por aí. Meu propósito, como me ensinaram o próprio Dr. Dale, o Rick Warren, Dr. Shedd e o Ed Rene (vivam com propósitos), é pensar sobre essa constatação do colega pagé (o sacerdote na sociedade indígena) a respeito da nossa (dos brancos) espiritualidade, ou da situação atual dela.

Evidentemente, e todos nós estamos carecas de saber, dificilmente um brasileiro aparentemente branco como eu, de quarta geração ou mais, seja um branco de fato, mas isso seriam mais algumas picuinhas ou manias dos brancos, pois para o xamã yanomami somos brancos e pronto.

Segundo Davi Kopenawa, nas palavras do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que lembra muito nosso amigo e membro honorário dos Sem Igreja, um grutense portanto, o Robson L. Ramos, os brancos dormem muito, e sonham apenas com eles mesmos, são o povo da mercadoria. Como sonham só com eles mesmos, sonham apenas com mercadorias e não conseguem sonhar coma as coisas espirituais, ou com as aves, os outros animais e muito menos com os outros seres humanos. São como o machado no chão. Segundo o pajé yanomami os brancos destruirão o mundo (leia-se terra) extraindo petróleo e ouro do fundo da terra e, com isso, abalando os fundamentos e provocando a queda e/ou afundamento de tudo. Tal evento soterraria toda a humanidade que viraria um bando de fantasmas vagando no centro da terra.

Essa constatação contrasta muito com a velha conclusão dos índios da Nova Guiné quando o Don Richardson e seus colegas “missionários” andaram por lá tentando convencer aqueles selvagens a trocarem o deus deles pelo Deus dos brancos. Pelo menos essa teria sido a conversa ouvida pelo próprio Don, da boca dos aborígenes da Guiné. Se não me engano, o nosso xamã comporta-se como o ET, em uma de suas visitas ao nosso planeta e se espanta com nossa civilização, sobretudo com os seres habitantes do planeta.

Sabe, não sou antropólogo. Em nossos dias, os psiquiatras resolveram declarar os não conformistas já em adiantado estado de decomposição cerebral, sua propriedade e domínio, os psicólogos, não fizeram por menos, e declararam os conformistas em vias de caírem nas mãos dos psiquiatras, sua propriedade e domínio, os assistentes sociais resolveram, então, arrogar todos os enjeitados do mundo capitalista para eles e os antropólogos trataram de declarar as civilizações indígenas como sua possessão. Afinal, ninguém é de ferro para aguentar as durezas de uma vida inteira cavando buracos para achar ossos e objetos devidamente carcomidos pelo tempo. Eles também gostam de alguma experiência com seres vivos, sobretudo com índias, no bom sentido, claro.

De qualquer forma, pegarei uma carona com o antropólogo Eduardo, afinal ele é um dos detentores do poder sobre os índios, para fazer minhas considerações relacionadas ao assunto no qual me considero dono da verdade, afinal os teólogos arrogaram para si o domínio das questões espirituais do ser humano, claro. Nós também não somos de ferro e gostamos de alguma coisa viva, de vez em quando, também, especialmente as coisinhas vivas que costumam tocar órgão nos cultos de nossas igrejas e/ou em outras dependências da mesma, no mesmo bom sentido dos antropólogos, lógico.

Então, se o xamã yanomami percebeu a nossa verdade, ou seja, somos incapazes de sonhar com nada além de nós mesmos e, portanto, não estamos aptos de sair de dentro de nós mesmos, também, estamos correndo grande perigo. Não existe nada mais perigoso do que sermos desnudados por nossos vizinhos, geralmente o inimigo. Fico pensando, muito preocupado com o ponto onde chegamos. Nunca na história desse país ou da civilização, havíamos sido descriptografados como agora, e por um xamã yanomami. Ainda se fosse por algum xamã inglês, alemão ou até um norte americano, vá lá. Isso é o que dá ficar levando esses caras para viajar prá lá e prá cá. Agora eles já sabem que o mundo vai muito além das terrinhas mixurucas que compõem suas reservas e que nós, os brancos, só pensamos em nós mesmos.

Quando trabalhei na Portas Abertas, quando aquilo ainda se parecia com uma missão cristã protestante, conheci o Jair. Se não me engano ele também era Yanomami, e pasmem, ele já havia concluído curso superior, apesar de ser qualquer coisa na área de humanas, o que não leva ninguém a lugar algum, obviamente.

Em minha opinião, dá para inferir mais alguma coisinha nas palavras do Davi Kopenawa e do Eduardo, refiro-me à condição espiritual do homem branco, tá bom, pode incluir aí os negros, também. Parece que o Google conseguiu relacionar setenta e três gêneros na raça humana, mas ainda não há confirmação da comunidade acadêmica, então vamos fazer de conta que são só quatro ou cinco gêneros, por enquanto. Os amarelos, paradoxalmente ainda desconhecidos do Davi, surpreenderiam o xamã, pois possuem espiritualidade diversa de brancos e negros.

É difícil abordar essas questões. Quando estive na África, encontrei muitos negros de alma branca. Calma, ainda não estou escorregando na maionese do preconceito. Refiro-me aos negros catequizados pelos brancos e transformados em cristãos. O resto, a grande maioria, continuava com suas práticas xamanistas muito parecidas com as do yanomamis.

A inferência a ser trazida à baila, via observações do grande sacerdote Davi Kopenawa, é que, de espirituais nós brancos não temos nada. Mesmo as nossas praticas religiosas não passariam um milímetro fora do círculo em volta de cada branco. Não precisamos concordar com isso logo de saída. Mas não seria nenhum exagero se, ao menos, pensássemos um pouco nisso. Vai que o índio tem alguma razão. Nunca é demais lembrar do fato deles terem chegado por aqui muito antes de nós. Vai saber o que aprontaram enquanto não precisavam se preocupar com nosso egoísmo e prepotência.

Meus amigos, companheiros e companheira grutenses, corremos o risco de não termos saído da casca do ovo ainda em termos espirituais. De vivermos ensimesmados e tudo que pensamos sobre Deus, não passar de conjecturas sobre nós mesmos e nosso narcisismo latente. Durma agora com um barulho desses.

Se tiver a paciência de um monge feito eu, assista a palestra do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro que começa dizendo não ser filósofo para se contradizer no resto de sua fala. Mas há algo a aprender nela, garanto.

Filosofia, Antropologia e o Fim do Mundo – Eduardo Viveiros de Castro from LA REVOLUCION ES AHORA! on Vimeo.

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