A Gruta do Lou

Dona Elisabeth, afastai de nós

A viagem de Ida – Segundo Ato

            Nesse instante, o ônibus da Santa Edwirges iniciou a operação de partida. Os primeiros vinte ou trinta minutos correram razoavelmente bem. D. Elisabeth terminou o lanchinho dela deixando cair ao chão o saquinho de supermercado que embrulhava o sanduíche. Tomou uma garrafa de água em um gole só e tome garrafa no chão. Percebi haver muitos outros detritos além desse, ali. Então sorri para ela e perguntei:

– Então. D. Elisabeth, a senhora está indo para Azaré?

– Não. Eu não me chamo Elisabeth, meu nome é Matilde.

– Verdade? Eu juraria que seu nome era Elisabeth. A senhora tem cara de Elisabeth.

Ela não disse nada, mas me fuzilou com um olhar terrível. Fiz que não percebi e continuei:

– Estou indo para Azaré. Amanhã farei uma palestra no encerramento do mês de Missões, na Igreja da cidade. Parece que vai haver muita gente para assistir. Anunciaram pela Globo. Imagine.

A isso, ela deu de ombros. Jogou a cabeça para o lado da janela e fechou os olhos. Percebi que o papo acabara. Olhei para o lado direito e vi o cidadão ao meu lado sorrindo para mim. Era um senhor simples com a roupa bem amarrotada, barba por fazer e cheirando suor de três ou quatro dias, mas com cara de simpaticão. Então fui logo contando tudo de novo para ele sobre a minha viagem para Azaré. Sorrindo ele estava e sorrindo continuou, sem dizer palavra. Papo encerrado.

Percebi que ler não seria uma opção por absoluta falta de espaço. Então decidi pensar no dia seguinte, fantasiando minha performance no púlpito daquela amada igreja. Lembrei da possibilidade da banda estar me aguardando junto com as autoridades, ia ser uma grande curtição.

Acho que se passaram mais uns quarenta minutos, enquanto sonhava acordado. O ônibus acabara de fazer uma segunda parada em uma das cidadezinhas de beira da estrada. D. Elisabeth roncava alto, naquele momento. De repente, ouvi um barulho estranho, parecia que o acento da opulenta senhora estava se rompendo. Entretanto, seguiu-se ao barulho o pior odor que já havia inalado em minha vida. Custei a admitir que era mesmo aquilo que estava pensando. Enquanto demorava para processar toda essa informação, outros sons mal cheirosos seguiram-se ao primeiro e cheguei ao limite. Dei um salto levando o antebraço de D. Elisabeth comigo. Ela acordou e de bate pronto gritou:

– O que é isso que o senhor está fazendo?

Não consegui responder e ela emendou:

– Não tem vergonha não? Um pastor ficar peidando desse jeito. Quem vai aguentar ficar nesse ônibus agora, com esse fedor? Porco, sem vergonha!

Fiquei perplexo. Olhei para os outros passageiros, nessa altura acordados e todos estavam abanando as mãos na frente do nariz. D. Elisabeth continuava gritando histérica:

– Sem vergonha! Sem vergonha!

Nessa altura ninguém sabia mais se eu tinha só soltado os gases ou passado a mão nela, sei lá a onde. Tratei de não olhar para mais ninguém, exceto para o cavalheiro cheiroso da minha direita, pois ele estava falando com alguém ao celular e tive a impressão de ouvi-lo pronunciar a palavra pastor umas três vezes, pelo menos. Pronto, a notícia já havia vazado para fora do ônibus.

Claro que não sentei mais do lado da D. Eloá. Fiquei em pé, mas do lado da mesma poltrona, pois não havia como ir para frente onde estava o do vinho e nem para trás, porque todos haviam cruzado as pernas para o meio do corredor e era impossível passar. D. Elefanta dormiu de novo e o processo anterior continuou acontecendo. Vira e mexe eu via os caras abanando a mãozinha e olhando em minha direção. Felizmente, em uma das paradas seguintes, um casal que estava sentado lá atrás, desceu. Mais que depressa tomei posse do lugar.

A partir daí a viagem seguiu, mais ou menos, calma. Recuperei a visão da paisagem ridícula daquelas paragens horrendas, através da janela que tomei o cuidado de abrir completamente, o espaço ficou adequado e pude sacar meu livro. Só as mãos abanando continuaram a me incomodar, além do cheiro que inundara o coletivo inteiro e do calor infernal, apesar do vento recém adquirido em meu novo lugar.

Naquela hora bem que pensei coisas do tipo: o Caio, na época boa, não aceitava ir se não fosse de jatinho. Garanto que a turma do Tonicodemus, o Fed e o Gordim não embarcariam numa geringonça dessas, de jeito nenhum. Só eu e o Nivaldo Nassif, mesmo. Isso é o que dá querer bancar o humilde. Se não nos valorizamos, essa será a nossa paga. Aquela cambada de azarentos, não é a toa que são de Azaré. Espero que esse idiota, que estava fazendo ligações com o celular, não conheça ninguém lá da igreja de Azaré. Essa notícia cairia feito uma bomba, lá. Depois do estrago feito, seria muito difícil consertar as coisas. Bom, Deus não permitiria que algo assim acontecesse com o grande servo dele, certamente. Manterei a minha fé inabalável. Ai que medo!

Claro que todos os passageiros acabaram percebendo que a flatulenta era a gordona e não eu e que não encostei nela, exceto no antebraço dela, ao levantar de supetão, mas isso não mudaria o meu futuro próximo, como veremos logo a seguir.

Continua amanha

Da série: Missões em Azaré

Lindos campos, rios e montanhas

Santa Edwirges, rogai por nós

Dona Elisabeth, afastai de nós

Vou de Mototaxi

Tim tim por tim tim

 

Capricornio PB

 

6 thoughts on “Dona Elisabeth, afastai de nós

  1. Lou, só você mesmo pra me fazer rir da barriga doer. âkakkakakakakkakak!!! Tô rindo até agora, mas a situacao deve ter sido nada constrangedor mas de puro fedor, kakakkakakka
    Vou voltar amanha para saber do final da história…

    Boa semana prá você e grandes bencaos mesmo que elas parecam pequenas.

  2. Teria Paulo apanhado uma dessas flatulências?
    Com certeza! hehehehehehehe
    continuo a acompanhar meu caro amigo Lou! 😀
    Lendo e rindo….

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