O Livreiro de São Paulo

O livreiro de CabulO Livreiro de Cabul

Ao mesmo tempo em que tenho o ímpeto quase incontrolável de pegar minha amada com a tropa toda e seguir para algum lugar no litoral entre Rio e São Paulo, talvez Ilha Bela, para desenvolver uma pousada spa do espírito e mente, outro devaneio é o comércio ilegal de livros. Não ilegal devido a algum tipo de falcatrua fiscal ou criminal, mas dentro de uma proposta absolutamente própria, onde livros de origem pouco recomendável não teriam vez.

Não sei se vocês assistiram a um filme nada Cult chamado “Nothing Notting Hill”, um romance água com açúcar protagonizado por Júlia Roberts e Hugh Grant, então, eu gostei muito do filme. Tá, já sei que isso surpreende a maioria, mas sou tão ambíguo quanto qualquer um. Mas sossegue, do romance dos protagonistas tenho pouco a dizer, a não ser um leve destaque para a cena final, quando o livreiro invade a coletiva de imprensa da star e propõe-lhe casamento, sob os auspícios de She. O que me encanta no filme, na verdade, é a livraria do mancebo. Uma livraria minúscula especializada em livros de bolso. A livraria Don Casmurro da novela Laços de Família também entra como destaque, especialmente pelo estilo de vida do livreiro, menos o romance com a Vera Fisher.

Anos atrás, costumava perder tempo na galeria dos evangélicos na Rua Quintino Bocaiuva, centro velho da cidade, onde havia um livreiro, meio idoso, que mantinha uma biblioteca evangélica aberta à consulta popular, em uma das lojas da galeria. Ele era um missionário americano ou inglês, e não dependia das consultas aos livros para viver. Na verdade, na maioria das vezes não cobrava, ficava com pena do pessoal e deixava a taxa para outro dia, que nunca chegava. O legal era sentar lá e bater papo com o gringo. Ele sabia tudo.

Minha ideia seria manter e extasiar-me com uma livraria em minha cidade e ser conhecido como o livreiro de São Paulo. Não apenas vender livros, mas estar ali, disponível para conversar com as pessoas, falar sobre livros, autores, editoras e contar histórias ao povo. Acho que precisaria haver um espaço para palestras e debates onde todas as semanas houvesse uma agenda legal, sem os orgulhos e prepotentes, claro. Um café quente no frio e um sorvete fino ou um suco natural no calor.

Lá em Louisville KY, havia uma livraria que me atraia, com várias opções gostosas, mas era um mega shop de livro. Minha ideia é um lugar pequeno, mais discreto e não menos popular. Mas com algumas regras básicas, como exigir que os frequentadores estejam vestidos (isso deixa de fora as bermudas e camisetas sem mangas para os homens, as mini-blusas para as mulheres e as sandálias tipo havaianas para todos, nada contra em qualquer outro lugar), sóbrios e limpos.

É, acabamos sempre pendendo para a lei, em prejuízo da graça. Mas isso não tem a menor importância. O alvo seria tocar a arte de ler para frente. Quanto ao ganho, dando para viver com dignidade, estaria bom. Sofro ao ver as editoras penando para manter-se vivas. Canso de dizer para os envolvidos que o segredo está na comercialização. Livros não podem ser vendidos como sapatos ou revistas. É preciso glamour, charme e certa erudição. Se eu dirigisse uma editora, abriria uma livraria, não para vender os livros da editora apenas, mas para vender de tudo, atenção, calor humano, livros em geral e os próprios, também. Puro romance de um romântico, coisa que os experts de vendas abominam: os românticos. Para eles, Hegel não teria vez.

Já pensou tornar-me personagem de um livro de Asne Seierstad? Nem Deus poderia me dar algo melhor.

Tá legal, publicarei a lista de livros e pronto.

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Capricornio PB