Missões pós modernas

Acompanhei, sem muito ânimo, algumas escaramuças entre o pessoal adepto do que eles chamam de ortodoxia e alguns dos nem tanto ortodoxos. Reparei não haver entre os dois grupos ninguém com sintomas de decisão inequívoca para lá ou para cá. Ficou evidente o medo que ronda a todos, medo de estar equivocado e de ter feito a escolha transversa.

Enquanto isso, a Igreja da qual falam e arrogam defender, continua sua caminhada resoluta para o inferno. Sou do tempo em que as pessoas acreditavam que as portas da casa de Satã não prevaleceriam contra a tal Casa de Deus. Não sei se o demo venceu ou o Deus da casa cansou, o fato é que não há esperança dando sopa por aí.

A maioria está buscando sobreviver, e por que não com alguma sobra ou até abundância. Faz tempo que os pastores pobres cheios de orgulho por viver pela fé se foram e não nos deixaram herdeiros, pior, levaram com eles a honra pelo status. Agora, gente que exerce essa função anda de Lacoste  e rolex em seus carrões, coleciona diplomas e experimenta o vento no rosto, montados em suas super motocicletas importadas. Perderam o charme e o respeito, trocando tudo isso por pratos de lentilha em forma dessas futilidades.

Nem faz tanto tempo assim, havia grandes eventos onde reuniam-se multidões formadas por gente disposta a servir o Criador por nada. Acreditavam, inocentemente, em cumprir uma utopia que denominavam “A Grande Missão”, cujo significado era, simplesmente, ganhar o mundo para Cristo. Muitos sairam mundo a fora proclamando o ano aceitável do Senhor. Sei de um idiota que chegou à Albânia ateista com essas utopias e, depois,  escalou a África pobre.

Mas isso se foi, perdeu-se em loquacidades frívolas. Estamos muito mais interessados no novo plano de saúde do Obama e no PAC da dupla Lula/Dilma enquanto ficamos de olho no BBB. Quem levará o prêmio de hum milhão e meio (se não for isso, me perdoe)? Quanto à igreja, tentamos preservar alguma dignidade reclamando do mercantilismo que a tomou de assalto, dos desvios dos líderes e pastores, totalmente enfeitiçados pelos prazeres da carne, lamentamos o distanciamento do povo em relação ao livro sagrado, cada vez mais patente, enquanto saboreamos uma Heineken geladinha ou um chianti encorpado, devidamente afastados da Casa do Senhor.

Parece não haver mais volta. Missõeszinhas como as minhas, coisas simples como dar uma força aos cardiopatas congênitos, já que fomos premiados com essa praga, e aos dependentes químicos, não sensibiliza quase ninguém. Pessoal investe dinheiro em ministérios que, de alguma forma, lhes prometem retorno multiplicado e imediato, de preferência em espécie. Pouco interessa  o que isso possa ter a ver com a tal missão. Mal sabem eles que cada centavo depositado em meu ministério redundaria em retorno mil vezes superior em comparação aos outros. Embora o pagamento só viria a acontecer em outra vida, caso isso venha mesmo a existir. Se eles soubessem apostar, saberiam que os azarões sempre pagam muito mais. Barbadas pagam o mínimo. Deus é um grande gozador.

Dois anos atrás, ainda consegui algum apoio para minhas quixotescas aventuras de cavaleiro andante cristão. Agora, ninguém se detém para limpar minhas feridas e me colocar na estalagem, cada um cuida de si. Alguns ainda pensam consigo, esse vagabundo que se lasque, a fim de aplacar suas consciências. Mas o missionário, o profeta moderno, precisa se expor; é desígnio de Deus para evidenciar a podridão dele e do povo. Estamos discutindo o planeta e a igreja enquanto aguardamos na fila cujo destino é o lago de enxofre, onde haverá choro e ranger de dentes.