A Gruta do Lou

O Contrato Secreto da Vida

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Nunca vi esse maldito. Mas sou cobrado segundo ele, a vida toda. Durante a primeira fase da vida, até uns nove ou dez anos, não citaram muito o documento. Uma ou outra vez. Depois disso, pouco a pouco, as cobranças foram crescendo. Tinha que estudar, ou seja, passar a melhor parte das horas do dia em um lugar fechado, com um monte de idiotas como eu e uns prepotentes me dizendo o que fazer, o que é certo e o que é errado, usando as mais ridículas chantagens emocionais, a coação e até certas torturas psicológicas para me fazer rezar pela cartilha deles. Foi ali que me certifiquei como as coisas eram decididas segundo certos conceitos estéticos, com um modelo de belo pré-estabelecido, ao qual eu não me enquadrava, obviamente (loiro, alto, olhos azuis, saradão, etc). Tudo isso estava no contrato. Se estiver no contrato, não há o que reclamar.

Nessa altura o contrato era flagrantemente atirado em minha cara, a toda hora. Você tem que estudar, obedecer a seus pais, chegar em casa antes da meia-noite, tomar banho, escovar os dentes, cortar as unhas e nunca, jamais, fazer sexo. Isso é pecado, seja do jeito que for.

Eu não reclamava muito. Meu irmão tentou se rebelar e tomou surras homéricas, puts e isso me desestimulou muito. Lá por dentro eu me rebelava, mas não contava para ninguém. Às vezes eu pecava, inclusive. Como no caso da Conceição, uma jovem que era meio empregada, meio filha de criação lá de casa. Além de pecarmos, planejei fugir com ela para o interior. No fim ela foi embora sozinha. Caguei nas calças. Confesso que me dava um medo desgraçado. Deus, segundo entendi, seria o guardião desse contrato e, não apenas isso, a maioria dos termos desse contrato teriam sido inclusos por Ele, pessoalmente. Não matar, não roubar, não mentir, não adulterar, não cobiçar e muito menos transar. Corri à igreja e confessei tudo para o Padre, no confessionário. Ele me mandou rezar umas trezentas Ave Maria, uns duzentos Pai Nosso, umas cem Salve Rainha e fora o horror que era rezar o Ato de Contrição.

Mas onde está esse contrato? Quem viu?

Tem que se formar e trabalhar. Lá fui eu. Triste, como um canário na gaiola ou um tigre na jaula, acordava (ou era acordado) às 5:30 da matina e seguia o rumo do calvário de cada dia, primeiro na PUC e depois em Santo André, fora dois anos trabalhando feito escravo na Avon. Faça isso, faça aquilo e cuidado, se não, rua. Até o dia que mandei o contrato se danar e caí fora. Mas temia o guardião e logo estava à sua mercê. Agora era uma namorada de família respeitada. Preciso fazer tudo certo. Diploma, trabalho, poupança, apartamento, móveis e a aliança no dedo anular da mão esquerda. Sexo só depois. Quando? Perguntava-me. Era assim. Está lá no contrato. Só que a mina foi mais rebelde que eu e ousou desrespeitar o documento. Adulterou e a casa caiu. Agora não quis mais saber de ir ao Padre, aquele pederasta de uma figa. Fiquei sabendo que ele andava de coisa com uns meninos. Mas continuava com medo do guardião. Cadê o contrato?

Conheci os protestantes. Percebi que Deus andava por ali, mais até que na Igreja Católica. Cheguei à conclusão, mesmo sem ver, que o contrato não entrava em detalhes sobre a casa de Deus. Então vai essa mesmo. Mas o contrato estava lá, firmão. Crente não mente. Sexo nem pensar. São todos celibatários. Rir não é bom. Tem que ler a bíblia e freqüentar a Igreja. E o detalhe mais importante, dar o dízimo. Nunca namorei com nenhuma garota da igreja. Aplaudi o Dr. Shedd, de pé, quando ele disse que não precisava casar com uma das irmãs, necessariamente. Segundo ele, havia a opção de ganhar minha futura esposa para Cristo. Foi o que eu fiz.

Casado, com filhos e o insuportável contrato. Casa, comida, luz, água, telefone, seguro, dentista, médico disso, médico daquilo, academia, carro, combustível, competência em eletricidade, esconder o leite, edificações, hospitais, rádio e TV, informática, cama, mecânica I e II, culinária, decoração, encanamentos, Análise Transacional, administração, gestão de jardins, musculação, natação, bicicleta, esteira, pintura (de parede), abdominais, relações do trabalho, orelha, recursos humanos, massagens, direito trabalhista, falar pouco, psicologia de relacionamento, pedagogia piagetiana, etc. Você tem que sustentar a casa. Sou o provedor. Cuidado, não fique sem emprego. Carteira assinada e fundo de garantia. Contas a Pagar. Cobrança. Contabilidade. Olha o contrato. Cuidado com Deus, ele está de olho em você, ou melhor, no contrato.

Que contrato? Onde está essa porcaria? Calma. Ele é secreto, ninguém pode vê-lo. Basta cumpri-lo.

9 thoughts on “O Contrato Secreto da Vida

  1. Lou

    Você não reparou direito, mas esse contrato que você expôs aqui está com dois erros de codificação do ideograma.

    Na 3 linha diagonal, deveria ser 愛怨 onde consta 恨

    Em todos os lugares onde está escrito perdão, a grafia correta é 原諒, senão fica com um sentindo condicional

  2. Fábio
    Estou com pena de você. Nós ainda temos a desculpa de não ter lido o contrato por não entendermos os ideogramas, mas você não poderá dar essa desculpa.

  3. Lou

    Se o contrato realmente estivesse em mandarim (não o que você descreve cuja língua se manifesta em gemidos inexprimíveis), um quarto da população do planeta também conheceria ideogramas tão simples como amor, ódio e perdão.

    E, se apenas um quarto da população soubesse usar amor e perdão, a vida seria bem melhor.

  4. Pingback: Lou Mello
  5. Parece que só homens responderam esse post. Mas esse contrato pesa também sobre muitas mulheres… e como muitas vezes elas têm que cumprir como diz você, “essa porcaria”…. tem nada.

    Mas que elas cobram com base nesse contrato, a isso cobram. Mas devo admitir, os homens também o fazem, exceto eu, claro.

  6. É o chamado “Contrato Padrão”, original de fábrica…

    Assim como há o lugar secreto do sagrado, também há o contrato secreto do matrimônio, que incluí as funções de todos os personagens envolvidos (avós, pais e filhos).

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