Missão na integra ou a decadence

Estou em um daqueles momentos em que escolho ou aproveito algum acontecimento do dia para destilar meu veneno. Hoje a minha vítima é um evento que está acontecendo em São Paulo sob o título de Missão na Íntegra, com a participação de Ed Rene Kivitz, Ariovaldo Ramos (Diretor da Missão na Íntegra) e Don Richardson (Autor de O Totem da Paz), provavelmente nas dependências da Igreja Batista da Água Branca (IBAB) onde o Ed é o pastor titular e o Ariovaldo, uma espécie de pastor honorário. Esse evento vem acontecendo desde o ano passado e tem agenda para este ano, também.

Antes de mais nada, uma explicação, tenho optado pelo outro lado, como uma espécie de opositor permanente ao status quo evangélico, na maioria das vezes, porque acredito na velha máxima de que toda unanimidade é burra. Claro, se houvesse uma unanimidade inevitável, eu não teria nada a dizer sobre o que quer que fosse. Não é o caso. Várias vezes me perguntaram, desde que comecei blogar, o que eu teria contra esses big stars do evangelho como esses aí acima e outros, como Gondim, Caio, Malafaya, Macedo, Ricardo Barbosa, Nicodemus, Sung, etc. Na verdade, não tenho nada pessoal contra eles, nunca os vi fazendo nada que os desabonasse moralmente, inclusive, alguns deles, como o Ed e o Ariovaldo eu os conheço pessoalmente, considero-os bons amigos e já interagi com eles em várias oportunidades, desde os tempos do seminário e em muitas situações de nossas vidas e ministério. Caso venha encontrá-los por aí, há o perigo de cumprimentá-los com um bom abraço. Os outros encontrei aqui e ali, talvez nunca tenha estado com o Bispo em um mesmo lugar, não sei, mas isso não faz nenhuma diferença.

Meu objetivo primário é apontar o dedo para suas ambiguidades ou paradoxos é confrontá-los, para bem deles mesmos, do evangelho  e, óbvio, dos seus seguidores mais inteligentes. Sem dúvidas, as diferenças entre eles são enormes. Quando faço isso, estou abrindo-lhes espaço para fazerem o mesmo comigo, se bem que sou malandro e inexpressivo o suficiente para não dar-lhes muita ocasião a isso. Um discutível segundo motivo seria aproveitar essas oportunidades para aparecer um pouquinho às custas de gente mais famosa que eu, imaginando-se que os inveje completamente. Em minha defesa diria que há pouco nesses caras que eu inveje, a menos que eles tenham alcançado a paz nessa vida, coisa que eu não consegui ainda. Sei de fatos que lhes aconteceram que não gostaria de experimentar, especialmente certos momentos difíceis. Também tive os meus e não gostaria de vê-los sofrendo as mesmas dores que sofri e sofro.

Em relação ao evento citado, meus amigos Ed e Ariovaldo, embora tenham construído ministérios relevantes, nunca foram missionários, que eu saiba. O Ariovaldo esteve na Costa Rica, se não me engano, em viagem patrocinada pela Open Doors, e planejada pelo Dale Kietzman (meu tutor em assuntos de desenvolvimento e missões), para conhecer um movimento de jovens que se multiplicava nos canos, é isso mesmo, nos canos de esgotos espalhados pelas ruas da cidade antes de serem conectados à rede de esgoto, ou teria sido outro, já que minha memória nessa altura está mais para o Al (Alzeimer) e já deve ter viajado muito por aí, certamente, além de dirigir, participar e presidir várias agências missionárias mas nunca foi um missionário, de fato. O Ed, também pode ter viajado bastante, mas não foi um missionário, igualmente. Consideram-se missionários por causa desse conceito discutível da tal Missão Integral, que faz dos pastores de igrejas, missionários, sem nunca terem visitado nem a favela da vizinhança, na maioria dos casos. Tão pouco isso diminui ou desvaloriza o que quer que tenham feito de bom em favor do evangelho no Brasil.

Evidentemente, faço enorme diferença entre o ministério de um pastor de igreja, um pastor palestrante e um missionário., não em termos conceituais, mas falo do que sucede na prática. Considero missionário um cara que deixa sua casa, sua parentela, seu país, seu povo e segue para viver e anunciar o evangelho em outra cultura. That’s it. Claro que alguns pastores espertinhos, norte americanos of course, inventaram uma tal de missões urbanas para se auto proclamarem missionários. Então passaram a considerar suas tarefas pastorais de campo, como visitar favelas, hospitais, bairros pobres, creches, etc, como atividades de missões. Talvez o Ariovaldo já tenha pisado em alguma favela, afinal ele trabalhou com o Caio lá no Rio e deve ter subido algum morro, por lá. Quanto ao Ed, tenho minhas dúvidas. Já deixei muito pastor de saia justa perguntando se ele já visitara alguma favela, em seu trabalho para Deus. Creio que todos os pastores, pobres ou ricos, batistas ou neo-pentecostais, presbiterianos de todas as seitas e metodistas, assembleianos ou quadrangulares, deveriam incluir essas tarefas como parte de seus job description. Mas isso não faz deles missionários, a meu ver. Não adianta inventar a tal missão integral e apelidar tudo como missões, isso é um grande equívoco  e não acrescenta, ao contrário, se não me engano.

No Brasil, além de mim e do Carlos Siepierski, teriam algo a dizer sobre missões a Najua Diba, missionária brasileira na Albânia até hoje, a Valnice Milhomes, missionária brasileira em Moçambique por muitos anos, as irmãs Margareth que quase perderam a vida em Angola, um outro missionário enviado pela Missão Antioquia que teve seu pênis decepado em algum lugar da África por causa de seus cristianismo, o casal Celso Prado, em Moçambique e Guiné Bissau, a Neuza que perdeu a vida na Índia. O Pr. Jonathan Santo, ao contrário do genro dele que apenas morou na Inglaterra, dirigiu a Missão Antioquia, ainda mantida sob o guarda-chuva de seu ministério faraônico em Araçariguama, eu o chamaria para dar muitas explicações sobre dezenas de vidas que ele enviou para o campo missionário, para viverem sob a maior penúria, e um monte de anônimos ou pouco conhecidos que enveredaram pelo nosso sertão, nossas florestas e pântanos, por toda a África, índia, América do Sul, Cuba e até os confins da terra.

Nunca os pastores de igrejas ou conferencistas semi profissionais, o caso da maioria dos palestrantes de Missão na Integra, que conforme bem explicou o Ed, seria uma nova proposta teológica, diferente, mas nos moldes da velha e ultrapassada Teologia da Libertação, uma proposta metzo marxista do século passado, para a América Latina..

Acontece que o cara, depois de um tempo, fica fominha por falar, principalmente depois que essa atividade, falar, passou a ser muito bem remunerada, além de proporcionar alguns pontos a mais na fama. O pessoal não se faz de rogado, se for convidado para falar, mesmo que seja sobre algo do qual não façam a menor ideia, eles aceitarão e até poderão fazer boas palestras, devido às suas habilidades pessoais para falar em público, embora serão palestras ocas, sem fundamento ou sob o fundamento de outrem, provavelmente.

Trata-se de algo muito distante do conselho de Thiago, cujo teor diz respeito ao ganho contido no calar. Só para ilustrar, deixei o site do evento acionado e , durante o intervalo para almoço, vazou a conversa do pessoal da organização falando sobre, exatamente, o pagamento que fariam ao Don Richardsom e outros gastos com o evento. Aliás, o Don pegou a grana e escafedeu-se do evento, faltando à última parte para a qual estava programado. Deve ter tido seus motivos.

Agora pouco, enquanto estava assistindo a palestra do Don Richardson, que foi missionário na Nova Guiné, há milênios, presenciei-o gastando a maior parte do tempo citando fatos que retirou de livros conhecidos sobre missões, como o excelente “O Segredo Espiritual de Hudson Taylor” que narra boa parte do trabalho desse missionário na China, nos tempos em que eles cortavam tudo dos cristãos, não apenas aquilo.

Sabe, esse pessoal muito exposto ao way of life norte americano fica velho e não aprende. Até hoje o Don confunde fazer missões com proselitismo. Uma pena. Muitos “missionários” perderam a vida, ou essas partes vitais, por cometerem o mesmo erro do velho missionário canadense aí. Meu, você vai a um povo fanático por sua religião, não importa qual seja, e começa a convidar os jovens, sobretudo as mocinhas bonitinhas, para fazer parte da sua religião e acha que eles te darão uma placa de prata ou um troféu por isso.

Se você tivesse estudado um pouco de antropologia comigo ou com a Barbara Burns, saberia o quanto essa gente está pisando na bola e arriscando suas vidas por nada. Anunciar as Boas Novas segundo o modelo neo testamentário protagonizado pelo Senhor Jesus não é convencer ninguém a mudar de religião e, muito menos, mandar exterminar quem pratica outras religiões não cristãs.

Enfim, para mim o pior é que essa volúpia toda para açambarcar todas as oportunidades que aparecem para dar uma “palavrinha” por grana ou fama, é altamente prejudicial no todo chamado Igreja, aliás, na nossa combalida Igreja. Parece que poucos vêm com eu, ou seja, que essa instituição está em franca decadência. 

Entendo que como mentores do projeto Missão na Integra, o Ari e o Ed achem natural estrelarem seus eventos, mesmo porque, duvido que mais alguém conseguisse explicar o que pretendem, como eles. Mas seria muito nobre convidar alguém, como o Don, e deixar o cara falar sozinho e ser o protagonista por um dia, às custas deles ou de seus seguidores.

O pessoal fica por aí lutando contra a extinção de um monte de raças de animais ameaçadas ( o que é muito importante), mas penso que está na hora de se dar conta de que a nossa raça cristã é que está tremendamente ameaçada e essa turma está contribuindo decisivamente para tanto, mesmo que não tenham essa intenção. Será que Cristo terá que resolver tudo sozinho, de novo?

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