A Gruta do Lou

O auto da desconhecida

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O dia destinado aos mortos é estranho, se não fosse suficientemente bizarro, porque só os vivos o comemoram. Se fôssemos mesmo cheios de fé, visitaríamos nossos entes queridos póstumos no céu ou no inferno, como fez Jesus logo depois de crucificado. Todo mundo com pena dele e ele naquele lugar quente pregando aos espíritos em prisão. Jesus tinha cada uma…

Outro detalhe bucólico é levar flores para colocar no túmulo. Coisa mais estranha. O Zé Inácio esperava o pessoal da tumba vizinha sair e transferia as flores para a da sua esposa amada. Provavelmente ele nunca se conformou com a morte dela, completamente. Falaram em septicemia, falência múltipla dos órgãos e mal súbito, mas ninguém acreditou, muito menos, comprovou. Ela nunca foi ao hospital como doente. No dia da morte, ela levantou e trabalhou como sempre fazia, à tarde banhou-se, depois jantou, assistiu o capítulo final da novela e fez amor com o Zé, antes do sono final. Morreu dormindo e em grande paz, além de muito satisfeita, pois mesmo com seu corpo sem vida, notava-se um leve sorriso no canto da boca dela, durante o velório. Talvez tenha sido essa a verdadeira causa. Ninguém deve satisfazer-se plenamente, jamais.

Moro perto do cemitério Santo Antonio. Acho incrível a quantidade de pessoas pedindo informações sobre esse vale de mortos, todos os anos. Pô, o cara nem sabe onde enterrou o próprio pai. Bom, pelo menos, esse dia serve para a turba espiar a culpa. Incrível como nós somos colecionadores de culpas. Pior é sermos obrigados a nos livrar delas depois, antes de se transformem em câncer e nos matar. Talvez nossa cadela esteja com câncer e não consigo imaginá-la sentindo-se culpada. Será verdadeira essa história? Sei não.

Alguns momentos na vida tenho a sensação de sermos só matéria mesmo. Nossas invenções transgênicas e industriais seriam a verdadeira causa da morte, muito embora, antes delas, as pessoas morriam também, e bem mais rápido. Dizem coisas como: os ricos vivem mais, hoje em dia, porque dispõem de meios para esticar suas vidas. Entretanto, os campeões da longevidade, geralmente, são gente humilde, com pouca preocupação, grandes quantidades de toucinho defumado e muito sexo, no caso dos homens. As mulheres longevas, ao contrário, costumam ser as menos praticantes do sexo em vida, mas não é uma regra.

Cada vez mais, me certifico do fato de não entendemos nada sobre a morte. Estamos mais para cego em meio tiroteio, nesse quesito. Dizem haver poucos cegos no Rio de Janeiro, mas não acredito. Duro é perguntar a seguir: E da vida, quanto sabemos?

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4 thoughts on “O auto da desconhecida

  1. Perguntas como essa nos colocam de frente para encrusilhadas (não macumbadas, claro!)… e nos oferecem nenhuma ou várias respostas.
    O que encontro em mim é o fato que da vida sabemos apenas que vivemos, mas o que sabemos sobre “como” vivemos , isso , nunca saberemos, afinal, como diria Volney…somos todos “betas” e por isso em constante transformação.

    bjussssss

    O Jornal da Globo e o reporter Ernesto Pália também se preocuparam com a vida, no dia em que todos celebraram os mortos. Parece que, além de nós, os grandes filósofos e pensadores também gaguejaram diante da vida. Só o Mestre mesmo, ao afirmar: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Quanto a nós, se formos mesmo Betas, já terá sido lucro.

  2. É impressionante… mas o que sentimos, subjetivamente, somatiza em nosso corpo físico.
    Dia desses, numa consulta médica, a Dra. me olhou em silêncio, depois de algum tempo falou: você está “gordinha”, permanece assim, pois é a única maneira que encontrou para se sentir “forte”.
    A vida é uma escola, mas acho que dela, todos saem sem completar o curso.

    Na história protagonizada por Jesus, a vida vence a morte. Será que Ele queria nos ensinar algo?

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