A Gruta do Lou

Não ver e crer

Ronald Golias

Deixem-me Queirugar também. Engraçado como deixar um estopim, por aí, pode causar grandes explosões, quando menos se espera. No caso de Andrés Torres Queiruga, não diria que se trata de explosão inesperada. Mas é certo tratar-se de uma explosão, especialmente entre os teólogos tupiniquins. Particularmente, sou um pouco ingrato com os teólogos católicos, embora tenha sido iniciado em todos os sacramentos católicos e deles abdiquei em favor dos encantos luteranos e calvinistas, apesar de andar meio rebelde com esses últimos, também.

O sábio Queiruga está na berlinda, quem não leu está correndo em busca de fazê-lo. Quem é esse cara que anda sendo citando aqui e ali, em quem muitos têm encontrado substância, e que consegue inspirar outros tantos? Não serei eu a apresentá-lo, nesse caso sou o menos indicado. Li uma coisa ou outra e ouvi histórias de palestras com casa cheia, na Europa. Também tenho observado a quantidade de livros editados pela editora Paulus e alguns com edição esgotada.

Andando, ou melhor, navegando pela Internet, achei um artigo desse bom teólogo pré moderno, como ele mesmo se intitula, no número 190 da revista Questões de Vida Cristã, sob o título: somos os últimos cristãos? De forma brilhante, ele passa a construir sua pequena e importante tese dando conta da necessidade de que o cristianismo precisa retraduzir-se em novo marco ou exercer o direito e o dever fundamental de toda a vida: conservar-se, transformando-se no tempo e para a humanidade, mediante a criação de uma nova história e termina esse pensamento dizendo: “Agarrar-se às formas do passado parece continuidade, mas é mumificação”.

A seguir vem um parágrafo que desejo citar inteiro:

– Por isto se impõe estar alerta com os velhos hábitos que se nos calam como pressupostos inconscientes, como crenças incontroladas que arrastam um séquito de ideias, capazes de viciar, na raiz, todo esforço renovador.

Até aqui viemos de mãos dadas e agora um solavanco quebra a nossa comunhão e cada um parte para o seu lado. Ele começa a segunda parte citando J.M. Tillard quando se refere a uma narrativa oral do gueto judeu de Varsóvia, onde o rabino Yossel Rackover, dentro do horror da perseguição nazista, dirige-se a Deus com a seguintes palavras: “tens feito tudo para que não creia em ti!”; e mais: “vivemos tempos em que o todo poderoso volta sua espada à aqueles que lhe imploram”. Termina o autor citado repetindo as últimas palavras do rabino: “Crerei sempre em ti, apesar de ti”.

Meu rumo, a partir da agora, segue em direção das palavras do Mestre da Galileia quando disse: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.” Seria capaz de jurar sobre a bíblia que nunca tinha ouvido falar que o rabino Yossel teria dito essas frases. No máximo, aceitaria, com faço agora, que ele as tenha falado sob as misérias vivenciadas por ele e seus irmãos, naquelas circunstâncias. Venho escrevendo frases similares em vários textos aqui na Gruta, se bem que o sofrimento por mim experimentado não se compara ao dos judeus durante aquele tempo de tirania hitleriana, mas senti e ainda sinto uma estranha ausência de Deus, em muitos momentos de minha vida, e sei que muitos de meus amigos também tem passado por essa experiência.

Talvez seja difícil para o Queiruga entender esse ponto, se não tiver passado por situações em que tivesse sentido a dor do abandono celestial. Não sei se é o caso dele. Padres levam vida simples, mas não experimentam dificuldades reais, via de regra. Apenas flagelos autoimpostos, no caso dos que optam pela vida monástica. Porém, nosso senhor Jesus Cristo, disse essa frase, aparentemente, desconexa sobre os que não viram e creram, chamando-os de bem aventurados, igualmente. Creio haver aí uma séria probabilidade de que o Nazareno estivesse pensando no rabino e seus queridos e, talvez, até em mim e meus queridos grutenses.

No meio do artigo, o Queiruga fica um pouco chato ao levar seus argumentos para as questões relativas aos problemas da eclesiologia católica, embora sem se distanciar de seu tema. No final ele tece seu gran finale caminhando para uma solução de natureza bem otimista e, novamente, voltamos a nos dar as mãos:

– Uma esperança realista não se tornará como uma almofada para se repousar, perigosamente. Mas sim, teremos todo o direito de apoiarmo-nos nessas convicções (de fé em movimento que faz brotar novos brotos na comunidade, quebrando rotinas, promovendo novidade, abrindo-se até um universalismo sempre renovado) para confiar no futuro. Um futuro que aprendeu humildade no passado e que não poderá ser exclusivista, mas se considerará incluído no diálogo com outras buscas –com outras religiões- sabendo acolher suas perguntas, suas críticas e seus desafios, não se afastando da própria identidade que enriquece, como ela mesma enriquece aos outros.

Desde a humilde experiência da própria fé e o honesto reconhecimento dos erros da própria Igreja, também o cristão de hoje pode exclamar confiado: “Crerei sempre em ti!”; mas sem cair na perigosa retórica do “apesar de ti”, proclamando novamente a humaníssima e realista seguridade: “graças a ti, espero crer sempre em ti”.

Aí eu incluo o meu final, “Mas se não for possível, por motivos que não possas revelar-nos, agora, inclua-nos entre os Bem aventurados que não viram e creram. Nós também creremos em ti, sempre!”

Texto bíblico citado: João 20:29

Ouça “O autor da minha fé” com o Grupo Logos:

 

 Capricornio PB

7 thoughts on “Não ver e crer

  1. Eu sou uma dessas bem aventurada que nao vi, mas estou crendo.
    Lindo isso aqui, Lou, com músicas que me trouxeram ao tempo da minha conversao. As músicas inspirativas do Jairinho. Valeu, mesmo!

    Boa semana prá vocês

  2. Queirugue, Lou, para nos deixar queirugando ao som das lindas músicas com que nos presentea na gruta! Que boa selecção! “She” e “Cinema Paraiso” são das minhas preferidas!
    Este texto e a música Cinema Paraíso fizeram-me lembrar uma personagem de um filme (“O fim da aventura”) em que no final, depois da fé e promessa da amada, que morre, e até após um milagre diz: fizeste-me odiar-Te para que cresse em Ti!
    Um abraço

  3. Meu caro Lou, por fé em Cristo sou condicionado ao amor atuante e uma confiança permanente. É bem verdade, que esta “corrida ” pela leitura de Queiruga, assim como muitos outros escritores e teólogos, é contextualizada pela própria necessidade dos cristãos. Também fiquei rebelde e seletivo na minha leitura sem identificação… Graças a Deus somos pessoas humanas e dependente da Sua Graça e Misericórdia. Penso ser esta a razão. Posso estar enganado, mas torcendo para ser verdade.

  4. Lou, em primeiro quero lhe agradecer pelo comentário sincero. Todo mundo é passivo quando assiste tv, o duro é admitir.

    Sobre seu texto, apesar de ótimo, muito bom, achei motivo para polêmica sádia( se pode haver) em vários trechos. Lá em cima, na parte que Queiruga sugere que ser tradicional é tornar-se múmia, algo me encuca: Como podem querer que o catolicismo seja democracia? isso eu não entendo, nem tenho argumentos não refutáveis, tudo bem, mas o catolicismo não é democrácia, insisto.
    No texto do Zvy Kolitz, Yossel Rackover Dirige-se à Deus, ( perdi este livrinho muito bom, ou emprestei) sempre admirei a fé do rabino fictício, e concordo com vc quando diz que andamos meio parecidos com ele. Mas no final das contas ele sugere uma coisa que já foi discutida aqui na gruta, que sofre exatamente por compôr o povo de Deus.

  5. O que o pessoal tende a mumificar são as crenças, a teologia, o que em última análise, acaba deixando-os com cara de dinossauros. O Queiruga é sonhador e poeta e quer ver a teologia em desenvolvimento constante, acompanhando a evolução humana. Imagine.

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