A Gruta do Lou

Nove semanas e meia de dor

Nove e Meia Semanas

Encerrou-se na última sexta-feira mais um período atípico de nossas vidas. Foram nove semanas, coincidência amorosa, com um começo auspicioso, grandes promessas, ganhos futuros promissores, sala, mesa, computador novinho em folha e um cargo pomposo: Diretor de Marketing. Num crescendo de horrores, onde fiz de tudo para passar despercebido, na base do mais elevado jogo de cintura, não consegui evitar perceber que tratava-se de um grande golpe e fui para o saco (eufemismo de despedido).

A semana começou desesperadora, embora tenha conseguido aliviar uns dez por cento do passivo, me endividei à pampa com acordos bancários, seguro para o auto e plano de saúde. Aliás, preciso ligar e cancelar esse último, por enquanto.

De repente, notei em nossa conta bancária na Caixa Econômica Federal um depósito de R$ 1.000,00, imprevisto. Nos últimos anos, vez por outra, recebemos doações desse modo. Pessoas sensíveis fazem essas coisas, ao menos, quando não acham outra forma de colaborar com quem está sofrendo. Achei que era uma delas, afinal estamos perto do natal e nesse tempo, a sensibilidade católica evangélica tende a aguçar a congregação grutense. Não pude evitar um pensamento maroto, ou seja, “oba, salvamos mais um mês do financiamento do carro!”. Como sempre, alegria de pobre você sabe, não prima pela durabilidade e logo a seguir, um débito de igual valor liquidava minha única esperança da semana.

Como a Dedé e eu não fomos os autores de tamanha burrice, afinal nem havíamos saído de casa naquele dia, e o extrato indicava saque em caixa automático, liguei para a minha agência e fui orientado a cancelar nossos cartões e comparecer à agência para outras providências. Foi o que fiz no dia seguinte, com uma leve esperança de que a grana fosse restituída, sine qua non. Ledo engano, o funcionário que me atendeu era expert na solução de crimes contra o patrimônio, do banco claro, e foi logo dando seu veredito: Isso foi uma ação de ladrões que de posse das senhas de internet de alguém e de um cartão clonado de outro alguém (no caso seria o meu) transferem o dinheiro de uma conta para outra e sacam a fortuna em um caixa automático da vida, segundo ele, dessa vez foi na agência da Av. Sumaré, em São Paulo.

Pareceu lógico, não fossem alguns detalhes que me deixaram um sabor esquisito na boca: 1) O cara não deve ter competências policiais para se arvorar nessa suposição. 2) Uma investigação acurada não teve lugar, inclusive ele alegou não ter meios para informar a conta de origem, pois o dinheiro fora creditado via transferência de conta para conta, o que só aumentou minha desconfiança de que estaria em andamento uma embromação. 3) Em caso semelhante, com a conta de minha filha, o banco (HSBC) restituiu o dinheiro imediatamente e sem questionamentos. 4) Como fica a segurança oferecida pelo Banco aos seus clientes, no caso nós? 5) Qualquer decisão, não seria competência de âmbito da justiça? 6) Ainda há boa chance desse dinheiro ter sido transferido por uma das poucas boas almas engrutadas que colecionei a duras penas, literalmente. E vai por aí.

Assim completou-se o ciclo de nove semanas e meia de dor. Claro que ainda estamos sofrendo as consequências e elas prometem muito mais para os próximos dias, semanas e meses. Não sei porque, volta e meia, caio na tentação de achar que sou filho de Deus, que Jesus Cristo teria se dado ao trabalho de morrer por meus horrendos pecados e me dado salvação graciosa, que teria certos privilégios junto ao pessoal celeste, etc. Tudo isso, apesar dos intensos lembretes do anjo particular de meu filho Raniel, como vocês sabem, o meu foi devidamente retirado poucos anos depois de ter nascido para suprir a falta desses seres, pois nascera um outro menino, mais rico, mais branco e mais bonito, chamado Ed, e não poderia ficar sem anjo, e ele não se cansa de me lembrar o fato de eu não passar de um ponto nos arquivos celestes e ponto final.

morcego-12

1 thought on “Nove semanas e meia de dor

  1. Bancos… Eu tenho um minúsculo apto que paguei durante mais de 16 anos (deviam ter sido somente 15) e um dia decidimos falar basta!. Conclusão: um processo na justiça em que o Bradesco diz eu estar devendo mais do que o valor atual do imóvel.
    Gostaria mesmo de ser um Davi com coragem de jogar uma pedra bem no meio dos olhos dos banqueiros.

    Os Bancos foram criados no centro do inferno e cumprem o papel para o qual foram concebidos, ou seja, tornar a vida dos cristãos um inferno. 🙂

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