A Gruta do Lou

O Jesus pugilista desafia o Cordeiro

Numa entrevista que deu há alguns anos para a Relevant Magazine, Mark Driscoll (conhecido pastor de Mars Hill, em Seattle) afirmou:

Em Apocalipse, Jesus é um boxeador profissional com tatuagem na perna, espada na mão e o empenho de fazer alguém sangrar. Esse cara eu consigo adorar. Não consigo adorar o Cristo hippie, de fralda e de aura, porque não consigo adorar um cara que eu mesmo surraria com facilidade.

Tenho dificuldade em entender como um discípulo de Jesus pode se considerar incapaz de adorar um cara que “surraria com facilidade”, sendo que cada discípulo de Jesus já o crucificou. Também não consigo enxergar o que há de digno de adoração em alguém que empunha uma espada “com o empenho de fazer alguém sangrar”. Dito isso, não me surpreende que Driscoll acredite que o Apocalipse apresente Jesus como um “boxeador profissional”. Essa imagem violenta de Jesus, fundamentada numa interpretação literalista de Apocalipse, é muito comum entre cristãos conservadores, tendo sido em especial popularizada pela notavelmente violenta série Deixados para trás.

O aspecto mais infeliz dessa leitura errônea, como revela o comentário muito explícito de Driscoll, é que o retrato de Jesus como “boxeador profissional” facilmente perverte o Jesus dos evangelhos, que escolhe morrer de amor por seus inimigos em vez de usar seu poder contra eles, e que manda que seus discípulos façam o mesmo (ver, por exemplo, Mateus 5:43-45; Lucas 6:27-36). Na verdade, lendo-se com cuidado essas passagens percebe-se que Jesus faz de amar os inimigos e de rejeitar toda a violência o pré-requisito para sermos considerados filhos de Deus. Amar os inimigos como ordenado por Jesus (e pelo restante do Novo Testamento; por exemplo Romanos 12:14, 17-21; 1 Pedro 2:21-23) requer que crucifiquemos o impulso de recorrer à violência, enquanto o modelo de Jesus como “boxeador profissional” com “o empenho de fazer alguém sangrar” permite que nos entreguemos candidamente a ele. Se podemos descartar o Jesus amante da paz como “um Cristo hippie, de fralda e de aura,” estamos também livres para infligir vingança sobre nossos inimigos a nosso bel prazer – sentindo-nos inteiramente justificados nisso.

Ora, não há como negar que o livro de Apocalipse está cheio de imagens de violência. Porém a interpretação literal dessas imagens não apenas contradiz o Jesus dos evangelhos e o ensino de não-violência do restante do Novo Testamento, mas ignora também o gênero e o contexto histórico do livro. Não apenas isso, a abordagem literal de Apocalipse deixa de atentar para os detalhes do uso que João faz uso de simbolismo apocalíptico e do Antigo Testamento.

Por exemplo: como já observado por uma multidão de estudiosos, Jesus não traz a sua espada em punho, como alega Driscoll; ela, ao contrário, sai da sua boca (1:16; 2:16; 19:15,21), querendo dizer que Jesus derrota seus inimigos pelo mero ato de falar a verdade. Do mesmo modo, os santos não alcançam a vitória através de armas físicas, mas pelo “sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho” (12:11). Na mesma linha, é significativo que na cena climática de batalha em Apocalipse 19, o guerreiro Jesus vista uma túnica banhada de sangue mesmo antes que a batalha comece (versos 13 e seguintes). O sangue, muito claramente, não é de seus inimigos, que ele está ainda por combater. O que o simbolismo sugere, em vez disso, é que Jesus vai à batalha e em última instância reina supremo pelo derramamento de seu próprio sangue.

Isso está relacionado diretamente com aquela que talvez seja a imagem mais importante do livro. É crucial entender que o guerreiro banhado de sangue que batalha com as palavras da verdade é o Cordeiro abatido de Deus (por exemplo, 5:6-13). O Cordeiro assenta-se no trono e é o único “digno” de abrir o livro que revela o modo de Deus governar o mundo e derrotar a perversidade. Na verdade, muitos estudiosos argumentam que todo o propósito do livro do Apocalipse é defender diante das críticas o modo divino, sacrificial e semelhante a um cordeiro, de vencer o mal. Ou seja, o método de Deus, de vencer o mal pela disposição de morrer em vez de conquistar pela violência, deixa a impressão de que ao longo da história ele esteja sendo derrotado – porém todos verão que ele triunfa no final.

De qualquer modo, se interpretamos o Apocalipse em conformidade com seu gênero e dentro de seu contexto histórico original, e se atentamos para os modos engenhosos com que João utiliza o simbolismo tradicional, fica claro que João está se apropriando das imagens violentas do Antigo Testamento e dos apocalipses e revertendo-as por completo. Sim, há uma guerra de agressão e há derramamento de sangue; esta, porém, é uma guerra em que o Cordeiro e seus seguidores triunfam porque lutam contra o diabo e contra a Babilônia (representando todos os sistemas de governo) entregando fielmente suas vidas por amor à verdade – “o sangue do cordeiro e a palavra do testemunho deles”.

Gregory A. Boyd, em seu blog

Clonado do blog Bacia das Almas, sem qualquer permissão ou cerimônia.



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