O Criptex

Para todos os lados lanço meu olhar e percebo estar cercado de frases e situações cujo significado desconheço. Enigmas em minha volta, a me cercar como as algas de Jonas, me sufocando e tirando-me o fôlego de vida. Não sei quando me dei conta dessa indecifrável vida pela qual venho caminhando a mais de meio século. Reparo na dificuldade existente nos meus semelhantes, também. Todos estão caminhando sem perceber os sinais e bônus por todos os lados. Não podem decifrar suas vidas agora porque, lá atrás, não obtiveram as moedas e os coringas capazes de lhes abrir passagem à próxima fase.

Jesus, mestre Galileu do primeiro século, em certo momento de sua jornada errante, desatou a esbravejar em parábolas, sem perder a doçura, mas com firmeza. Ao narrar esses acontecimentos, o escritor do evangelho de Mateus, em meio ao capítulo 13, diz: “Tudo isso disse Jesus por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta” Cita, então, o salmo 78:2: “Abrirei em parábolas a minha boca, proporei enigmas da antiguidade.” Em algumas versões, o versículo aparece em parte, não sabemos por que.

Tudo parece confuso. Sigo sem entender os acontecimentos. Não compreendo a importância deles e mais, minha sensação é de nada a ver. O tempo todo me pego pensando contrariado quanto a essas situações constrangedoras e desnecessárias as quais vou entrando e saindo, como se estivesse afundando em areia movediça, para o que não vejo razão ou significado. Dizem os sábios: Deus fala o tempo todo sem cessar. Fico, então, com aquele gosto amargo de quem deva ser uma exceção a esta regra. Penso: fala com os outros, mas não comigo.

Enquanto não entendo as parábolas do meu viver me entristeço e sigo deprimido, com diagnóstico do terapeuta a comprovar a minha sandice. Quando acho um ou outro significado, coisa rara, alegro-me e atesto a falta de exatidão e serventia desses profissionais das catástrofes e do desespero. Talvez o enredo do livro de Dan Brawn, O Código da Vinci seja muito falacioso, se bem que não penso assim, mas em um detalhe ele é preciso, o segredo está escondido atrás de enigmas e parábolas guardados em criptex, a serem decifrados, profetizados a milhares de anos pelos profetas e praticados pelo Mestre de Nazaré. Ele repetiu palavras como: olhe, ouça, escute, perceba, etc., em profusão. Fez suas prédicas lançando novos enigmas e parábolas como se dissesse: aprendam de mim, pois sou manso e humilde.

Em dado instante, descubro o enigma que sou e, sequer, me desvendei. Quanto mais os enigmas em meu caminho. Não são porquês, mas enigmas a desvendar.