Tim tim por tim tim

Último Ato – A volta

          Domingo, levantei cedo. Pudera, não consegui dormir. Tive problemas intestinais à noite toda e além de tudo que aconteceu ontem, uma pergunta me martelava a cabeça: O que eu diria lá em casa? Mentir não daria. Chegaria cedo demais e ninguém acreditaria. Falar a verdade e quem acreditaria? Melhor seria preparar o terreno. Liguei para casa, às 7:15 am e ninguém atendeu. Claro, nessa hora quem atenderia?

Olhei pela janela do meu quarto do hotel e vi algumas pessoas caminhando. Cheguei a reconhecer algumas. Eram da Igreja. Provavelmente o pessoal que costuma chegar antes para arrumar as coisas. Inclusive o menino que cuida do som e do telão passou, também. Esse teria bastante trabalho. Pior é ouvir aquelas bobagens. Problema de quem opera esses vídeos é ter que escutar as mesmas asneiras repetidas vezes. Se não fosse aquela hipopótama e seu filho fedido, eles teriam tido uma grande palestra naquela manhã. Como pode? Cada uma que me acontece. Só faltou a mulher deitar em cima de mim em alguma curva, como aquela vez em que o velhinho de chapéu não conseguiu se segurar e sentou no meu colo, no ônibus, não teve forças para levantar e ficou ali, sentadinho enquanto eu ficava com cara de idiota servindo de cadeira para ele. Depois, quando digo que detesto ônibus, ninguém entende.

Sem grana, tratei de iniciar a caminhada rumo à rodoviária. Para completar, ela fica bem longe do hotel do Homero Borracha.

Às 08:05 hs. meu ônibus deixou aquela rodoviária horrorosa, naquela cidade provinciana com aquela igrejinha merreca, um pastor frouxo e tudo isso graças ao Bom Deus.

Antes de sentar em meu lugar, tomei todo o cuidado em observar se não tinha nenhuma gordona por perto e, mesmo assim, coloquei todas as minhas coisas no assento ao lado do meu para evitar que algum passageiro de meio do caminho sentasse ali. Durante a viagem senti ódio em pensar que o meu grande público estava, naquela altura, ouvindo mensagem do Fed ou sei lá de quem. Essa gente me persegue. Cê viu o post do Fed? Sabe que é, comecei a fazer faculdade e não está dando para comentar no seu, só lá na tigela. Vai lá ao site do Gordim, o post de hoje está espetacular. Carcamanos de uma figa!

Comecei a relembrar tudo, desde o começo, tim tim por tim tim. Não podia dar certo, mesmo. Auto Ônibus Viação Santa Edwirges!!! Nem lugar reservado os caras tem. Viajar quatro horas em um percurso que leva no máximo duas. Sentar com uma jamanta peidorenta feito a D. Elisabeth e ao lado de um sujismundo igual ao Aquino e seu celular maldito, essa praga dos nossos dias. Pregar em Azaré. Que “decadence”. O Nietzche tinha razão, como sempre. Negócio com esse tipo de gente é fria, sempre. Da próxima vez que pintar um convite igual, lembrarei da Elisabeth de Azaré.

A parte espiritual estava em ordem. Sempre que há uma viagem dessas, o grupo de oração da Igreja intercede em sistema de corrente, pelo menos durante uma semana. Pode ser que o anjo tenha se atrasado. Lembram do caso de Daniel? O Anjo dele arrumou uma briga no caminho com um demônio e atrasou três semanas, coitado. Enquanto isso, o infeliz ficou comendo aquelas coisas horríveis (verduras e legumes). Todos vocês sabem que o meu anjo é o Raniel e pontualidade não é bem o forte dele. Que ele não estava comigo durante a viagem, isso nós sabemos, resta saber qual será a desculpa dessa vez.

O fato é que sou um missionário grutense. Quando não é uma coisa é a outra. Eu estava em minha casa quietinho com minhas contas para pagar, sem trabalho, enfim esses detalhes que sempre nos atormentam, mas aos quais já estamos acostumados. Ai vem esse excomungado de Azaré e me faz viajar 360 kms, ter aquele relacionamento tempestuoso e mal cheiroso com a Elisabeth, o Aquino, o Rodrigues, passar uma noite naquela espelunca do Homero Borracha, comer pizza que também parecia ser feita de borracha e voltar com menos grana no bolso do que sai. Pode?

Cheguei em casa às 12:00 pm. Apavorado por não saber o que iria dizer ao pessoal. Mas não havia ninguém em casa. Quando entrei, só um recado, no lugar onde costumamos deixar os recados. Dizia assim:

– Fomos almoçar no Buon Gustaio (o melhor restaurante de Sorocaba) . Tem pizza de ontem na geladeira, é só esquentar no micro-ondas. Na volta eu explico. Não fique bravo.

A letra era da minha esposa. Fiquei muito bravo, mas essa história eu conto outro dia, ou não.

Assim terminou minha missão a Azaré. Esse livro não será cogitado para o cânon bíblico.

PS: Atenção: Os personagens dessa ficção são todos fictícios. Qualquer semelhança será mera coincidência. Será?

Se alguém tiver coragem para ler o texto na íntegra ou fazer o download, sei lá para que, há um link ao lado para tanto. Aliás esteve ai o tempo todo e completo, mas o pessoal não olha…

 

Da série: Missões em Azaré:

Lindos campos, rios e montanhas

Santa Edwirges, rogai por nós

Dona Elisabeth, afastai de nós

Vou de Mototaxi

Tim tim por tim tim

Capricornio PB