Novos velhinhos e velhinhas, não tão velhos assim

Ainda que muitos não queiram ver, existe uma nova geração, hoje, clamando por espaço e o direito à vida.

Falo de um grupo considerável de pessoas cuja idade os coloca nesse grupo. Até meados da metade do século passado, eles eram poucos. Dificilmente as pessoas ultrapassavam os sessenta anos, então. Portanto, a velhice começava por volta dos quarenta e a eles, competia uma boa cadeira de balanço e uma aposentadoria ridícula e compulsória, como fazemos hoje com os que passam dos oitenta.

O governo brasileiro, diante dessa realidade, aumentou o prazo para a aposentadoria, algo que equivale à decretação da velhice. Agora, velhos são os que ultrapassaram os sessenta e cinco anos. Mas não me surpreenderá se esse limite for dilatado em breve, para algo em torno dos setenta e cinco anos, por exemplo. O fato é que as pessoas com mais de quarenta e menos de oitenta ou mais, estão se sentido muito bem, cada vez melhor e cheias de vida. Até sexo elas andam fazendo (ou morrendo de vontade de), a revelia da igreja. Dia desses, um desses caras entendidos em tudo disse que a previsão é de uma estimativa de vida em torno dos cem anos, para breve.

Então surge esse enorme vazio de ser envolvendo um monte de velhinhos com a corda toda. O Zenon, por exemplo, resolveu fazer doutorado com mais de sessenta e cinco anos. Fiquei perplexo e lembrei-me dele citando seu velho pastor Bortoletto que resolveu traduzir textos sânscritos para hebraico ou algo assim, aos noventa e cinco anos. Era uma auto preparação. Mas a maioria está feito barata tonta. As mulheres querendo casar de novo e os homens, que já haviam comprado a tal cadeira de balanço, estão pensando em voltar ao mercado de trabalho ou às atividades dessa vida.

Entretanto, a sociedade não estava preparada para esse fenômeno, como sempre. Por enquanto, o que temos, é um expressivo grupo de frustrados. Alguns dos meus amigos velhinhos gastam fosfato tentando conviver com as novas gerações em igualdade de condições e presumo algumas insatisfações nisso. Se fosse algo legal, eles não precisariam pintar os cabelos brancos ou disfarçar as carecas proeminentes. Seriam aceitos como são.

Não creio que esse seja o caminho. Algo novo precisa acontecer e os próprios envolvidos precisarão descobri-lo. Talvez como fizesse o Zenon. Não sei. O fato é que nem Jesus pode nos ajudar nesse caso. Ele próprio não chegou aos quarenta e não faz a menor idéia do nosso probleminha. Quem sabe buscar alento com os primatas da nossa raça criada por Deus. De repente, fazer um filho após os cem anos, mesmo contra os padrões da medicina, essa ciência tão inexata quando confrontada aos relatos bíblicos. A Bíblia é bem omissa em relação a nós e nosso dilema. Não condeno os escritores dela, na verdade, eles não viveram para constatar essa falha. Mais uma prova de que Deus pouco contribuiu na junção dos tais textos sagrados.

Enfim, o fato é: há um contingente formado por milhares de pessoas cheias de gás e muito amor para dar, clamando por espaço. Estou entre eles. Muitos dos leitores grutenses, também. Não me parece justo ter que camuflar nossos cabelos ou a falta deles para conseguir algo. Cada vez mais, nosso grupo aumenta. Não nos querem no mercado de trabalho e consideram nossos corpinhos enrugados inadequados à maioria das atividades sociais. Precisamos providenciar as duas coisas para nós, quem sabe até uma igreja cristã que nos agrade, apesar de que, o ideal seria a convivência fraterna entre todos os grupos.