A Gruta do Lou

Minha existência anda nas linhas traçadas por Fernando Pessoa

 

 

“Escrevo triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a

substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de

milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança

sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo

mais porque vivo maior.”

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego 

 

Desejei, hoje, fazer justiça a um dos autores mais contundentes nessa minha trilha de Gruta

Português: 1929 - no Abel Pereira da Fonseca
Português: 1929 – no Abel Pereira da Fonseca (Photo credit: Wikipedia)

e solidão. Sim, porque mesmo cercado de gentes, vejo-me deitado em minha cama a espera do meu inevitável destino, manso e inexorável, aproximando-se de continuo.

Outro dia falei como se não ligasse a mínima a Pessoa, mas minhas palavras, em sentido jocoso, levaram alguns leitores em outras direções. Ainda menino, nos tempos do ginásio (uma maravilhosa etapa da vida subtraída pelos insensíveis doutores da educação das novas gerações), fui levado a navegar nas águas profundas desse autor maior das letras portuguesas. Suas palavras, quase sempre guardam os meus próprios sentimentos em relação à vida.

Português: Na Baixa. Lisboa
Português: Na Baixa. Lisboa (Photo credit: Wikipedia)

Pessoa é desses autores que só nascem uma vez. Deus o fez e jogou fora as matrizes que lhe deram origem. Seus ditos estão escritos para sempre com letras indeléveis, como fizeram Tolstoi, Dostoievski, Borges, Cervantes, Fromm e tantos outros, em minha alma, evidenciando as minhas miseráveis experiências de vida medíocre e necessária. Não seria exagero declarar que minha existência anda nas linhas traçadas por Fernando Pessoa.

Não sei se me entendem, mas Pessoa, Loutrec e Noel Rosa me parecem a mesma pessoa expressando em suas solidões, cada um em sua arte, o sumo da existência sem Deus, dos descendentes de Adão que provaram do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, proibida a nós pelo criador.

Estes todos, aos quais humildemente me junto, descobriram, sem hipocrisias, a realidade negada pelos cristãos. Estamos por nossa conta até o fim de nossos dias e só veremos a Deus por benevolência do próprio. Nosso orgulho e vaidade continuarão nos cegando por toda a nossa existência e, miseráveis, jamais cederemos aos apelos de Cristo para largar as redes e segui-lo, como fizeram Pedro e André, corajosamente. Ele foi a única boia salva-vidas que passou em nossa frente e nós voltamos nossos olhares na direção oposta, enquanto ela sumia no oceano.

Pessoa disse-o com todas as letras e palavras. Como não dar-lhe atenção? Como não respeitar sua pena e razão? Só se eu fosse não apenas louco, mas um débil que perdera a noção.

7 thoughts on “Minha existência anda nas linhas traçadas por Fernando Pessoa

  1. Então vamos a mais um Pessoa:

    “Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
    Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
    Por isso se nos não mostrou…

    Sejamos simples e calmos,
    Como os regatos e as árvores,
    E Deus amar-nos-á fazendo de nós
    Belos como as árvores e os regatos,
    E dar-nos-á verdor na sua primavera,
    E um rio aonde ir ter quando acabemos!…”

  2. Lou, nao conheco o livro, mas pelas palavras descrita por você deve ser muito bom.

    Às vezes me sinto só tb mesmo envolta de tantas pessoas e coisas para fazer. Será a idade?

    Grande abraco

  3. Georgia

    Com o passar dos anos, tornamo-nos mais conscientes e capazes de identificar melhor a nós mesmos. Isso é bom. Possibilita mudanças, decisões e atitude. Mal seria acomodar-se e aceitar a condenação sem luta. Aquela coisa dos covardes.

  4. Geórgia, você pode baixar o Livro do Desassossego de um sitio chamado Domínio Público. Esse livro é a bíblia dos pessimistas, porém muito agradável de se ler.

  5. É interessante que às vezes nos vemos às voltas com seres como Fernando
    Pessoa e tantos outros que você citou, todos maravilhosos.Fernando,especialmente,esse homem desassossegado e melancólico,que fez de sua melancolia,poesia, que nos toca no fundo da alma, que fala de si a nós mesmos.Sua tristeza nos alcança,pois quantas e quantas vezes nos encontramos na mais profunda tristeza também.Quanto a Jesus,somos mesmo trapo de imundícia,”nunca seremos o que deveríamos ser”.

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