A Gruta do Lou

Miserável

O miserável
O miserável

O “fazer” motivado por uma teologia falsa, fundamentada em valor e merecimento é um grande equívoco. Nesse caso, fazemos para receber algo em troca ou para fazer jus a algo recebido e é tudo a mesma coisa.

Você pode me dizer que não é religioso ou desistiu da sua igreja. Isso não importa, tão pouco. O que coloca suas crenças em movimento é o conceito aprendido e isso acontece mais frequentemente em casa, nos primeiros anos de vida, do que em uma igreja. A maioria das mães e pais estão ensinando conceitos teológicos sem saber, em todas as culturas. Se você fizer isso ganha o Ipad, caso contrário, ficará chupando os dedos. Se não lavar as mãos, não tem sobremesa. Lembre do que o pastor Ricardo disse domingo. Se você continuar escrevendo isso, a turma do Ed vai riscá-lo dos blogrolls.

Como alguém pode falar de amor com tanto ódio no coração? É raríssimo uma mãe dizer ao filho: eu te amo incondicionalmente.

O fazer sadio implica em liberdade. Faço porque gosto ou não ligo a mínima se ganharei alguma coisa. Recompensas, nesse caso, terão valor relativo. Claro, a relação com o trabalho entra na história e o faz de forma perturbadora. A maioria das pessoas trabalha por causa de suas falsas crenças e está insatisfeita. Poucos trabalham em liberdade e eu não conheço ninguém feliz por fazê-lo.

Um cara, meu conhecido em Sorocaba era dono de uma livraria evangélica na Rodoviária da cidade. A loja era mais um ponto de encontro de crentes desocupados e não um entreposto de livros inúteis ( a maioria dos livros que ele comercializava lá). Com o tempo, ele começou a consertar computadores e pegou gosto pela coisa. Só existe um negócio pior ao de vender livros evangélicos, é consertar computadores. Então ele fechou a livraria e arrumou um emprego: pintor de placas para fabricação das carcaças de transformadores, com salário de R$ 480, 00 por mês. Ele tirava R$ 600,00 com as horas extras. Provavelmente a despesa mensal dele era superior aos R$ 3.000,00, mesmo morando em casa (sítio) própria e ninguém mais da família trabalhava. Ele podia estar ganhando muito menos dinheiro, mas parecia estar mais em paz consigo mesmo, ou melhor, com suas crenças meritórias.

Passo dias tentando não cair na tentação de fazer algo correspondente aos mandados internos por satisfazer essa e aquela bobagem originada em um sistema de crenças equivocado. Mas sempre me pego em pecado.

Não me lembro qual foi a última vez quando fiz algo sem esperar qualquer trem em troca. Exijo isso de mim e de todos à minha volta. Vejo essa porcaria em todos os atos e atitudes e não sei como escapar desse capeta. Às vezes chego a odiar Jesus e todo aquele desapego. Miserável homem, sou.

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5 thoughts on “Miserável

  1. Somos miseráveis mesmo!!! Não conseguimos nem mesmo ser
    cristãos, pois ser cristão nos cobraria uma atitude igual
    à de Cristo:ser humilde, largar tudo o que temos para viver com os pobres e dividir os sofrimentos.

    Optamos pela miséria, não estamos preparados ainda para sermos critãos.

    Na verdade, tudo isso são exigências que o Senhor nunca exigiu. Nem mesmo nos pediu para sermos cristãos. As nossas opções são: fazer ou deixar Deus fazer e nisso reside todo o problema.

  2. És corajoso! Eu gosto disso! Consegues abrir o coracao e falar das verdades que lá estao.
    Parabéns, a maioria, muito menos isso sabe fazer!
    Apesar de nao vir aqui com frequencia, eu gosto de ti, Lou.
    Abracos e Deus te abencoe! (miseráveis homens que somos!)

    Quem se propõe ao ofício das letras vai precisar fazer esse exercício. Como diria meu antigo pastor, não escreva nunca, fale apenas. As palavras faladas são efêmeras e logo todos esquecem. O que se escreve fica como documento e serve de prova em tribunais. 🙂 Obrigado pela visita e comentários. Deus a abençoe igualmente.

  3. Todas as vezes, minha primeira ilusão é a de que tenho algo a oferecer. Eu me esqueço, estrategicamente, da evangelização de Lacan e Clarice: amar de verdade é oferecer o que me falta.

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