A Gruta do Lou

Vou de Mototaxi

Sábado a noite – Terceiro Ato

          Cheguei à Azaré às 20:10 hs. Fiz questão de dar uma última olhada fulminante na direção da porca da D. Elisabeth, mas ela se fez de difícil e desviou o olhar noutra direção. Notei que o cheiroso e sua acompanhante saíram juntos com a rotunda. Não havia ninguém naquela Rodoviariazinha mixuruca que só. Nem o incompetente do pastor. Muito menos banda e autoridades. Tive que usar meu cartão telefônico para ligar ao cara:

– Alô, quem fala?

– Pastor Wagnor.

– Wagnor, sou eu. Estou aqui na rodoviária.

– Ah, sei. Aí tem os mototaxis. Pega um e venha aqui para na Igreja. A diretoria está reunida e eu não tenho como sair daqui agora.

– Está certo, farei isso.

Bela roba, como é que poderia subir na garupa de uma moto Honda 125 cc com meu peso atual de 110 kgs, mais mochila, pasta de trabalho e o pacote do presente da Meire (que a minha mulher recomendou muito para não amassar). Então, peguei um táxi de verdade, mesmo. Fazer o que? O motorista muito bem humorado me levou até lá. Notei que ele abriu todas as janelas do carro antes de partir. A conversa breve foi:

-Anda cheirando muito mal aqui pros lados da rodoviária. Disse o motorista.

-Nem me fale em cheiros. Estou traumatizado. Respondi.

– Sim sou batizado. Batizado e crismado. Semana que vem faz 62 anos. Observou.

Ainda bem que chegamos. Essa conversa não ia acabar bem. Senti uma ponta de desdém naquelas palavras. Ao descer do carro, o homem me desejou saúde. Não entendi bem a colocação. Quando entrei na Igreja o pastor não me recebeu. Um menino sorrindo disse para eu sentar em uma cadeira na nave da Igreja e esperar a reunião acabar. Antes de sair, abriu todas as janelas. A reunião acabou depois das 21:00 hs. O pastor foi o único a vir me encontrar. Os outros foram, rapidamente, embora. Estranhei isso. Gente do interior não estar curiosa em conhecer o grande pregador, estranho, muito estranho. Deve ser insegurança, talvez timidez, pensei.

– Como foi a viagem? Andam dizendo por aí que foi uma grande e cheirosa viagem. Falou e me olhou com cara de gozador.

– Desculpe, não entendi. Fiz-me de rogado.

– Deixa para lá. Você deve estar com fome, ou ainda está se sentindo mal? Uma pizza agora, será que faria bem, ou prefere ir até a casa de minha mãe e eu peço para ela preparar uma sopa bem leve? Continuou a me gozar.

– Olha pastor, eu quero comer pizza. Falei com firmeza.

– Tudo bem, a barriga é sua. Mais gracinha.

Fomos à pizzaria rodízio e “delivere” (está assim na placa) da Mama Genoveva, em algum lugar da cidade. Acho que comi uns oito pedaços de pizza no rodízio. Exagerei mesmo. De propósito. O garçom (que também era caixa e ajudava a montar as pizzas) adorou me servir, pois não parava de sorrir enquanto me servia. Estava com raiva e pensei: “Esse cara não sabe com quem está falando” em relação à gozação do pastor. Ah! Também tomei uma Coca Cola de dois litros, sozinho. O gozador de meia pataca, além de palmeirense, não gosta de Coca.

Durante o jantar, se é que se pode chamar aquilo de jantar, perguntei o motivo da reunião da diretoria:

– Foi bom você tocar nesse assunto. Acontece que a cidade inteira está sabendo da indisposição intestinal que você teve no ônibus e do assédio à Matilde, vindo para cá no Santa Edwirges. Um dos membros de nossa igreja, o Aquino estava no ônibus e contou para todos os irmãos, via celular.

Bem que eu notei uma carinha cheia de sorrisos no motorista de táxi, no garçom da pizzaria e até no menino, lá na igreja. Que vergonha, meu Deus. Como o Senhor permitiu uma coisa dessas? Perguntei ao divino. Foi nessa hora que me veio uma ideia à mente e achei que era a tardia providência de Deus:

– Olha pastor: houve um grande mal entendido por causa daquela anta da D. Elisabeth e desse desavergonhado fofoqueiro do Aquino. Ela soltou os traques e depois colocou a culpa em mim. Não houve assédio algum e nem poderia ter havido. E o lazarento ligou do celular e deu o serviço. Preciso limpar minha barra e você precisa me ajudar.

– Muito difícil. A Matilde, a quem você insiste em chamar de Elisabeth, a mulher gordona que acusou você no ônibus, é a mãe do Rodrigues, nosso principal diácono ( o melhor doador da igreja). O Aquino é o irmão do Rodrigues. Na reunião da diretoria ele colocou o cargo à disposição dizendo que se eu não dispensar você de pregar amanhã, ele vai para a Igreja do Evangelho Quadrangular. Infelizmente a Igreja contraiu várias dívidas com a última reforma e a compra de alguns instrumentos musicais e não poderemos abrir mão do dízimo do Rodrigues, de jeito nenhum. Assim, só nos resta uma saída, colocar você no primeiro ônibus de volta para Sorocaba. Para nosso azar maior, só haverá um amanhã às 08:00 hs. Se houvesse algum hoje, você iria embora agora mesmo.

– Só um detalhe, no Santa Edwirges eu não viajo nunca mais, e outra, a mulher balofa tem cara de Elisabeth e o Aquino com aquele celular ridículo não é chegado a banho. Falei cheio de ira.

– Fique tranquilo, você irá de Casquel, descerá na rodovia Castelo Branco, na altura de sua cidade, e pegará o Cometa, do outro lado da pista, em direção a Sorocaba. É Tudo que posso fazer.

– Espera ai. Você está me dizendo que passei todo esse constrangimento por nada? Perguntei.

– Por nada mesmo. Nem a oferta que estava separada para você existe mais. A diretoria decidiu por unanimidade que você é problema meu e pessoal. Eu estou na tanga. A única coisa que poderei fazer será pagar-lhe a passagem de volta. Nem a passagem da vinda poderei reembolsar-lhe, agora. Você precisará esperar umas duas semanas quando mandarei algum dinheiro para cobrir isso.

– E como vai ficar amanhã? Quem pregará em meu lugar?

– Nós temos dois vídeos e escolheremos um deles para colocar no telão.

– Vídeo, de quem?

– Um é do Fed e o outro do Gordim.

– Eu sabia, até aqui no meio desse Deus dará, quase na bacia das almas, perco minha única oportunidade, em dois anos, para fazer uma palestrinha e justo para quem? Maldição! Ainda bem que você não tem nenhum vídeo do Brado ou do Tonicodemus.

– De quem? Perguntou.

– Nada, deixa para lá. Asseverei.

Saímos da pizzaria na moto Honda 125 do pastor, com mochila, maleta e o pacote da Meire. O pastor e a ela estão divorciados. Tive que trazer o presente de volta para Sorocaba. Ele me levou ao Hotel do Homero Borracha, um senhor de quase oitenta anos que foi goleiro do Azareense, há cinquenta anos.

Quando desci da moto, precisei levantar a perna demais e adivinhe, escapou unzinho. Se o Pastor ainda tinha alguma dúvida, agora não tem mais nenhuma.

Amanhã, o último ato

Lindos campos, rios e montanhas

Santa Edwirges, rogai por nós

Dona Elisabeth, afastai de nós

Vou de Mototaxi

Tim tim por tim tim

 

Capricornio PB

 

 

12 thoughts on “Vou de Mototaxi

  1. Vilma – Como diria um amigo: se piorar melhora.
    O Blog aberto aos comentários é um espaço democrático e o esperado é bom senso e sensibilidade. Gosto dos teus comentários por sempre conterem esses dois ingredientes. Muito obrigado.

  2. Ô Lou, saí do computador, mas tive de voltar aqui. Esta história é verídica ou ficção? Porque não estou acreditando até agora. Por favor, não me deixe neste sofrimento…

  3. Christiani
    Como diz a categoria do post, trata-se de ficção. Entretanto, como você sabe bem, toda ficção recebe uma dose da experiência do autor, se não for em fatos de sua experiência, certamente será em componentes de sua alma. Certo?

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