A Gruta do Lou

Fantasma da Ópera, tosca.

Meu último apelo em Captação de Recursos (Primeiro Título, que não colou)

Estranho, muito estranho. Mas não estou com vontade de atirar meu orgulho na lata do lixo. Sei que qualquer pai, em meu lugar, o faria sem um segundo de hesitação, entretanto não sei se quero pagar esse preço, nem mesmo em uma situação em que isso possa estar colocando a vida de meu filho sob risco, sem falar no resto da família, a espera de alguma atitude minha.

Na verdade, já desci a ladeira da cara de pau muito além do aceitável. Há uns quinze dias, venho solicitando esmolas direta e indiretamente e, apesar de ter passado por cima do único sentimento nobre que ainda guardava, não alcancei resposta alguma. De que valeu perder a honra para nada? Sem falar em todo esse tempo que venho dependendo da campanha da fraternidade, evangélica ou católica.

Ontem, antes de dormir, pensei que se até a hora do almoço de hoje não obtivesse a certeza de poder levar meu filho ao INCOR amanhã, e pagar algumas das imprescindíveis obrigações de um chefe de família classe D, enviaria E-mails diretos para parentes e amigos solicitando a esmola necessária, tipo apelo final e fatal. Mas, hoje, diante do computador, utilizando sinal de Banda Larga emprestado, capitulei. Chega!

Não quero mais esmolar, não quero mais viver pela fé. Na verdade, não quero mais viver se não puder fazê-lo com dignidade.

Basta de indiretas insinuando que sou um vagabundo ou das diretas já me mandando abrir um comércio ou trabalhar de garçom, com todo respeito aos profissionais da área, Sem falar no irmão que queria me comprar uma caixa de doces para eu iniciar, segundo ele, um rentável negócio nesse ramo, como ele viu acontecer com um cara que deu testemunho no programa da Universal. A esses respondo com o que me resta de alguma auto imagem, cujo relatório me lembra das centenas de madrugadas que saltei da cama para ocupar meu posto em uma longiqua creche da prefeitura de São Paulo, das vezes que coloquei minha vida em risco por esse Brasil a fora, na África e atrás da Cortina de Ferro, pelo ideal missionário de propagar o amor de Cristo, das milhares de aulas dadas em escolas públicas e privadas, das aulas de teologia em vários seminários a troco de migalhas que mal abasteciam o combustível necessário para fazê-lo, geralmente no período noturno; das minhas empresas onde eu dava nó em pingo d’água para pagar o salário dos meus funcionários, mesmo a custo de escassez na minha casa; de rastejar pelo teto e chão de empresas e igrejas passando cabos de rede, inclusive em Portugal; das centenas de microcomputadores montados ou consertados, mesmo diante da insatisfação de alguns, sobretudo na hora de receber pelos serviços; e, certamente, uma montanha de outras situações de trabalhos realizados e micos pagos na luta pelo nosso sustento. Minha ficha de trabalho, desmente essa gente sem alma e coração.

Verdade é que, nos últimos anos, fui sendo afastado e me afastando do mercado de trabalho, pela idade e pela intransigência mútua, talvez. De repente não podia mais voltar às aulas de Educação Física, pois meu corpo não me ajudaria mais nesse caso; na informática estou completamente aniquilado pelos mais jovens oferecendo mais competência por preços muito melhores e no meio religioso, onde possuo competências gerenciais e ministeriais, me tornei (e contribui muito para isso) uma espécie de fantasma da ópera, tosca no caso.

Aqui estou, diante de uma taça enorme de contas a pagar e uma família para sustentar, sobretudo, com um filho portador de uma cretina cardiopatia congênita para cuidar, começando por esse compromisso no INCOR conseguido por um irmão que ocupa lugar no auto escalão daquele hospital, como a única alternativa dele, e não faço a menor idéia de como fazê-lo. Minha única certeza é que não quero mais ser ajudado, por quem quer que seja. O preço dessa opção é muito alto e insuportável, para mim. Sinto que desde que comecei a receber esmolas, as possibilidades e oportunidades foram se afastando de mim até sumirem completamente. No lugar delas, só reprovação e o inexorável julgamento final de todos os meus ajudadores: Deixe ele se virar, para aprender, bem ao estilo Bom Samaritano. Injusto, pois meus julgamentos relativos a pessoas nessas situações foram bem ao contrário, sempre.

Estão todos mais do que certos e eu não quero mais isso para mim e muito menos para minha família, vexada com meus insistentes pedidos de ajuda. Imagine minha inocência, imaginava que, como missionário de Deus, cidadão brasileiro ou pai sem sorte, tinha esse direito.

Para encerrar, Deus me cansou com sua complacência e ausência insuportável. Não faz sentido propagar alguém ou um Deus que parece preferir as pessoas com as quais não tenho nenhuma afinidade. Não sou e nunca foi alguém com qualquer semelhança com os santos. Sinto imensamente não poder andar por aí alardeando o amor de Deus, o sacrifício vicário de Jesus e tudo mais, mas eles não são mais reais na minha vida. Preferiram me abandonar, como o Pai fez com o filho naquele calvário horroroso. Era de se esperar que alguém tão mais sem importância não merecesse sorte melhor. Quem quiser seguir no barco, faça bom proveito, estou mergulhando no mar da minha sina, com a culpa e a angústia da incerteza e sofreguidão.

Se Deus existe, então ele sabe que poucos há com o meu desejo de que os evangelhos e o resto fossem verdades. Até funcionou, em alguns momentos, mas a multidão dos tempos em que nada deu certo falou e fala mais alto, atualmente. Rigorosamente, não há Cristo nem cristãos, só hipocrisias, a começar por mim.

Agradeço a todos, aos quais essas palavras não fazem justiça e lhes peço perdão. Aos outros, peço encarecidamente que não vistam a carapuça , pois não quero mais essas culpas em meu prontuário. Certamente o inferno já ganhou a minha alma. Não será necessário mais nenhum empurrão.

5 thoughts on “Fantasma da Ópera, tosca.

  1. Lou, não fale isso. Não deixe teus sentimentos te controlar. Eu não posso dizer que compreendo, porque o teu desespero é incompreendível para alguém com 20 anos como eu. Mas lembre-se do teu primeiro amor… Deus quer muito mais de você, Ele quer vê-lo andando pela fé mesmo que você não possa ver o caminho.
    Minhas orações estão contigo.
    Deus te abençoe!
    Deus te abençõe amigo!

    Oh, Lucas, obrigado por suas orações e preocupação. Também pela mensagem profética. Essa minha sensação de abandono é só a minha percepção, e provavelmente de muitos dos nossos amigos leitores, ou seja, é olhar do nosso ponto de vista. Certamente, Deus é alguém muito diferente do que possamos imaginá-lo, em forma e manifestações. Em outras palavras, ele não é e não age como esperamos. Geralmente, as manifestações dele, são surpreendentes, como Jesus demonstrou algumas vezes, enquanto esteve pisando esse nosso judiado planeta. Isso tudo, não tira as nossas impressões, fraquezas e sentimentos diante dele. Somos humanos e eu sou do tipo picareta, covardão, fraco, etc, muito diferente de muitos irmãos conhecidos, que são fortes e cheios do poder. Deus te abençoe do jeitão dele, abundantemente, por seu carinho e sensibilidade. Fique em paz, ficarei bem.
    Lou

  2. Não fale em inferno… o Brabo acabou de postar que nem céu nem inferno eram foco da atenção da primeira comunidade.
    Amanhã te darei um abraço via bancária. Boa ideia?

    Estou com o Brabo e o inferno a que me refiro já o vivo por aqui. Se houver outro pior, sem dúvida, deverá ser inimaginável. Quanto ao abraço, nós o consideramos suficientemente amigo e irmão nas lutas para confiar em seu discernimento e em sua sensibilidade, já fartamente evidenciados em muitas situações. Muito obrigado e Muita paz para você e seu pessoal.

  3. Amigo, Lou,

    não sei quando devo distinguir o Lou personagem da Gruta, do autor. Este Post pareceu-me verdadeiro demais para deixar dúvidas.

    Sinto culpa de ainda não ter-lhe enviado a carta que prometi no Natal passado, imagine então como me sinto por ainda não ter podido fazer algo.

    O pior ainda é que te entendo em boa parte, pela minha própria jornada passada (graças a Deus) de luta contra o desemprego – toda palavra e ajuda de fora é quase sempre uma ameaça.

    No momento só posso, infelizmente (pois quereria fazer algo mais), dizer que estou contigo. Ligado em vocês.

    Abraços fraternos.

    Difícil distinguir um do outro, sempre serão os dois, apenas as quantidades de cada um variam em cada caso. Nesse caso, o autor está mais presente, entretanto, só pode aparecer como um personagem. Ele é o autor, e também é a representação da realidade de muitos que se identificam no personagem.
    De qualquer forma, sua identificação é bonita e isso não tem preço. Obrigado pela solidariedade.

    Beijo na careca

    Lou

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