A Gruta do Lou

O Boliche

Boliche
Boliche

Um aviso: quando estiver lendo, você encontrará vários links destinados a levá-lo a vídeos cuja finalidade é ilustrar o texto e torná-lo mais interessante e mais completo. Os Links estão em letras de cor azul para sua melhor identificação. Aproveite.

Anos atrás, instalaram o primeiro boliche no Brasil, lá na Av. Santo Amaro, em São Paulo. Uma noite de sábado resolvemos ir conhecer o lugar, que no nosso imaginário deveria ter ares holliwoodianos. De fato, ficara muito parecido com o que víamos nos filmes produzidos na Califórnia e depois de experimentar, descobrimos um jogo muito legal para os embalos de sábados à noite. Durante um tempo, tornou-se nosso preferido.

Aos poucos, novos Boliches começaram a surgir, cada inauguração nos obrigava a uma visita de reconhecimento. Então os sábados foram se tornando escassos e começamos a gastar as sextas-feiras e depois as quartas-feiras e, quando demos conta, nossa semana era um boliche de ponta a ponta.

Assim, a turma que havia crescido na mesma proporção das casas de Boliche, começou a diminuir e logo éramos uns poucos remanescentes. Antes que a coisa terminasse, como terminou, eu também me enchi daquilo e dei um salto de liberdade.

Na época, não me preocupei em explicar, como quase todo mundo havia percorrido o mesmo caminho, parece ter havido um pacto turmal e todos absolveram todos.

Do que posso me lembrar dos meus tempos de juventude, nunca achei uma verdadeira causa por quem os sinos dobram, mesmo quando pensei estar apaixonado e ter encontrado she. Olhando agora com meus olhos mais experientes, creio que não cheguei a tal arroubo, naqueles dias. Fiquei com dor de cotovelo uma ou outra vez, no máximo, mas muito mais por questões de ego ferido. O tempo mostrou que essa avaliação estava correta. O Boliche foi mais uma dessas experiências fugazes desses anos dourados, junto com amizades e relacionamentos passageiros e pouco significativos.

Sei que alguns encontraram seus parceiros da vida naquela época, outros definiram suas vocações e profissões, mas não foi o meu caso. Naquele tempo era um esportista e, naturalmente, me graduei em Educação Física, mas o vento levou essa minha verve esportista, rapidinho, bastou surgirem as responsabilidades mais sérias do casamento, paternidade e essas insignificâncias, quando me tornei um The Family Man. Salvo as exceções (Casos de Teixeira e Nuzman), esportes e educação física não pagam nossas contas.

Meu Grande Amor chegou, afinal e dessa vez não houve enganos nem correr atrás do vento.

Para meu azar, deixei-me enredar pelo discurso teológico de uns caras pentecostais moderninhos denominados Cristo Salva, com ligações perigosas como a Fórmula I, que era um assunto pelo qual eu nutria grande interesse e me envolvi com a Igreja Protestante, em busca do Sétimo Céu.

Não foi só culpa deles, secretamente nutria o desejo de pertencer a um desses grupos, coisa que cultivei a partir dos muitos filmes assistidos na Sessão da Tarde, durante muitos anos. Um deles particularmente, do qual não sei o título, me fisgou imensamente, era um romance que tinha o Exército de Salvação como tema e pano de fundo. Os seriados Daniel Boone e Os Waltons também contribuíram grandemente para aprontar-me na direção desse desfecho religioso brutal.

Essa não chegou a ser algum tipo de grande paixão, também, afinal me cansou como as anteriores. Hoje vivo defendendo esse meu passado como se fosse culpado por tê-lo abandonado. Continuo praticando minha fé, casual e intimamente, mas sem a ajuda de qualquer instituição, não pretendo correr o risco de ser enredado outra vez, como o homem que chorou.

Em tempos recentes, acho que me deixei levar pelas Redes Sociais, vinha feliz com meu blog e elas começaram a incomodar. Boa parte do pessoal que estava blogando logo migrou para elas e resolvi fazer as duas coisas, continuar com o blog e participar da Rede Social, primeiro o Orkut, depois o Facebook e, aos poucos, acabei inscrito em umas vinte dessas formas de relacionamento.

Acho que o mais interessante nesse movimento, pelo menos para mim, foi a possibilidade de voltar a falar com os fantasmas do passado e incluir em meu rol de amigos alguns personagens famosos, coisa que sem elas jamais alcançaria, creio.

Com isso, velhas frustrações também voltaram. Lembrei porque me afastei de certos grupos, como me doía ser preterido ou ignorado e, como um boliche, cansei e resolvi dar um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade, talvez. Coloquei um fim em minha participação nessas redes sociais famosas, com Facebook, Orkut e Twitter. Vocês venceram, tenham boa sorte com seu video game.

Quanto ao que farei, como diria Lao-tzu, “Conheço todo o universo sem sair de minha casa. Isto implica que a arte de viver é mais semelhante à navegação do que à guerra, pois o importante é entender os ventos, as marés, as correntes, as estações e os princípios de crescimento e declínio, de forma que a atitude taoista não se opõe à tecnologia per se.” Não posso dizer isso sem lembrar de Amir Klink, um brasileiro que admiro e invejo com seu Mar Sem Fim.

Para completar, tive uma conversa séria com o Alan Watts e ele me citou Lao-tzu (que não é Lou-tzu, meu nome para os chineses e japoneses e significa Pequeno rei):

“Ouvi dizer que um bom comerciante a despeito de seus ricos tesouros que guarda em segurança, aparenta ser pobre; e que o home superior, a despeito de sua extrema virtude, ainda assim externamente parece estúpido. Deixe de lado seus ares orgulhosos e seus muitos desejos, seus hábitos insinuantes e sua vontade desenfreada. Elas não lhe são vantajosas.” “Yin Hsi, guarda do portão, disse a ele: Você está prestes a desaparecer de nossas vistas, permita-me insistir que componha (primeiro) para mim um livro. Aquiescendo, Lao-tzu, escreveu uma obra em duas partes, expondo suas visões sobre o Tao e seus atributos em mais de 5000 caracteres. Em seguida partiu e não se sabe onde morreu. Ele era um homem superior, que preferiu manter-se no anonimato.

Sair das Redes Socias, para mim, é buscar o anonimato, mas continuarei escrevendo o blog, para deixar meu livro escrito para o guarda do portão. Um dia um adeus.

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2 thoughts on “O Boliche

  1. Bem meu mano! Agora não passo para comentar as dilétas mensagens, mas para convida-lo a visitar meu blog, criado recentemente… Um espaço criado para tentar mostrar que dentro da religião cristiana, existe dois lados, o humano e o desumano… Esse é o trabalho.

    Ja estou seguindo esse blog.

    Abraço.

    http://www.emterradecego11.blogspot.com

  2. J. Souza
    Uma pena que você não tenha perdido mais alguns minutos lendo esse texto, talvez o melhor já escrito aqui.
    Obrigado pela rápida visita e pelo convite.
    Lou

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