A Gruta do Lou

O Apóstolo que ouvia e não dizia


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Daqui de cima ouço vozes, vozes que dizem coisas, coisas que não sei dizer”.

Cunhei esse verso ainda menino, nos tempos do Ginásio Vocacional. Estávamos em Estudo do Meio na enigmática cidade de Congonhas do Campo – MG, conhecendo o famoso santuário Bom Jesus de Matosinhos, igreja onde um de nossos poucos e únicos grandes artistas, o escultor Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, deitou e rolou com sua obra impressionante, onde destacam-se a sua “Via-Sacra”, conjunto de obras esculpidas em madeira e “Os Apóstolos” em pedra sabão. Ao olhar para uma das esculturas, um dos apóstolos, acho que ouvi essa frase e mandei ver no meu bloco da anotações, me apropriando dela como se fosse minha.

Não sabia eu quanto significado havia nessas poucas palavras. Ao longo de minha vida, talvez não haja registro de nenhum dia que não tenha escutado algo

que não faz sentido algum. Meu computador interno vasculha incansavelmente nosso banco de dados e nada. O que estão dizendo? Não tem registro, no momento. Tente mais tarde.

Uma das muitas coisas incompreensíveis para mim, procedente de várias fontes e modos de dizer, é o tal: É preciso amar. A princípio, isso até soa bonitinho, dá a impressão se ser obvio, desde que você não pense, como faz a maioria dos ouvintes, alias. O que é amar? Como se faz isso? Hoje em dia, quando você diz para uma pessoa que deseja amá-la, não importa se é homem ou mulher, ela já começa a tirar a roupa, não faz diferença o lugar onde esteja.

Segundo C. S. Lewis, em seu poderoso “Os Quatro Amores”, o amor Eros, um dos quatro tipos de amor que ele catalogou, inclui o sexo, mas é só uma das formas de amar e nem é a mais prestigiada, na obra dele. Pudera, qualquer ser sobre a face da terra pode amar assim, mesmo que não seja capaz de expressar sentimento algum. Parece ter aparecido outro cara com outro livro e um amor a mais do que o do Lewis, se não me engano. Pode esperar, virão muitos outros ainda, imagino.

Isso pode ser muito engraçado se olharmos sob o ponto de vista de Jesus Cristo. Desde muito, tenho-o como a expressão do amor de Deus pai, em outras palavras, ele é o amor, na primeira forma descrita por Lewis, o amor ágape. Entretanto, vejam o que o Nazareno disse a respeito: Ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

Para mim, essa frase é terrível. Talvez não seja o seu caso, mas nunca consegui amar a Deus sobre todas as coisas. Há uns cem números de coisas que coloco antes dele, diariamente, a começar por essa maldita forma financeira de vivermos.

Bom, embora essa seja a parte mais importante dessa frase jesuíta, a segunda parte dela é ainda muito pior para mim, pois você não iria gostar nem um pouquinho se eu te amasse como amo a mim mesmo. Meu, não há nada em mim que eu não mudaria se pudesse, desde as caraminholas cerebrais internas, até o meu aspecto físico externo, se possível bem antes de vir ao mundo. Se fosse o designer de mim mesmo, externamente, trataria de me construir segundo os padrões mais aceitos por nossa sociedade capitalista e racista. Internamente, me faria uma mistura de Santa Tereza de Ávila, Edith Stein, Gandhi, Martin Luther King, Einstein, Steve Jobs, Seal e uma pitadinha de Bill Gates, tudo regado a Warren Buffer. Ou você pensa que sou tatu?

Então, amar ao próximo segundo meu próprio modelo soaria mais o menos assim: “Você precisa mudar tudo, já olhou no espelho? Cara, você é feio pra xuxu, mas isso não é nada, você é um maldito arrogante, irresponsável, presunçoso, indisciplinado, vagabundo e pretensioso, sem falar que segundo os padrões mais aceitos, é baixo, gordo, careca e leva zero em sensualidade. E, por cima, para burro só faltam as orelhas”. Isso para dizer o menos.

Não sei o que Jesus bebia ou fumava, mas ele derrapava feio, às vezes. É impossível amar. Se alguém amasse, de verdade, não duraria cinco minutos. Na primeira atitude tipo Cristo, iria para os pregos. Reconheço que alguns até tentaram, mas qual foi o fim deles? Os que não mataram enquanto puderam, esquartejaram depois de mortos. Se deseja viver e vencer, precisará passar longe desse negócio de amar. Amar é coisa de frouxos. Aqui, quem pode mais chora menos.

Quando alguém me diz que preciso ou devo amar, me ofende profundamente. Soa como se dissesse: morra desgraçado. Em minha modestíssima opinião, Jesus percebeu rapidinho que não seriamos capazes de amar e tratou de resolver todos os nossos problemas que pudessem prescindir desse tipo de arroubo nada humano. Ele não morreu por nós, amou por todos nós. Obrigado ae Jesusão! Valeu!

Fato é que essas são coisas que não sei dizer, melhor deixar para quem as sabe, como alguns pastores e autores que são experts no tema.

2 thoughts on “O Apóstolo que ouvia e não dizia

  1. vc tá certo, Jesus morreu para nos tranquilizar e permitir que levássemos uma vida mansa, mas prá “não variar” continuamos estabelecendo modelos e modelos de comportamento ideais. Ser livre, leve, solto, feliz e apenas humanos não nos satisfaz. Queremos ser Deus. Aí, todo dia nos apresentam a maçã…

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