A Gruta do Lou

No limite da esperança

Cheguei aos sessenta anos e tenho medo. Não da morte, mas da vida. Temo continuar existindo para cumprir essa sentença compulsória de insucesso e sofrimento. Sofro por não ser, por me sentir incapaz de fazer e não possuir os protocolos capazes de mudar minhas circunstâncias.

Minha relação com Deus tornou-se difícil. Tenho vergonha de me apresentar diante dele e entendo que Ele sinta vergonha de minha presença. Prefiro dizer ao mundo que não o conheço, embora saiba de sua existência. As teologias convergem para um Deus-Amor, Piedoso e voltado ao social. Mas eu não faço parte, existo sem existir e minha utilidade é discutível e beira a inutilidade. Entendo agora a posição de Kafka e sua metamorfose, perdi o respeito quando permiti levarem minhas serventias. Agora sou o inseto repugnante e se meu pai vivesse, tentaria me matar com a maçã. Pensando bem, talvez ele tenha me acertado e, boa parte dos meus ossos quebrados, tenham resultado de sua agressão.

Chorar provoca os consolos e só comunica o desespero. Não estou chorando, apenas confesso a dúvida e o meu GPS avariado. Não sei para onde ir e não tenho o menor apetite para procurar quem quer que seja. Não confio nos homens e desconheço a existência de alguém capaz de olhar além de si mesmo. Todos, sem exceção, os quais conheci superficialmente ou completamente, serviram para comprovar esse ponto.

Não sei o quanto fiz para merecer minha sina. Prefiro pensar que sou o grande responsável. Entretanto é irresponsável sair sem avisar meus filhos para não confiarem em ninguém com mais de trinta anos e muito menos nos que ainda não chegaram lá. Passei pela escola, por trabalhos e pela Igreja e não sei porque precisaria delas. Nossos maiores inimigos se escondem nessas masmorras e o pior, do qual nunca fiz parte, é o governo. Esse é o Castelo do mal.

Entendo que minha posição é insubmissa e rebelde. Jesus Cristo alertou para não temermos e lembrarmos que ele venceu o mundo, mas não posso mentir nessa altura do campeonato, o mundo está me esmagando e a sensação de desamparo é insuportável. Nessa minha Gruta, longe de ser um refúgio, pois para mim não há tal, via-me ao lado de um bando de trogloditas iguais a mim, mas aos poucos eles foram sarando e, agora, muitos fazem parte do grupo dos apedrejadores, sem pudor quanto ao pecado.

Fiquei só e esse silêncio e solidão não é como o deserto que fala do D. Helder Câmara, não. Isso é desesperador.

Embora nada disso tenha maior significado ou venha a ser algo de maior importância. Já vivi, sei o que é viver e não me iludo mais. Sinto, na verdade, outra dor, a dor de não ver meus filhos vivendo, experimentando suas próprias vidas. Andei por esse mundo, conheci gente de muitas línguas e credos, trabalhei, namorei, conquistei e perdi. Talvez poucos tenham notado a minha existência, mas existi.

Eles não, parecem condenados a não viver, não existir. Bom, se depender dessa gente que fez o juramento a Hipócrates, um deles está sem qualquer esperança, a menos que Deus exista para ele. Essas profissões geradas em escolas são a ruína da humanidade, pois as pessoas oriundas delas se desumanizam, tornam-se bichos egoístas e maus, inclusive os que se enganam dizendo-se servos de algum Deus.

Minha pior decepção com pessoas, nos últimos tempos, foi um médico que me apresentaram como sendo um irmão em Cristo. Cara, botei a maior esperança nesse cidadão, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, mas quebrei a cara.

Incomodei muitos pastores em meu caminhar e descobri que eles se ocupam de suas igrejas, reuniões, conferências e, mais recentemente, podem ser encontrados no Twitter. Não lhes sobra tempo para gente aflita. Claro que algumas esmolas deles alivia-lhes a consciência, menos mal.

Ontem ouvi um jovem doente dizer ao homem incrédulo que venceria sua doença, não fosse pela medicina, o seria pela vontade de Deus. Desejo desesperadamente que ele não se decepcione com nenhum dos dois.

Capricornio PB

 

3 thoughts on “No limite da esperança

  1. Finalmente você começa a se alinhar genuinamente com o pessimismo e portanto com a lucidez. Parece uma crise, mas é só o fim de uma ilusão.

  2. Paulo
    Como você sabe, esse é um sonho perseguido, ser reconhecido e aplaudido como um pessimista autêntico. 🙂 Agora, a semelhança com uma crise é insuportável, mas acredito em você, deve ser mesmo o fim de uma ilusão.

  3. Tenho acompanhado seu blog, à um tempo, admiro muito sua sinceridade, e o contraponto que vc representa, em tempos de unanimidades é bom “ouvir vozes” como a sua. Quanto ao texto, sem palavras, certas coisas que disse representam aquilo que está engasgado dentro de mim, obrigado por dizer melhor do que eu consiguiria.

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