A Gruta do Lou

O ESTUDANTE, O PEIXE E AGASSIZ

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Peixes de Agassiz



O Dr. Shedd adora essa história. Todos os anos, narra aos seus alunos e, não contente, insere-a na apostila de Novo Testamento. Acho que não confia muito nos ensinos efetuados em Métodos de Estudos Bíblicos. De fato, funcionou comigo. Adotei o método indutivo, não só como forma de estudo, mas como forma de discipulado ou ensino, também. Meus alunos que o digam.

Há muito tempo, entrei no laboratório do Professor Louis Agassiz e lhe disse ter me matriculado na Faculdade de Ciências como estudante de História Natural. Ele me perguntou acerca de meu alvo em me matricular, meu passado em geral, o modo pelo qual eu pretendia usar o conhecimento adquirido e, finalmente, se desejava estudar um ramo especial. À última respondi que, embora desejasse conhecer bem todos os departamentos de Zoologia, propunha dedicar-me especialmente aos insetos.

Quando quer começar? – Perguntou-me. Agora. – Respondi.

A resposta o agradou e com um enérgico “muito bem” retirou da prateleira um jarro enorme de espécimes em álcool amarelado. Tome esse peixe. – Disse ele – Observe-o. Nós o chamamos de haemulon. Mais tarde, lhe perguntarei o que viu. Com isso me deixou, mas, voltou logo com instruções explícitas quanto ao cuidado do objeto, a mim, conferido.

Não é digno de ser naturalista – disse o professor – quem não souber cuidar dos espécimes. Deveria guardar o peixe sob as minhas vistas na vasilha e de quando em quando molhar a superfície com álcool do jarro, tomando cuidado, sempre, de tampa-lo seguramente, depois. Naquele tempo, não havia rolhas de vidro e jarros elegantes para exibições. Os velhos estudantes se lembram dos enormes jarros antigos, com rolhas frouxas, cobertas de cera, meio carcomidas por insetos e sujas de poeira. Entomologia era uma ciência mais limpa do que a Ictiologia, mas o exemplo do professor que, sem hesitação imergiu a mão até o fundo do jarro para indicar o peixe, foi contagioso e embora este álcool tivesse cheiro antigo e de peixe eu não podia mostrar aversão dentro desse prédio sacro.

Então tratei o álcool como se fosse água pura. Ainda fiquei ciente da emoção transitória de desapontamento, porque o fixar no peixe não recomendava bem a um ardente entomologista. Meus amigos em casa também ficavam aborrecidos quando achavam que nenhuma quantidade de água de colônia podia abafar o perfume que me apoquentava.

Em dez minutos eu havia visto tudo o que podia ser visto naquele peixe e comecei a buscar o professor. Contudo, ele havia saído do museu. Ao voltar, gastei algum tempo com outros animais esquecidos em outro departamento, enquanto meu espécime ficara completamente enxuto. Aspergi o líquido do peixe como se pretendesse ressuscitá-lo e esperei, com ansiedade, a volta do aspecto quase lodoso e normal. Terminado este divertimento, nada podia fazer senão voltar a olhar constantemente para meu companheiro mudo.

Meia hora se passou, uma hora, mais uma e o peixe começou a tornar-se detestável. Virei e revirei, olhei de frente – horrível; por trás, por baixo, por cima, de lado, por todos os ângulos – tão horrível quanto antes. Eu estava em desespero. Há uma hora antes do costume conclui ser necessário almoçar. Então, com grande alívio, repus cuidadosamente o peixe no jarro e por uma hora fiquei livre.

Ao voltar soube da presença do professor no museu, mas saíra e não voltaria senão depois de algumas horas. Meus colegas estavam ocupados demais para serem perturbados por conversações contínuas. Devagar retirei aquele peixe hediondo e com desespero olhei novamente para ele. Não podia usar lente de aumento; instrumentos de todos os tipos eram proibidos. Minhas mãos, meus dois olhos e o peixe pareciam um campo limitado. Meti os dedos na boca para saber quão afiados estavam os dentes. Comecei a contar as escamas nas fileiras até me convencer de ser isto, uma grande tolice. Finalmente, um pensamento alegre surgiu – desenharia o peixe. Agora, com surpresa, comecei a descobrir novos característicos na criatura. Naquele instante, o professor voltou.

Está bom! Disse ele. O lápis é um dos melhores olhos. Estou contente, também, em notar que está guardando o espécime molhado e o jarro tampado.

Com essas palavras encorajadoras, adicionou “pois, que tal?” Escutou, atenciosamente, meu relatório resumido da estrutura das partes cujos nomes me eram ainda desconhecidos. Guerral e opérculo, poros da cabeça, lábios carnudos e olhos sem pálpebras, barbatana espinhosa e rabo forcado, o corpo comprido e arqueado. Quando terminei, ele me olhava com quem está esperando mais e, então, com aspecto de desapontamento disse: Não examinou cuidadosamente. Por que? Continuou, com sinceridade: Não viu um dos característicos mais conspícuos do animal, tão evidente aos olhos quanto o próprio. Olhe de novo. E me deixou com a minha miséria.

Estava irritado, morto. Ainda mais aquele peixe desgraçado! Mas, agora resolvi me dedicar ao trabalho com vontade redobrada e achei uma coisa nova após a outra, até reconhecer a justa crítica do professor. Aquela tarde passou depressa e quando o professor voltou, a tarde perguntando: Já conseguiu ver aquilo? Respondi: Não senhor, estou certo que não, mas, reconheço ter visto muito pouco antes.

Isso está mais perto do melhor. Disse sinceramente. Devolva o peixe ao jarro e vá embora. Talvez amanhã, volte com respostas melhores. Antes de começar a olhar o peixe, novamente, ouvirei o que tem a dizer sobre ele.

Isto me desconcertou. Não somente teria a obrigação de pensar no peixe a noite toda, procurando qual poderia ser a característica desconhecida mas bem visível, sem ter o peixe diante de mim, como também, sem rever minhas novas descobertas, teria a obrigação de dar conta exata delas no dia seguinte. Minha memória não era grande coisa e, assim, voltei para casa, mergulhado em minhas perplexidades.

No dia seguinte, a cordial saudação do professor me tranquilizou. Parecia desejar, tanto quanto eu, ver-me enxergando o que ele era capaz de ver. O senhor estaria se referindo ao fato do peixe ter lados simétricos com órgãos emparelhados? Perguntei.

Seu: “Certamente, certamente!” restituiu-me as horas privadas de sono na noite anterior. Depois de conversarmos com alegria e entusiasmo sobre a importância desse ponto, arrisquei perguntar o que fazer a seguir.

Oh! Continue olhando seu peixe! Disse, deixando-me entregue aos meus próprios recursos, novamente. Em pouco mais de uma hora, voltou e ouviu meu novo relato. Bom, muito bom! Repetia. Mas, não é tudo. Continue. E assim, por três dias inteiros ele colocava aquele peixe na minha frente, proibindo-me olhar qualquer outra coisa ou usar ajuda artificial. Olhe, olhe, olhe! Era sua única injunção repetida.

No quarto dia, um segundo peixe do mesmo grupo foi colocado perto do primeiro e fui convidado a indicar as semelhanças e diferenças entre os dois. Depois, outro e outro ‘se seguiram, até a família inteira ficar na minha frente e uma legião de jarros a cobrir a mesa e as prateleiras circunvizinhas. O odor tinha se transformado em perfume agradável. Agora, quando vejo uma rolha coberta de cera e meio carcomida, as lembranças tornam-se flagrantes.

O treinamento do Professor Agassiz no método de observar os fatos e suas disposições ordenadas, sempre foi efetuado pela exortação urgente em não ficar contente com eles. Fatos são coisas estúpidas. Dizia ele. Até serem levados a constituir uma lei geral.

No fim de oito meses, deixei meus amigos, com relutância e comecei a estudar os insetos. O ganho com essa experiência extra, valeu mais que anos inteiros em outras investigações e pesquisas.

Ops: Há uma boa chance desse aluno ter sido Henry David Thoreau, veja aqui.

lousign

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *