A Gruta do Lou

Nas águas de Jó

Lembro-me da minha primeira conversa com o Zenon. Especialmente de uma frase: “Depois de onze anos, percebi estar totalmente equivocado”. Descobrira algo terrível, a grande farsa chamada Igreja.

Durante muito tempo considerei o início de minha derrocada em data mais recente, por volta de 1988, entretanto, ao lembrar essa conversa zenóica, encontro indícios claro de uma data mais remota, pois ela aconteceu em meados de 1986. Na verdade, fui cozido em banho-maria no fogão eclesiástico, primeiro na boca dos pentecostais e depois na boca dos batistas, fora minha credulidade doentia. Aquela hipocrisia toda me arrasou espiritualmente e intelectualmente, talvez, sem falar na minha própria desfaçatez.

Em minha inocente imprudência, acreditei estar sendo convocado para as forças celestiais com o propósito de lutar e vencer o espectro diabólico e suas hostes infames. Mais do que isso, contribuir decisivamente com a salvação e libertação de milhares de entes semelhantes a mim. Libertar o cativo, visitar as viúvas e os órfãos e proclamar o ano aceitável do Senhor. Naqueles dias, todos os meus pares pareciam empenhados na mesma causa.Sem falar nos possíveis ganhos eternos.

Como um foguete ou joquete, sai de uma Igrejinha meia boca de São Paulo e fui parar em Tirana, capital da Albânia, onde reivindiquei a libertação daquele povo, com meus companheiros em um ritual de oração realizado na praia principal daquele país. Andei pela África pobre, doente e abandonada e parte do leste europeu, solapado pela intransigência do regime totalitário soviético, naqueles dias, principalmente na questão: Liberdade religiosa. Promovi a paz e o Reino de Deus em todos os lugares onde pisei, através da propagação do evangelho e do amor divino, salvo engano. Dr. Dale Kietzman, ao me conhecer e à minha história recente, tratou de me guindar para a missão onde ele trabalhava dizendo: nunca imaginei encontrar alguém com o seu currículo missionário, no Brasil.

Estava me sentido o máximo. Não há sentimento mais agradável nesse mundo do que sentir-se como um filho preferido de Deus. Durante algum tempo, as coisas caminharam assim e foi só alegria. Dizem por aí, que em uma reunião de anjos, com a presença de Satanás, o Criador perguntou ao chifrudo: De onde você veio? Respondeu o cara pálida: De perambular pela terra e andar por ela, especialmente pelos lados de São Paulo. Disse então o Senhor a Satanás: Reparou no meu servo Lou? Não há ninguém naquela terra como ele, irrepreensível, integro, homem que teme a Deus e evita o mal”. Me esforçava pacas, naqueles dias, e não tinha idéia de que o Senhor me via com aqueles olhos. Será que o Lou não tem razões para temer a Deus? Respondeu Satanás. Acaso não puseste uma cerca em volta dele, da família dele e de tudo o que ele possui? Tu mesmo tem abençoado tudo o que ele faz, de modo que a prosperidade dele é notória na terra. Mas estende a tua mão e fere tudo que ele tem, e com certeza ele te amaldiçoará na tua presença. O Senhor disse ao safado: Pois bem, tudo o que ele possui está nas suas mãos; apenas não toque nele.

Claro que eu e você não acreditamos nisso. Quem sou eu para receber tal importância de Deus e, sobretudo, de Satanás, o senhor desse mundo. Absurdo. Jó foi um cara sem igual. Não serviria nem para limpar as sandálias (acho que era isso) dele. No entanto, por alguma razão desconhecida por mim, joguei toda a culpa por minhas desventuras em parte na coitadinha da Igreja e fiquei com a outra metade. Mais surpreendente ainda, foi o fato de nunca haver abandonado a Deus e ao seu filho pródigo. O comportamento tipo Jó foi para o espaço, mas ficou essa fé doida, da qual sou incapaz de me livrar.

Vivi, depois disso, todos os dias até aqui, secretamente, esperando que ele removesse a maldição toda. Afinal, com Jó, alguém muito melhor que eu aos olhos dele, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes. Mas se não sou tão bom como essa figura, devo ser considerado “osso duro de roer” e, comigo a coisa continua.

O Senhor esqueceu algo nessa história. As forças acabaram faz tempo e você sabe disso.

11 thoughts on “Nas águas de Jó

  1. Lou, se fosse pra eu fazer uma lição tipo dever de casa e a professora mandasse resumir, estaria certo eu dizer em uma linha que a sua (nossa) goiaba tá demorando?

    (Porque se eu escrevesse que urubu tá voando de costas era capaz de a professora não gostar)

    Não sei se está certo questionar a demora, mas que tá doendo, isso tá.

  2. Karamba Lou, to besta com a história, um dia ainda quero me encontrar contigo pra conversar sobres essas coisas de igreja, e eu que pensei que já tinha sido triturado pela igreja evangélica, até perseguido por um pastor advogado, que disse que eu tava ferrando a igreja dele e queria me processar, mas enfim … parece que vc tem mais histórias e marcas do que eu, com certeza.

    Pior é que custei muito a colocar a boca no trombone, com aquela dúvida de devia ou não. Não faça como eu, grite logo.

  3. Lou, esta é a primeira vez que entro em seu site, e também, este é o primeiro texto seu que leio, que história…
    Ja sofri perseguições também, e acredito que, enquanto somos perseguidos, é porque estamos deixando alguém muito irritado, o Lúcifer. Continue firmado na rocha, meu rapaz, para nós, pobres seres humanos, as coisas ou passam rápido demais, ou devagar demais, ja pensou nisto? Nunca estamos contentes com o tempo de Deus, sei que é difícil, mas se alguma fase de sua vida ainda está mal, é porque não chegou ao fim, significa que o Eterno continuará com você até que tudo se finde.
    Abraço,

    Caca Caramigo, um enorme prazer. (você estará nos meus favoritos)

    Obrigado pela visita e comentário. Sem falar na profecia, que recebo com humildade. É uma honra para mim. Dei uma sapeada rápida no seu blog, depois farei uma visita mais rigorosa. Seu blog estará entre os meus relacionados a partir de agora. Abraço

  4. Fica o consolo de que não te livras dessa fé. É ela que te sustém meu amigo!
    Porque mais importa confiar em Deus que nos homens! :))
    DTA

    Sim, pois…

  5. olha, Lou, tem hora que a coisa tá mesmo feia, e este ano, posso falar isso com tremenda experiencia, mas sei lá…
    ai que a fé entra e
    entra com força total…
    você sabe disso!
    se não fosse isso,
    ai de mim…
    beijos,
    Alê

    Puxa pensei que a ação de Deus fosse incondicional, ou seja, que o maioral fizesse as coisas antes ou independente de nossas iniciativas. Agora estou mesmo perdido. Tenho um defeito, quando a coisa piora, minha fé desaparece. Costumo ter mais fé quando estou forte. Bjs.

  6. Lou,
    suas forças não acabaram e tu sabes bem disso.
    Sai dessa tua auto-comiseração e luta. Por vezes nos esforçamos muito, muito mesmo, só que nos objectivos errados. Empecamos com uma coisa e achamos que só pode ser daquele jeito. Sentes-te abandonado? eu também tive já muitos dias assim. E se queres saber, houve um tempo que perdi completamente a minha fé.
    Mas sabes, Cristo também questionou: “porque Me Abandonaste?” até hoje, muitos especulam, mas ainda não vi nenhuma resposta escrita na bíblia à pergunta de Cristo. Há perguntas para as quais a resposta é o silêncio. E há respostas que somos nós que as damos.
    GOD BLESS YOU,
    T.

    Falo assim para ver se deixo Deus com medo de perder meu amor. Chama-se chantagem emocional. Entretanto, alguns leitores sentem suas forças se esgotando e reclamam. No caso deles não é chantagem emocional, mas esgotamento espiritual. Creio que a resposta à pergunta de Jesus está implicita, ou seja, ele estava sentindo o mesmo que eu e você quando estava em seus dias maus, ou seja completo desamparo. Não é de agora que Deus deixa seus filhos com o mico na mão. Tudo bem, quando o encontrarmos, direi a ele poucas e boas. 🙂

  7. Olá Lou
    pois é, voltei!!! Esta semana li um versículo que nunca havia prestado atenção antes e ainda estou meditando em palavras que mexeram comigo:

    “…mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos. E não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana. (João 2.23-25)”

    E, honestamente, em tudo, de verdade, quero imitá-lo. Estou ruminando esta palavra. Talvez não quisesse ser maldito.

    Christiani

    Jesus era mesmo muito inteligente. Não deve haver nada mais cansativo do que ficar ouvindo desculpas humanas para justificar uma natureza injustificável. Afinal ele sabia muito bem disso, pois foi o Pai dele quem criou essa natureza toda, inclusive essa raça perdida.

  8. O que dizer Lou?
    Acredito que somos coisas boas trilhando maus caminhos.
    Desde que Deus seja a bondade infinita, Ele não permitirá nenhuma maldadde em seus feitos a não ser que sua onipotência traga algo de bom de sua permissão maldosa.
    A única coisa que podemos fazer é ouvir pessoas como você,
    entrar em sua dor e ajudar ( não observar somente), para que possámos aprender alguma coisa que preste nessa vida!
    Jó viu a Deus, de alguma forma creio que tu vistes também!

    Meu maior temor é que as pessoas continuem sendo enganadas, se deixando enganar e gostando disso. Para os profetas bíblicos o problema nem era o que eles sofriam, mas a consciência da importância em deixar os outros saberem o que eles estavam suportando. Isso mudaria a vida daquelas pessoas. Cristo suportou a dor maior, por amor de todos. As gerações continuaram fazendo as mesmas coisas e precisando de sacrifícios, mesmo sabendo do poder vicário das dores do Messias. Então é preciso despertar essa gente desse sono profundo e não será o Obama que o fará. Provavelmente essa tarefa caberá mais para pessoas como você e eu.

  9. Lou, muitas vezes nao entendemos o nosso deserto. Mas quando estamos no caminho da travessia, aprendemos que só perdoando é que conseguimos passar o deserto.

    Abracos

    Taí algo que preciso aprender antes do fim dessa jornada: perdoar. Sou péssimo nisso. Se você estiver certa, há grande chance de terminar meus dias seco no deserto.

  10. Bendita fé lou! Com uma história dessas não é falcil…
    Vamos sobreviver… será??
    abraços!

    Jó era um grande cara. Eu sou um picareta qualquer, sem eira e nem beira. Essa história de horror só tende a aumentar. Deus está ocupado tornando a vida do Warren mais confortável, afinal ele sim, é a cara do Jó.

  11. Grande Lou !… tua fé te faz um gigante pra mim…. se a minha , depois de tudo que vi, vivi e descobri no meio eclesiastico, se eu alcançasse os pés da sua fé, ahhh! eu tb seria grande!….Sabe, a sensação que tenho é que ainda teremos todos uma “conversinha” ao pé d’ouvido com Deus, e então – e somente então – entenderemos nossas mazelas (e o porque só Jó conseguiu de volta o dobro do que perdeu !!) …. tem que ter explicação !!
    Admiro-te mais hoje, por tua história, tua fé e por apesar de tudo o que vives, ainda nos dar a graça de tuas palavras abençoadoras.
    Grande abraço pra vc

    Elogios imerecidos, mas gostosos. Sem dúvida essa conversinha com o divino acontecerá. Ele não perde por esperar…

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