A Gruta do Lou

Mudanças e Incompetências

Ainda menino, me sentia muito desconfortável em dias de mudança de casa. Não mudamos muitas vezes, mas detestei cada uma daquelas mudanças. Meu pai fazia questão de alugar um caminhão e ele mesmo arrumar as tranqueiras na boleia, enquanto nós fazíamos o papel das formigas indo e vindo com as coisas nos braços, costas, onde desse.

Infelizmente, depois de casado, a primeira grande burrada que cometi foi concordar em vender nossa casa 600m² no Brookyn Paulista. Mal sabia eu quantas mudanças de casas, esse tipo de asneira nos ocasionaria. Embora morasse naquela casa com minha família (Dedé, Carolina e eu) resolveram não nos incluir na partilha do produto da venda e fomos morar em um apartamento alugado e foi preciso um irmão da Igreja, o amável e solidário Mário Mingone, assumir a condição de nosso fiador.

Meu pai sempre se destacou por fugir de imóveis alugados e, graças a esse princípio morou a maior parte da vida em casas próprias. Por alguma razão que só meus psicólogos e terapeutas poderiam explicar, não me permiti adotar essa crença e valor paterno e passei a vida pulando de galho-em-galho, digo de imóvel alugado para outro imóvel alugado, fora o fato de que não consegui herdar nenhuma das casas dos meus pais.

Bom, posso dar uma boa notícia aqui, agora acredito na importância de possuir um imóvel próprio para morar. Mas só há um probleminha, acho que passei da hora e perdi várias (ou todas) oportunidades para tanto. Não sei.

Com isso, as mudanças se multiplicaram, mas consegui fazer, de quase todas as nossas mudanças, momentos de contestação e vingança contra meu pai, sempre contratando boas empresas do ramo de mudanças para cuidar das paradas.

Com exceção de nossa ida para Sorocaba que o irmão Inácio, responsável por eu ir trabalhar no Esquadrão Vida daquela cidade, resolveu enviar o caminhão da organização para fazer a mudança, pequeno demais para todas as nossas coisas, e quando voltamos para São Paulo, no ano passado, quando o pessoal de uma igreja que ajudei a fundar enviou um caminhão e foi, mais ou menos, igual à da ida, ou um pouco pior.

Nos tempos em que sonhava ser um pastor (sim eu sonhei com isso, mas já passou faz tempo, fique tranquilo), por alguma razão só explicável pelos discípulos de Freud, imaginei alguns planos para situações de mudanças de imóveis dos membros da minha igreja. Pretendia formar uma comissão permanente para mudanças a fim de atuar nesses casos.

Nesse meu plano, a família não faria nada nesse dia. A comissão assumiria tudo, tudo mesmo, não só contratar o transporte, além disso, preparar o novo imóvel (pintura, reparos, etc.) enquanto a família seria encaminhada para um dia completo de lazer, distante da mudança e deixaríamos, inclusive a despensa da casa, geladeira, etc., plenamente abastecidas. Fora deixar o imóvel antigo como se fosse novo. Se não me engano, vi algo parecido em um filme, desses que assisto na TV, nas madrugadas de preocupação.

Evidentemente, na condição de pastor, insistiria para nosso pessoal morar em casa própria sempre e trataria de formar outra comissão na igreja, capaz de orientar os membros quanto a isso.

Seria uma doce união entre pressupostos socialistas e capitalistas, com a comunidade trabalhando pela propriedade privada. Mas meu capitalismo, em termos de propriedade para por aí, casa é um dos poucos itens que deveríamos possuir, nessa vida, se não me engano.

Aos 63 anos estamos mudando de novo. Não sei se serei fiel ao meu propósito de vingança contra meu pai e suas maravilhosas mudanças. É triste, mas se depender das possibilidades atuais, será uma daquelas mudanças para esquecer, pior, ainda não será para uma casa própria. E pode ser ainda muito pior, pois a quantidade de serviços a serem realizados, tanto na preparação da nova casa, quanto no transporte e em deixar a antiga em ordem, supera em muito nossa capacidade familiar de suprir tudo isso, de todas as formas.

Não creio em um Deus capaz de me fazer sofrer e pagar pecados via mudanças, muito menos com essas picuinhas. Ele me parece meio negligente às vezes, mas sempre tem bons motivos nessas ocasiões. O problema é comigo mesmo. Incompetências, autoestima ruim e outras restrições devem fazer parte das raízes do mal.

morcego-12

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