A Gruta do Lou

Milagres, autoridade e mistério

Tenho brincado com a “ausência de Deus”, insistentemente. Gosto de verificar as reações causadas nos leitores. Pena que poucos se manifestem. Alguns vivem a me consolar e em tentativas carinhosas de me convencer do contrário. Interessante notar como a expectativa da maioria está colocada na certeza de um Deus que, a qualquer momento, vai desancar em milagres e manifestações da sua presença e glória.

Quando trouxeram um homem paralítico, em uma maca, para Jesus curar, ele fez algo assombroso: perdoou-lhe os pecados. Essa atitude causou uma enorme frustração nos presentes, de tal maneira que o Mestre precisou curar o homem para restaurar a crença geral e o fez acompanhado de uma exortação geral: Vocês crêem que posso curá-lo e não em perdoar os seus pecados.

Na verdade, ainda hoje, perdão dos pecados não tem lá grande valor. Como diria o Finado Tio Cássio (cuja igreja foi totalmente consumida por um incêndio na tarde de ontem) se essa fosse a nossa pregação, não ficaria ninguém na igreja. Essa observação me leva a desconfiar das práticas das igrejas de nossos dias. Não apenas as igrejas, os partidos políticos e outras esferas, no intuito de angariar seguidores, usam dos mesmos expedientes. Nas palavras de Philip Yancey, (O Jesus que nunca conheci), que ele foi buscar nos Irmãos Karamazov de Dostoivsky: milagres, mistério e autoridade. As ofertas feitas a Jesus pelo demônio, por ocasião da tentação no deserto.

Meu filho não foi milagrosamente curado. Nossa situação financeira continua ladeira abaixo, com todas as conseqüências de direito. Humilhações, desprezos, rejeições e tantas outras formas de sofrimento e dor. Entretanto, ninguém lembrou da presença de Deus através do perdão dos nossos pecados. Ele perdoou um canalha como eu e até a Dedé tem o perdão divino, apesar de fumante. Nossas dores resultam de nossas incompetências, na maioria das vezes. Ninguém pode viver inocentemente nesse mundo sem sofrer graves conseqüências. A curta vida de um salvador crédulo e benevolente nos ensina isso.

Ele não nos deu milagres, nem autoridade e quase nada de mistério ou assombros (como diria o Paulo Brabo inspirado pelo Manning). Por quase trinta anos, segui-lo tem sido um grande tormento. Mas como diria Pedro (o apóstolo): para onde iremos nós se só tu tens as palavras da verdade? Estou preso a ele pelo amor incondicional. Sei que sou humano e tenho um limite para suportar sofrimentos, como todos os outros. Só não quero seguir a Deus, no exemplo de Cristo, devido a algum milagre ou alguma benesse dele. Ele tem nosso amor e devoção até o fim, com o sem dádivas. O perdão de nossos pecados nos basta. Qualquer outra ação divina seria lucro.

O mais importante é: ao negar-se a aceitar as ofertas do decaído, por ocasião do advento no deserto, Jesus de Nazaré escolheu conquistar sem manipulações, paternalismos ou pressões. Quem quer me seguir tome a sua crua e siga a minha. Seu “segue-me” é desprovido de promessas, contratos ou carteira assinada. Quando tentaram colocá-lo contra a parede questionando-o sobre seguro (enterrar os mortos), a questão da moradia e da manutenção da família, ele foi taxativo: deixe os mortos enterrarem os mortos e mais, todos tem sua casa própria, mas eu não tenho onde reclinar minha cabeça. Em outras palavras não há uma relação de troca entre Deus e os homens. Jesus entrega-se pela salvação e só. É um ato de amor e desapego, todo inclusivo. Ele não nos deve nada e nós não devemos nada a Ele, por causa dele mesmo. Fim da reunião. Está consumado e não tem volta.

Foi a igreja, olhando para seu próprio umbigo, que resolveu rever a coisa toda. Espera ai, sem milagres, mistério e autoridade não dá. Nem ao evangelista itinerante da Galiléia eles seguiram, quem dera a nós. Vai uma cura ai? Toma lá um monte de mistérios. Respeite nossa autoridade, se não vai para a fogueira.

Essa é a minha pregação. Se neste domingo eu fosse chamado a pregar, essa teria sido a minha mensagem. Agora vocês já sabem porque ninguém me convida para a prédica dominical.

lousign

1 thought on “Milagres, autoridade e mistério

  1. Tocou meu coração. Chorei. Conhece aquela música, “quero essa mulher assim mesmo”? Pois é, eu quero Jesus assim mesmo, todo incompatível com a próspera teologia contemporânea. Apenas (apenas?) pela salvação que em troca de nada Ele me deu. Obrigada.

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