A Gruta do Lou

Minha Primeira Confissão

 

“Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criaste para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repoisa em Vós. ” (Confissões de Santo Agostinho Livro I – 1)

Embora minhas confissões devam seguir rumos outros aos de Agostinho, um de meus prediletos, desejei homenagear o mestre, antes de mais nada, com minha primeira confissão.

O curso desse mundo, minha definição de cosmovisão, (ayon to kosmos) incomoda, mas desperta algo positivo (ando de saco cheio com esse nome), em mim. Menino ainda, mudei para um bairro (Jardim Prudência) onde havia muito espaço, árvores, riachos e muitos terrenos vazios, mais do que casas; e pela primeira vez fui convidado a jogar futebol em um campo. Claro, era um campo com declive. Outros havia, côncavos, convexos, com aclive (no outro meio tempo) e meu desempenho foi, digamos, patético.

 Durante muito tempo, fui alvo das gozações e maldades da molecada da vizinhança. “Não, no meu time não, ele é grosso.”. Fiz meus pais me comprarem uma bola e passei a treinar no quintal de casa. Aos poucos, fui melhorando até conseguir desempenho razoável, livrando-me do rótulo de perna-de-pau, pelo menos.

No curso desse mundo, surgiram inúmeras situações onde fui excluído do time principal. Claro, como ser humano, fiquei magoado no primeiro momento, mas, dei a volta por cima depois, se o negócio fosse mesmo importante. Mas esse é um aprendizado longo. Especialmente se você não preenche o estereótipo esperado, como é meu caso. Baixo (1,78 hoje) cara de turco (sem sê-lo, uma das heranças paternas), cabelo ruim (quando tinha), olhos escuros (não sei bem de que cor), sem curso teológico (tratei disso), falando só uma língua (dei jeito nisso também) e rebelde fui preterido muitas e muitas vezes, algumas por quem mais eu gostava.

 Agora, velho, continuo batendo de frente com essa sensação ruim, onde quer que vá. O que incomoda é o sentimento de rejeição. Os outros que se danem. Esse sentimento está em mim e já estou começando a achar que vou levá-lo para tumba durante o sono eterno (se você acha que tem mais depois disso, cuidado).

Mas o temor maior é ser preterido pelo Pai. E as evidências estão todas a favor disso. Pior é que abracei uma teologia incapaz de mudar esse quadro. Minha psicologia é melhor que minha teologia. Sair e lutar. Fazer as pessoas mudarem de opinião a meu respeito, mesmo que seja na marra. Mas não acredito em mudar a opinião de Deus. Ele é turrão. Quando encasqueta com uma coisa… sai de baixo.

É, acho que nunca serei pastor da primeira igreja, diretor de uma escola em uma cidade de verdade, consultor em alguma organização decente, escritor da Kerigma, etc. Tirando a Dedé, que me escolheu dentre todos (ela não deve enxergar bem) é só pua. Pu…. iu! Não posso mudar isso. Nem você. Deus quer assim.

# posted by Lou @ 9:56 AM

Capricornio PB

5 thoughts on “Minha Primeira Confissão

  1. Quanto ao Pai, ele tem um lugar no coração para os preteridos e incorfomados, tendo ele mesmo um filho que se encaixa nesse perfil. E se lembro bem ele dá às intenções do coração mais atenção do que à teologia correta.

    Quando me encontrei como Dante nel mezzo del camin de nostra vita (depois dos 35) também me encontrei no meio de uma selva sombria. Um vale da morte, por assim dizer – mas por nada sou mais grato a Deus do que por essa (terrível? bendita?) mudança de giroscópio. “Eu me iludi crendo que estava viajando no espaço, que não tem fim, e a travessia daquele vale revelou-me a horrenda verdade de que viajo no tempo, no meu próprio tempo, que é ridiculamente curto.”

    Eu já quis salvar o mundo, hoje ficarei muito feliz se conseguir salvar a mim mesmo. Já quis ter vários livros publicados, hoje ignoro se quero ter um.

    Como diz uma frase de que gosto e das que mais me ajudou ao longo da vida: “Parece uma crise, mas é o fim de uma ilusão”.

    Hoje não tenho mais qualquer ilusão a meu respeito, e nada é mais próprio e mais são.
    # posted by Paulo Brabo : 2/19/2006 12:21 PM

  2. Obrigado Paulo. Estou me esforçando para não esquecer que sou humano e só. Às vezes, escorrego na fantasia a meu próprio respeito e dai trombo comigo mesmo. Mas sua preocupação e atenção faz bem.
    # posted by Luiz Henrique Mello : 2/19/2006 1:02 PM

  3. Romanos 5:1- Sendo pois justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio do nosse Senhor Jesus Cristo.
    Romanos 1:18-26- você pode ler não é?! É meio comprido…
    Romanos 8:35-39- Também é um pouquinho longo
    Bom o que interessa disso tudo é que por mais que pareçamos bonitinhos, Deus olha o coração, então acredito que é com esse que devíamos estar mais preocupados, se Ele vê TUDO, o que será que ele vê??
    E também, não há NADA que agente faça que faça Deus olhar pra gente e dizer: “Poxa, fulano é uma cara legal!”… Ele nos olha através da graça, e temos a certeza prévia de se confessarmos algo, somos justificados pela graça do Pai. (Amém)
    Essa paz que Rm 5:1 fala é uma paz que excede todo o entendimento, paz até com a nossa aparência, que realmente não é o que importa porque somos como flores do campo.
    Não há NADA, Deus vê TUDO…
    Gosto dessa antítese!
    (naõ acredito que sua esposa não enxergue bem, há coisas que importam mto mais)
    # posted by Camila : 2/19/2006 11:03 PM

  4. Sem dúvida, Camila. Obrigado pela presença e os bons comentários.
    # posted by Luiz Henrique Mello : 2/20/2006 9:23 AM

  5. “Deus nos ama, Ele nos deseja, mesmo não sendo como deveríamos ser.” Ufa! Esses dizeres viraram doce em nossa boca, mas é isso mesmo.

    Tomará que você esteja com a razão, se não, estou frito.

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