Não evangelize em hipótese nenhuma

4-LEIS-ESPIRITUAIS

Desde que me converti ao cristianismo protestante (sim eu o fiz) ouvi dizer que era imperativo evangelizar. Como todo mundo faz, a principio, não duvidei e sai por aí, evangelizando. Claro, no principio, meus métodos de evangelização eram os mais rudimentares. Imagine você, eu comprava folhetos lá na Livraria Internacional, na conhecida Galeria dos Crentes, ao lado da Galeria do Rock, na rua 24 de maio, centro de São Paulo, e ia entregando a todas as vitimas infelizes que de mim aproximavam-se ou permitiam minha aproximação. A balconista da livraria, recomendada pelo Marcinho, vim a saber depois que era mais uma das paqueras do crioulo, um dia sugeriu que eu levasse logo uma caixa das Quatro Leis Espirituais, boa vendedora que era, em todos os sentidos.

Isso correu bem durante os primeiros meses de novo convertido ao protestantismo, mezzo calvinista, mezzo pentecostal. Um belo dia, após receber meu polpudo cheque salário, pelos suados dias de trabalho do abnegado professor de educação física, como qualquer inocente faria, dirigi-me ao Banco Francês e Brasileiro, contra quem o cheque fora emitido.

Depois de bom tempo na fila do caixa, fiquei frente a frente com um homem bem mal encarado, com cara de mafioso mesmo, sentado no lugar onde deveria estar uma linda moça, cheia de vontade de se converter ao protestantismo. No segundo que antecedeu nossa transação bancária, tive um insight conhecido como “aviso do Espírito Santo”, nos meios mais pentecas dando conta de não cutucar onça com vara curta. Marrudo como era, afinal Deus ainda não tivera tempo de aparar todas as minhas arestas, logo após receber a grana relativa ao meu cheque, estendi a mão contendo um folheto “4 leis” para a figura.

Nossa! Poucas vezes vi o diabo manifestar-se tão violentamente quanto naquele dia. Sabe quando os pelos das contas se eriçam? Bom eu não vi isso, mas suponho que tenha se dado. Aquele cara era meio humano meio animal, um demo em forma de lobo, e me deu até medo, primeiro pela reação absurda contra quem lhe oferecia oportunidade única de garantir um lugarzinho no céu com Cristo e todos os calvinistas. Depois, eu já sabia que como crente, ainda mais em missão evangelística, que não poderia pegar o buldogue pelo pescoço e manda-lo sim, para o inferno.

Esse foi o evento inicial de uma longa reflexão sobre essa história de evangelismo ou evangelização, duas coisas ou a mesma coisa, isso nunca ficou bem claro para mim. Um dia, enquanto lia minha bíblia, e eu li a bíblia como poucos, cheguei ao texto que está em Lucas (um dos evangelistas), no capítulo 8, versículo 10:

“A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros se fala por parábolas, para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam”.

Segundo o Dicionário Informal, esse que consultamos fartamente via Internet, evangelismo é fazer a Palavra de Deus chegar ao conhecimento do povo. Então, pegou a diferença?

Essa foi a primeira vez que desconfiei. Talvez os profetas pastores e seus seguidores estivessem equivocados. Talvez a verdadeira intenção de Jesus de Nazaré não fosse evangelizar, exatamente, mas o contrário. Essa ideia foi crescendo dentro de mim. Logicamente, minha primeira providência foi adotar o estilo “falar por parábolas”, depois acrescentadas com enigmas. Jesus só falava por parábolas e enigmas, isso está escrito na bíblia, também. Não preciso dizer, mas a partir daí, ninguém mais entendia nada do que eu dizia e comecei a gostar da brincadeira. Era o maior barato.

Coincidências à parte, quando eu já não era mais um novo convertido e, naqueles dias, lecionava matérias teológicas em alguns seminários da vida nova que levava, fui convidado a conduzir aulas, justamente, de Evangelização. Havia, até então, lecionado Crescimento de Igreja, Missões, algumas exegeses de livros bíblicos, etc., mas era a primeira vez que me convocavam para essa matéria, na qual vinha refletindo há tempos.

Quando lecionei Missões, causei enorme polêmica ao afirmar que essa tarefa, nos moldes conhecidos e propostos, era desnecessária. Meu exemplo disso me deu fama de herege, ou seja, o que um missionário cristão faria na Índia, por exemplo, se em termos espirituais acéticos nós só teríamos a aprender com os Hindus.

Nunca mais esqueci a cena do filme Gandhi, quando o Mahatma ensina o Sermão da Montanha a um pastor metodista atônito. Na verdade, eu não cria mais em missões no sentido usual, admitia apenas como uma forma de relacionamento universal, onde um aprende com o outro. Acho que ainda penso assim.

Ah Lou, mas como crerão se não ouvirem? Isso faz a maior confusão. Mas o problema estava resolvido por ninguém menos do que o próprio Mestre Galileu, cujo método de ouvir se dava independente dos sons que lhe chegavam aos ouvidos. Ele era adepto da máxima: “o que você é, me diz muito mais sobre você do que o que você diz”.

Pelo método da turma do convencimento do grito, os surdos não veriam a Deus. Até criei um jargão: “Se você for capaz de evangelizar um surdo, então você estará a caminho de tornar-se um evangelista. Se tornará de fato, quando for capaz de evangelizar um surdo que também seja cego”.

Evangelização na base da pregação ou da massificação, muito comum em nossos dias cibernéticos e televisivos, não passa de proselitismo. As entidades organizadas não pensam mais como os calvinistas de antigamente pensavam, que tempo é dinheiro. Hoje, essas organizações pensam que gente é dinheiro e tratam de fazer das tripas coração e encher suas aljavas, digo, igrejas de pessoas. Pessoas dão dinheiro ou gente é grana.

Descobri então, quanto um bom abraço pode ser uma boa parábola, ou um perdão inesperado em um momento inesperado, ou uma visita não agendada para sentar e ouvir, só isso, o que o outro tem a dizer. Principalmente, desenvolver a capacidade de não gerar culpa em ninguém, sobretudo porque quem o faz só produz escassez.

Mas há ainda um detalhe fundamental, creio que Jesus o expressou via parábolas e enigmas, algumas vezes, ou seja, a verdadeira propagação do evangelho seria um ato de fé, também. Encorajo a todos experimentarem a propagação silenciosa da Palavra de Deus, baseada no abraço, na compreensão, no perdão, no ouvir completa e desinteressadamente a alguém, atos de inegável humildade e, sobretudo, permitindo o milagre da percepção da presença de Deus entre as pessoas.

Jesus Cristo nunca desejou evangelistas ou missionários, mas arautos de seu amor incondicional, através das parábolas que podem ser as nossas vidas.

Da Série:   As Sete coisas que Jesus não faria se fosse você

Os sete passos que Jesus não daria em seu lugar

Não evangelize em hipótese nenhuma

Capricornio PB