A Gruta do Lou

Nos passos de um Jesus cavalheiresco

Nos passos de Jesus

Ou em seis passos o que faria Jesus, como nos ensina o Brabo, seguir pelas trilhas do Mestre é a grande decisão da vida. “Siga-me”, ele dizia aos infelizes que o olhavam com olhar de quero mais. Logo, podiam perceber que ele não falava só de seguir suas pegadas, mas era algo mais, significava adotar todo um novo estilo de vida.

Uma vez, conversei com um conhecido e antigo pastor sobre trabalho ou a falta dele. Na verdade, imaginei que ele pudesse me convidar para trabalhar na organização que dirigia. Ele me sugeriu abrir um pequeno comércio, tal como uma lanchonete ou coisa assim. Saí de lá no lucro, duplamente, por não trabalhar naquela organização mixuruca e não seguir os conselhos imprudentes do velhinho.

Jesus nunca enviou um doente para o médico ou psicólogo, tão pouco aconselhou alguém a abrir um pequeno comércio ou arranjar um emprego. Talvez ele fosse um filho de Deus meio vagabundo e charlatão ou, o que seria mais provável, ele se considerava uma opção muito melhor, sem qualquer ofensa aos demais. Sem falsos elogios, o Nazareno mais ilustre da paróquia tinha uma fé inigualável. Não se abalava com as contas chegando, ou ameaças de cortes disso e daquilo, chegava ao exagero de não ligar a mínima para doenças consideradas terminais pela ciência médica e dizia às vítimas: Não tema, crê somente. Agia com a certeza das coisas que ainda se esperam.

Emociona-me e me avexa a mais completa isenção dele em relação a compromissos e horários. Mais ainda em relação a leis, estatutos e regras. Poderia afirmar que a regra dele era não tê-las, sem nunca transgredir qualquer direito alheio. Ele jamais pronunciou frases usuais entre alguns caras que conheço, como: Preciso ir à igreja nesse domingo ou agora é a minha hora de ler a bíblia e o famoso “estou em uma reunião, desculpe”. A igreja que ele dirigiu se reunia em qualquer lugar e a qualquer hora, em uma praia, um monte ou na sala da casa da sogra, após o jantar, e ele nunca faltou em qualquer um desses cultos ou mandou o co-pastor substituí-lo.

Era meigo, com uma cortesia inigualável. Era um Deus cavalheiresco. Movimentava-se harmonicamente e seus gestos nunca denotavam raiva ou agressividade, exceto quando se deparou com o templo maculado pelos interesses de mercado. Seu olhar era, ao mesmo tempo, doce e penetrante. Era carinhoso com todas as pessoas e em especial, com as crianças e os animais. Ele não casou, mas a mulherada era alucinada por ele, embora não fosse bonito nem feio, apenas um homem comum. Incomum era sua profundidade espiritual que não reivindicava e era totalmente dissidente. Ele ensinou a não andarmos segundo o curso desse mundo, mas seguir o seu caminho nada alinhado.

Talvez pudéssemos resumir a ópera desse malandro em: só há uma coisa a fazer, ou seja, conseguir controlar-se para não fazer nada, deixando tudo por conta do Mestre, inclusive a receita sobre o que fazer, de fato. C. S. Lewis, falando sobre a diferença do tempo para Deus e para o ser humano, usou o exemplo de um escritor e sua novela. Ele está escrevendo e no momento mais crítico, quando o vilão ergue a faca para matar a mocinha, resolve parar sua escrita e ir tomar um bom café, calmamente. Para os personagens da novela o tempo parou, mas para o escritor não. Mas nada acontecerá até ele retomar seu texto. Embora os personagens de novelas sejam infinitamente mais sábios do que nós, pois não se mexerão até o autor voltar, enterramo-nos como se estivéssemos em areia movediça.

A minha história está repleta de situações precipitadas em que me adiantei ao invés de aguardar em fé e confiança naquele que me comprou com seu perdão inigualável e toda aquela gentileza irritante. Nós não precisamos de nada e não devemos fazer coisa alguma. Na liberdade doada pelo Criador, agora reafirmada por seu Filho todo amoroso, poderemos (que é muito diferente da obrigação de fazer) fazer muitas coisas, mas elas não nos escravizarão jamais.

morcego-12

8 thoughts on “Nos passos de um Jesus cavalheiresco

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Poxa Lou… Em outros tempos, não muito longe, eu concordaria com você. Hoje, ao reler um dos maravilhosos livros do Nilton Bonder sobre a cabala do dinheiro, parece que minha compreensão se alarga e o que poderia lhe dizer é que o aconselhamento do antigo pastor, seu conhecido, foi sábia… Eu creio que Jesus teria lhe dito o mesmo, até porque a maioria das parábolas dele não eram sobre homens que só oravam e tinham fé, ao contrário, eram homens que deveriam de uma forma ou de outra trabalhar e produzir o seu sustento. Sabe o que aprendi essa semana? Fé sem trabalho não é fé, é idolatria!

    O texto não diz isso, mas foi bom você mencionar a idéia da fé como excludente do trabalho, nada mais equivocado. A fé não exclui o trabalho, mas nem por isso será inteligente vender nossa alma ao diabo. O emprego como está posto, especialmente em terras brasilis, é escravo. Aliás, os senhores de escravos do século XIX só teriam aceitado dar carta de alforria a seus servidores compulsórios sob o argumento de que tê-los como empregados seria mais econômico (pois não seriam mais obrigados a alimentá-los e dar-lhes moradia) e os escravos, agora trabalhadores, se obrigariam a dar desempenho como contrapartida para fazer jus aos salários, sob risco de não ter o que comer, onde morar e a segurança ficaria por conta do estado, outra economia pois poderiam dispensar feitores e bedeis. Demorou mas um senhor chamado Getúlio Vargas, então ditador, regulamentou esse servicinho grátis aos senhores feudais, com a criação do ministério do trabalho e as leis especificas para regulamentar esse trabalho nada libertador, seguindo modelo dos países desenvolvidos, no caso, dos Estados Unidos. Além disso, o emprego, segundo Kotler, está em extinção. O Leornado Boff já informou à sociedade que só um em cada cinco arrimos de famílias dependentes do emprego está empregado hoje, no mundo, e essa estatistica está crescendo, dia a dia.

    Outro detalhe é que o Bonder, autor que também gosto, é um rabino e judeu, como não poderia deixar de ser. Vale lembrar que o pecado e suas concomitantes maldições (trabalho escravo para o homem e dores no parto para a mulher) entraram no mundo via judeus. Não digo que não faria o mesmo se estivesse lá no lugar de Adão. Além disso, a cultura judaica é completamente legalista sob a influência da Torá e do Talmud, livrinhos de cabeceira dos rabinos e dos judeus mais tementes a Deus. A fé que proponho é um substrato da graça, um trem ensinado por aquele guerrilheiro morto na cruz, lá para os lados de Jerusalém, há dois mil anos atrás, como diria o finado Raus Seixas, uma cidade que o Caio Fábio adora visitar cheio de seguidores bem pagantes e da qual não extraiu quase nada, ainda, ao que parece e ela (a fé preconizada por Cristo) incluiria a derrota do ego para dar lugar ao libertador em nosso interior, seja na mente, no coração ou na alma, onde quer que o Nazareno encotre onde habitar, em lugar de nossas parcas “grandezas” (orgulho, vaidade e essas coisas tão sedutoras) e sem nos escravisar, seja com falsas crenças ou com empregos cujo único objetivo seja a exploração pura e simples de um semelhante, branco ou negro. Agora, em uma vida devocional cristã emergente a fé nos colocaria em posição de dependência das decisões divinas para todas as nossas coisinhas, seja para costurar nosso plano de sustento, para curar um cancerzinho básico, uma cardiopatia congênita, o problema da pata da Duda e/ou encontrar o companheiro (a) ideal para com ele (a) viver harmonicamente até que a morte nos separe, enfim, essas coisinhas básicas que adoramos ter em nossas vidas, se possivel, abundantemente. Em uma frase, fazer, mas sob a tutela do Senhor de barbas brancas e morador do céu.
    Desculpe usar seu comentário para complementar meu texto, sinal que estava incompleto, mas obrigado por isso.

  3. O aditamento ao post foi super abrangente.

    Agora,a postura educada do gatinho e seu protetor,é uma cena cheia de ternura…daquelas que gostaríamos de vivenciar entre os nossos semelhantes.

    E esse assunto pode render muito mais, na verdade, uma questão teológica antiga e mal resolvida pelos grandes teólogos.

  4. Cabala do dinheiro? (que b… é essa?)

    (bobagem)…

    Abraço Lou

    Conheço o livro e é muito bom, aliás o Newton Bonder tem livros excelentes, participou de um grupo que cobriu a jornada de Abraão até a terra prometida, recentemente. A Cabala é uma espécie de conhecimento secreto reservado a iniciados, preferencialmente judeus ou a mensagem por trás da mensagem. É bem interessante, também, para quem gosta de mistérios, como eu.

    Assista a entrevista do Bonder clicando aqui

  5. “O texto não diz isso…”

    Oxente, ou você escreveu em línguas ou eu o li da mesma forma,aí, mesmo voltando a ler prá ter certeza voltei, a entender o mesmo… Ou nada.

    “Vale lembrar que o pecado e suas concomitantes maldições (trabalho escravo para o homem e dores no parto para a mulher) entraram no mundo via judeus.”

    E eu lembro que a Salvação também, ou o Messias não tinha na carne 100% de sangue judeu?

    “a cultura judaica é completamente legalista sob a influência da Torá e do Talmud, livrinhos de cabeceira dos rabinos e dos judeus mais tementes a Deus.”

    Lou, eu passei a entender mais profundamente os ensinamentos do nosso Mestre quando me iniciei na literatura judaica… Aliás, ouso dizer que o judaísmo contemporâneo está mais para Cristo, mesmo que continuem negando a divindade de Jesus, que o cristianismo vigente em todas as suas correntes. Aliás,Paulo já previa isso e deixou margem para pensarmos na vinda de um libertador de Sião.
    Continuo vendo em suas palavras em ranço de preconceito…

    O trabalho é prá ser encarado, ordenança na expulsão do Paraíso, e de preferência com afinco e determinação, porque aonde quer que estejamos devemos estar refletindo a luz de Cristo…

    Não considero o livro de Bonder sobre o dinheiro como um livro de mistério, mas como um manual para saúde nas relações de troca e enriquecimento do todo, bem ao gosto do Mestre!

    Humm! A transição da lei para a graça é mesmo muito dificil. Bom, se nem o mestre conseguiu convencer o povo, imagine esse pobre cavernoso… Só posso acrescentar que não há vergonha em crer que Deus é Deus. Os judeus construiram seu templo de pedra e Jesus o derrubou, construindo um novo templo, agora de pedras vivas, em seu lugar. Mas não tenho nada contra o povo judeu viver a fé cristã, nada mesmo. Não sou um preconceituoso competente, mesmo que desejasse.
    Ah! Também não escrevi que o livro do Bonder contivesse mistério, mas a Cabala.
    🙂

  6. Eu acredito que em Cristo veio para ratificar a lei e é aí que todas as tradições se encontram. Nos templos feitos por mãos humanas, elas só se separam, cada vez mais… Snif, snif snif…

    Só entro na Gruta descalço, afinal esse solo é sagrado. 🙂 É aí que a porca torce o rabo, ratificar e cumprir não são palavras sinônimas. Segundo você e eu sabemos, ele teria cumprido a lei, como parte de sua missão que tinha outros pressupostos bem objetivos. Insisto que o cerne do Novo Testamento é a construção de um novo templo, agora de pedras vivas, as quais seriamos nós. Sem templos de pedra, tijolos, concreto, etc. Só a graça de nosso Senhor Jesus tem o poder de nos avivar e nos transformar nessas pedrinhas preciosas, se não me engano.

  7. Quem tá falando em cumprir é vc… de qq forma percebo que, talvez, haja uma confusão entre leis e rituais. Nesse caso, estou fora de qq ritual, mesmo daqueles cultinhos espetaculares e ridículos, com direito a pedestal (púlpito) para suas estrelas intelectualizadas e não menos famosas, apelando e seduzindo fiéis cegos a fim de vender a Palavra.
    O que vejo no judaísmo de sadio é que, mais que promover uma religião, eles primam por uma cultura, e é isso que eu entendo, desde sempre, que Jesus veio ampliar. Não é a toa que se mantem como povo apesar de todas as suas faltas…

  8. Ótimo prefácio à segunda edição dos “6 passos”. Lembrei-me de algo que li em Jon Sobrino certa vez, e achei tão genial que só posso supor que já seja um clichê teológico: o cerne da fé é deixar Deus ser Deus sobre a precariedade de nossas seguranças…

    É, pode ter sido algum ato falho, um prefácio não solicitado mas desejado ou algo assim. De qualquer forma, foi um bonito elogio.

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