O Deus deles morreu

lapide de Deus

Nestes mais de cinco anos de Gruta, fui aconselhado a sair várias vezes. Sabe, tem aquela história do Platão, das imagens distorcidas nas paredes da caverna e o cara saindo para ver as cores originais, ou ainda, Deus chamando Elias emburrado para fora e, com toda a paciência que um deprimido deve ser tratado, o fez ver onde estava o Criador.

Na parábola mais moderna criada por um autodidata em teologia, o cenário é uma cabana e Deus está retratado em três figuras diferentes, com o requinte de uma delas ser uma negra, gorda e bondosa, daquelas que havia nos tempos da escravidão, como vimos em “E o Vento Levou”. Todas elas impulsionando a vítima a voltar para fora e reassumir sua vida bandida e infeliz, onde há gente que sequestra, estupra e mata filhinhas queridas, diante de um Deus inoperante.

Entretanto, nada disso me motiva a deixar a segurança da Gruta, nem a dúvida do Deus que Age, as cores reais, ou a psicologia moderna e suas síndromes bipolares. Aqui não há malucos disparando contra crianças indefesas, não só a esses ataques, mas na falta total de segurança a que estão expostas, também. Sei o que estou falando, pois dei aulas em escolas da rede pública e também em escolas privadas.

A situação é tão ameaçadora que posso afirmar, sem medo de errar, os pais são uns grandes irresponsáveis quando confiam seus filhos a esses equipamentos. Escolas não são seguras para seus filhos nem no primeiro mundo, quanto mais em um país primitivo e adaptado como o nosso. Aqui dentro, não há terremotos e muito menos usinas atômicas, mas nos perguntamos como em um lugar sujeito ao movimento das placas tectônicas as pessoas podem arvorar-se a desenvolver projetos de usinas atômicas? As tais “colors of the world” não nos parecem nada atrativas.

Deus deve estar de brincadeira com o profeta. Tudo bem, já entendi que o Senhor está no silêncio, na paz e na suavidade de uma brisa vespertina. Mas daí a deixar esse recôndito seguro e sair por aí gritando “Arrependam-se que o Reino de Deus chegou” às pessoas incapazes de notar o abismo tão próximo e louco para engoli-las, a distância é muito grande. Até os caras que deveriam estar espalhando essas boas novas abandonaram suas missões e vestiram suas fantasias e abadás, caindo no samba do crioulo doido, na mesma bacia onde estão todos fervendo em banho Maria.

Sairia eu para ver esses senhores que deveriam estar vendendo cortesia e generosidade aos pedaços, digladiando-se em discussões insanas, enquanto vendem Bíblias da Prosperidade ou dos Propósitos? Não, tô fora. O Deus deles morreu.

Então por que eu sairia da Gruta? Fazer parte de uma Igreja? Para que? Correr o risco do teto desabar sobre a minha cabeça? Meu, fui a Nova Iorque e não subi ao terraço do World Trade Center, muito menos na tocha daquela estátua da Liberdade que não liberta. Em Paris, fiquei vendo a Torre Eiffel de uma distância segura enquanto tomava uma xícara daquele café estranho. No Rio, estive ao pé do Cristo Redentor, mas o bondinho do Pão de Açúcar não teve o prazer de sentir o peso dos meus pés. Quando era um menino e todo mundo pulava do trapiche, em uma praia lá no Guarujá, eu me mantinha a, pelo menos, uns duzentos metros da borda daquela porcaria, para não correr o risco de ser jogado por algum desses maníacos à toa.

Deus precisará ser mais criativo para me tirar daqui. De todos os falastrões que andam por aí, creio que só o Rubem Alves viu. Todos os outros falam do que não viram e sobre o que não entendem continuam fazendo ousadas asseverações, comprando as editoras evangélicas e editando seus livros desnecessários. Acho que o Deus deles morreu.

Capricornio PB