A Gruta do Lou

O Jesus que eu conheci

“O Jesus que eu nunca conheci” escrito pelo Philip Yancey é um livro que eu gostaria de ter escrito. Em sua narrativa encontramos um homem declarando, com sinceridade, ter conhecido um Jesus muito diferente do Homem de Nazaré descrito e narrado pelos evangelhos. Esse foi o meu caso, igualmente. Ainda no primário, realizado no Meninópolis, uma escola católica que havia em São Paulo, participei da preparação para a minha primeira comunhão. Meu professor foi o filho do dono da cantina da escola, o Toninho Malavazzi. Talvez tenha sido o melhor ensinamento recebido sobre o mestre. Depois dele, só encontrei ensinamentos falseados da figura e personalidade do Mestre Galileu.

De certa forma, ou de muitas formas, sou grato ao meu primeiro pastor na Igreja Evangélica, o Tio Cássio. Seus disparates e afirmações estapafúrdias sobre a teologia, especialmente sobre a vida de Cristo, e a filosofia foram um grande incentivo à uma reflexão madura sobre o primo de João Batista, sua vida e missão. Meu tempo na Igreja Batista não melhorou nem piorou nada nesse tema. Quando o Papa João Paulo I morreu, ele tinha nas mãos o livro “Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis. Não descansei enquanto não consegui o meu exemplar. Nessa época eu queria ler tudo que pudesse sobre Jesus e esse detalhe soou como um sinal para mim.

Desde o Toninho até o Tomás, descobri um Jesus homem cuja maior dificuldade era não ser Deus. A mim, pareceu haver nele uma luta constante para deixar o Pai ser Deus e ele o filho que veio para pagar o resgate por uma humanidade seqüestrada pelo prazer, pelo poder e sob o domínio do mal. Em sua breve passagem por essa terra, fez questão de contradizer os sacerdotes e enfatizou o lado doce e paternal do Deus criador, ou nas palavras de Yancey: “Jesus revela um Deus que nos busca, um Deus que dá lugar à nossa liberdade mesmo quando isso custa a vida do Filho, um Deus vulnerável. Acima de tudo, Jesus revela um Deus que é amor.”

Ainda teve tempo de ser exemplo de um homem sereno, sempre com palavras doces e assertivas, sem se deixar levar pela emoção, mas firme e decidido por sua causa insana. Havia no Mestre uma leveza e simplicidade que fizeram dele o ser mais complexo de que se tem notícia. Seu bom humor e uma leve ironia, usada para amenizar os momentos mais ácidos, contribuíram para o tornar único e verdadeiro. Como disse o Nouwen*: Jesus foi o Filho Pródigo de Deus.

Ele não é o dinheiro que me falta para pagar minhas dívidas, não é o amor perdido de uma mulher abandonada, tão pouco o ente querido de alguém, que se foi precocemente. Esses acontecimentos servem para engrossar o caldo de seu sofrimento por nós, apenas. Nós não sofreríamos a dívida que não fizéssemos, nem pelo amor que não estabelecêssemos ou pelo ente que não tivéssemos. Nossas dores advém, principalmente, das nossas decisões equivocadas e ele veio para nos livrar da única coisa capaz de nos atirar no vale da sombra da morte eternamente, ou seja, a culpa, real ou imaginária.

Creio que chegou o momento de pregar o Jesus verdadeiro. Essa é a fórmula capaz de desconstruir as pirâmides erigidas pelos lobos em pele de cordeiro e que afastaram as pessoas do Jesus verdadeiro.

*Henri Nouwen citado no mesmo livro pág: 289

15 thoughts on “O Jesus que eu conheci

  1. Grande Lou !!!….sabe de uma coisa? você realmente escreve o que eu tb gostaria de ter escrito !…e estou contigo no propósito de pregar o verdadeiro evangelho do único e verdadeiro Cristo !
    … e viva a Graça de Deus, por Jesus Cristo, que nos impulsiona e motiva a viver na força e na direção Dele !
    Abraços pra vc.

  2. Lou,
    Hoje também está “na moda” em certos sectores protestantes, elogiar e elevar a humanidade de Jesus. Sem querer tirar a importância de Jesus ser O Homem perfeito que nunca pecou, não esqueçamos que Ele era e é, sem nunca deixar de ser, o Deus “único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1:4 ).

    Abraço

  3. Jorge

    A chamada “Crise das duas naturezas” viveu seu maior e mais efervescente momento na segunda metade do século XIX, devido à antiga confissão eclesiástica cristã que proclamava: “vere Deus et vere homo” sendo submetida a uma crítica cada vez mais exaustiva, como nos informa nosso amigo G. C. Berkouwer em seu excelente livro: A Pessoa de Cristo. Segundo ele, desde os primeiros séculos, a Igreja professou o mistério da Salvação em Cristo, defendendo-o contra numerosas heresias que negavam ora sua natureza divina, ora sua natureza humana. Lembra, ainda a admoestação Joanina: “Quem não confessar que Jesus Cristo veio na carne é guiado pelo espírito do Anticristo” (1 Jo 4:3). Pessoalmente, optei por um Cristo que teria se despojado, completamente, de sua deidade e se feito carne por amor da humanidade. Seu sacrifício, sendo Deus, perderia em valor e Jesus desejou nos mostrar que a salvação está ao alcance de cada ser humano em sua natureza humana. Em outras palavras, essa questão teológica já dura uns vinte séculos e resolvê-la nessa altura nos daria o Nobel de teologia ou seu equivalente, se não houver. 🙂

  4. Lou, gosto muito deste livro também…
    apesar de nunca ter pensado como vc: “gostaria de ter escrito…”
    o Yancey tem a qualidade de não fazer questão de “seguir a boiada”, fala o que pensa e pensa, o que é muito bom!
    beijos,
    alê

  5. Alê

    Gostei do negócio do Yancey não seguir a boiada e pensar. Em um primeiro momento fiquei todo orgulhoso pensando: ela me vê como alguém como o Yancey, que não segue a boiada e pensa. Mas depois meu ego me atacou de novo dizendo: acho que ela pensa exatamente o contrário. 🙁

  6. Lou,

    Embora não tenha muitas leituras, e não conheça tantos Teólogos assim… o que é certo é que eu “pressinto”, olhando para trás e… ao redor de mim, hoje, que durante estes mais de dois mil anos, “muito boa gente” contribuiu para que o nosso Santo, Bendito, Glorioso e Amoroso, Senhor Jesus Cristo,seja visto e apresentado como alguem que nada ou muito pouco, tem a ver com Ele.

    Provávelmente eu tambem contribui, e estou a contribuir.. para isso. Ai de mim!

    Porém, estou pronta e decidida, e Ele sabe que é assim…pois temos conversado muito sobre isso, a dar a conhecer a todos os que me rodeiam ou que contactam comigo, a verdadeira, bela e esplendorosa, imagem do meu Amado e Querido Cristo.

    Assim Deus – o Pai me ajude.

    Tenha um lindo dia

    um abraço
    viviana

  7. Viviana

    Além disso, até nossos erros de julgamento em relação a ele mesmo já estão cobertos pela cruz. Lembra, o último ato dele foi exatamente esse: Pai perdoa-os, pois não sabem o que fazem.

  8. No decorrer da minha vida me foi apresentado um Jesus que estava pronto a me desaprovar constantemente em quase tudo que eu fazia. Parecia-me que ele estava na espreita aguardando um momento de vacilo para me olhar tristemente e menear a cabeça. Isso fez com que eu desenvolvesse um sentimento de total inferioridade diante dele. Era como se eu fosse demasiado pecadora para conseguir seu olhar de amor, suas respostas às minhas petições, sua aprovação aos meus desejos. Hoje começo a perceber que não é bem assim. Quem me acusa dos meus erros não é ele. E, por mais que eu seja imperfeita, ele me ama, me corrige, me usa e fala comigo. Acho que o estou conhecendo, de fato, agora.

  9. Dias atrás fiz vários comentários em suas postagens, mas quando vim olhar suas resposta agora, nenhum deles está aparecendo. Houve problemas por aqui, para receber comentários?

  10. Célia

    Esse é o caminho de todos nós. Primeiro conhecemos o que não é para, enfim conhecermos o que verdadeiramente é, aí o trabalho será desconstruir o que não era. Claro que o ideal seria conhecê-lo logo, como ele é, mas a igreja tem falhado nisso e nós somos a igreja, também.
    Quanto aos seus comentários, é verdade. Eu os vi e cheguei a comentar um ou dois deles. Por exemplo, no dia 06/05/08 você comentou o post ” A Vida de Cristo” e no dia 07 eu escrevi uma resposta para você. Os outros foram anteriores. Houve uma instabilidade na Gruta, no início do mês, pois fomos atingidos por um terremoto, como você sabe. 🙂 É sempre uma grande honra receber seus comentários. Obrigado.

  11. Mandou muito bem!

    O Mestre da Galiléia retira nossas culpas!

    Como sempre, a Gruta nos oferece um cantinho úmido longe dos predadores…

    abraços Lou

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