O lixo

Algum tempo atrás, a prefeitura de Sorocaba resolveu adquirir e disponibilizar containers (acima) para a população depositar o lixo. Embora eles não fossem grandes o suficiente para abrigar o lixo de uma única casa, durante os dois ou três dias de intervalo até a passagem do caminhão e seus coletores (quando eles não resolvem aumentar o intervalo ainda mais), surpreendentemente, não foram distribuídos em quantidade suficiente para contemplar cada uma das casas existentes na cidade.

Em uma olhada rápida e descuidada, você e eu diríamos que isso representaria um gasto excessivo, até um desperdício. De fato, mas só se for um desperdício de mão de obra parada e encostada no desemprego ou trabalhando no lixo, mas informalmente, na nova profissão criada pelo eminente presidente Lula, ou seja, a de catador de lixo, muito mais nobre do que a de coletor. Coletores são meros funcionários públicos, enquanto catador é um empresário, trabalha na iniciativa privada e é dono do seu próprio negócio. Quem não gosta desse negócio são os donos do lixo que eles vasculham, desempacotam e espalham pra todo lado, depois de separar o que lhes interessa levar em seus bizarros carros de transportes. Uma coisa que nunca consegui entender no exercício da profissão dos catadores é o por que deles abrirem todos os sacos, mesmo depois de nossas esposas terem separado alhos de bugalhos para facilitar-lhes. Além de não entender, essa prática deles é um desastre monumental do ponto de vista sanitário, uma vez que resto de comida com bosta de cães e gatos se espalham pelo asfalto até a próxima chuvinha maneira. É incrível o desprendimento dos senhores políticos, no sentido de combater o desemprego. Coisa que eles juram por Deus, ou sei lá por quem, estar diminuindo galopantemente. Sei não, acho que se já tivesse diminuído o tantinho que eles vivem falando não haveria tanto catador de lixo assim, né?

Mas essa não é, nem de longe, a única sacanagem envolvida nessa história do lixo. Os sortudos coletores, ceis precisavam ver como eles esnobam os catadores, tem algumas práticas muito interessantes. No começo eles tratavam de diminuir os containers a serem coletados, afinal não era mole dar conta de tanto container pois, em cada rua, havia pelos menos uns oito ou nove para trocentas casas. Como isso era feito? Simples, socando o lixo dentro dos containers numa tentativa bisonha de compacta-lo. Aí eles completavam com o lixo dos outros containers e, no fim, tinham menos containers para coletar. Era uma cena digna de ser filmada e mostrada no Jornal Nacional de qualquer redezinha de TV. O cara (geralmente era um, talvez o novato, ou o cara que perdia a aposta e nem me pergunte o que eles apostavam…) tinha um trabalho monumental para fazer o lixo dos containers diminuir, só para que o trabalho de seus colegas vagabundos fosse menor. Ah, mas eles não eram tatus não. Logo perceberam que esse negócio de compactar lixo não estava com nada. Melhor mesmo era eliminar containers, já é número substancialmente reduzido, do ponto de vista dos donos do lixo. Então trataram de praticar arremesso de containers. Lá do alto do caminhão os pobres containers de plástico vagabundo, oriundos da fábrica de um parente distante de um senador do mesmo partido do prefeito, ou algo assim, passaram a ser arremessados de volta às ruas, após serem pessimamente esvaziados.

Assim, em pouco tempo, reduziram o número de containers substancialmente e com isso o volume de seu trabalho. Há quem diga na cidade que eles até roubavam containers na calada da noite e os jogavam precipício abaixo ou até vendiam às construtoras que deles fazem bom uso. Mas eu recuso-me a acreditar nessa hipótese. E o mais bizarro disso é que o patrão, ao ver que eles estavam voltando mais rápido para casa, tratou de dispensar coletores aumentando o contingente dos catadores para a glória deles. Falo dos patrões, claro.

Agora, a coisa ficou assim, sumiram quase todos os containers e o lixo é depositado por seus donos, de forma seletiva, no lugar onde haveria de ter um container. Seletiva porque você pode selecionar se quer colocar o lixo sobre o lixo já depositado ou ao lado dele. Isso fica a seu critério, digo, seleção. Quando o caminhão e os coletores nada a fim de coletar passam, coletam o que lhes dá na telha e o resto fica lá, como rastro de sua ineficiência e atestado de incompetência dos nossos queridos e amados políticos e seus parentes corruptos.

O planeta não está ameaçado por causa do aquecimento solar, que nem existe na forma propagada. O planeta está ameaçado pelo lixo que nós produzimos e não sabemos o que fazer com ele. Não o queremos em casa, nem na frente de casa, muito menos, perto de casa. Também não queremos saber onde o prefeito e a presidenta vão enfiá-lo. Isso é problema deles, desde que não nos molestem. Temos muito que fazer e não temos tempo para ficar selecionando lixo, orgânico para cá e papel para lá. Seria excelente se não tivéssemos que conviver com coletores e muito menos com catadores de lixo e seus carros maravilhosos. Amém.