Meu sermão sobre a Parábola do Filho Pródigo

Tempos atrás, estava em uma Igreja aqui perto, e o pregador anunciou o título de seu sermão: “A Parábola do Filho Pródigo”. A seguir, informou que essa era a passagem bíblica mais pregada em toda a história da pregação, sem comparação a qualquer outra porção bíblica. Foi nesse exato momento que o velhinho, sogro do pastor, perdeu minha atenção.

Lembrei do Sermão de Agostinho sobre a mesma passagem e, segundo consta, o fato dele o ter pregado diversas vezes, sabem-se lá quantas. Fiquei a imaginar quem teria feito o registro dessas pregações. Depois dele, ou antes, quem mais teria pregado sobre essa parábola exótica? E quanto às outras, parábolas ou não? Quem teria registrado? Se fosse hoje, vá lá, com a ajuda dos computadores, satélites, internet… se bem que, seria necessário a cada pregador informar o CMCP (centro mundial de controle de pregações), sob controle norte americano, óbvio. No caso do pregador em epígrafe, não seria possível, pois além de arauto que só prega na igreja do genro, por questões políticas, ou seja, sempre há o risco da esposa do pastor dizer na hora H: “Neca de pitibiriba, enquanto meu pai não pregar”; plantador de feijão na região de Capão Bonito e avesso às coisas computadorizadas ou digitalizadas, tal informe jamais se daria. Portanto, se houver nesse mundão de Deus outros pregadores de Parábolas alheias e, mais especificamente, a do Filho Pródigo, ou de outras passagens, chulos ou chucros como o sogro do meu amigo, e os há em profusão, o computo do velhinho já teria ido para o espaço.

Assim, resolvi empreender meu próprio esboço de um sermão sobre a Parábola do Filho Pródigo e, como dificilmente serei convidado por qualquer igreja minimamente digna do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo para pregá-lo, resolvi postá-lo aqui. Quem sabe, sem querer querendo, meus colegas de púlpito não o copiam para pregá-lo como se deles fora.

Acompanhe esta leitura com seu exemplar da Bíblia NVI (Nova Versão Internacional) em Lucas: 15. 11 a 31

“Os estados de ego dos cidadãos do Reino e sua contribuição para o bem estar geral”, seria a minha proposição.

Esboço
1. Estado de Ego Filho Pródigo
a.Criança Rebelde
b.Criança Livre
2. Estado de Ego Pai – Adulto

3.Estado de Ego Irmão do Filho Pródigo

1. Criança Adaptada
2. Criança Rebelde

Agostinho pensou serem os filhos a representação de Judeus e Ímpios. Ledo engano. Na melhor das hipóteses, seriam todos judeus, mas não creio que Jesus fizesse apologia favorável a membros de outra religião quando estava prestes a fundar a sua própria. Sempre que fez menção aos freqüentadores da religião judaica, o fez de forma nada amigável.

O mais novo, o famoso filho pródigo doravante FP, resolveu descobrir o que é que a baiana tem sob aqueles vestidos imensos e todas aquelas anáguas e pediu ao pai sua parte da herança, no que foi prontamente atendido. Note aí, não ter havido qualquer reticência por parte do pai. Não apenas isso, mas repartiu a herança, ou seja, deu a metade de tudo ao FP e a outra metade ao irmão dele. Cada um pegou sua parte e tratou de depositar em contas próprias e, a partir daí, passou a usar como bem desejou.

O FP, pouco tempo depois, juntou sua mochila e partiu para Salvador, na Bahia, uma semana antes do Carnaval. Passou lá o Carnaval, vivendo como Sultão, gastando de modo a fazer inveja aos melhores filhos de pastores rebeldes da paróquia, sem nenhuma vergonha, com os Trios elétricos, abadas, baianas, bebidas, comidas, drogas, Viagra, etc., pulando até cair.  Só parou quando o Carnaval terminou lá no Farol da Barra.

Como sempre acontece em terras baianas, assim que o Carnaval acaba, volta o estado geral da terra, ou seja, fome, miséria e dureza em geral, menos para os descendentes do Antonio Carlos Magalhães, vulgo Toninho malvadeza. FP sem lenço e sem documento, com a conta zerada, nada nos bolsos ou nas mãos e com uma fome de dar inveja em mim, nas minhas noites de ansiedade pré segundas feiras, foi pedir emprego a um dos parentes ricos do Toninho malvadeza, que o mandou cuidar de sua criação de porcos à moda Magalhães, ou seja, o velho método do chiqueiro. A cada três bacias de vagem aos porcos, ele tratava de comer uma, contra a vontade dos seus patrões.

Nessa situação de constranger até o mais influente mendigo, entrou em crise (transtorno bipolar) e lembrou de papai e seus empregados, todos com comida de sobra em suas aljavas, enquanto estava ali, como diria meu vizinho de Botucatu, no bico do corvo. Pensou, então como adulto: Me porei a caminho e voltarei para meu pai e lhe direi: “Pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.” Levantou e iniciou sua volta triunfal. Os cidadãos do Reino que caíram na farra nunca negarão sua origem e, na hora da onça beber água, voltarão à fonte de suas águas.

Seu pai o viu assim que surgiu no horizonte de sua imensa fazenda de gado. Cheio de compaixão, um sentimento muito perigoso, segundo Aristóteles e Nietzsche, correu para o filho, o abraçou e beijou. FP bem que tentou declamar aquelas palavras ridículas, ensaiadas durante todo o caminho de volta, mas o velho (penso que deveria ter idade na casa dos cinqüenta e oito anos), não deu a mínima para suas palavras vãs. Virou para seus servos e mandou trazer-lhe roupas das melhores grifes e, após um bom banho, FP as vestiu. Ordenou ainda o velho para lhe colocarem um anel de manda chuva no seu dedo e sapatos de cromo alemão em seus pés. Deu ordens para organizarem uma grande e imediata festa, também, com garrote assado à moda gaúcha, dança farroupilha e belas gaúchas, claro, dizendo: “Pensei que meu FP estava morto e ele voltou à vida, estava perdido e foi achado”. Começou a Festa do Regresso comemorada, até hoje, num tal sábado de aleluia. As pessoas do Reino, porretas mesmo, são assim perdoadoras, indulgentes e longânimes.

Quando a música e a dança rolavam, e o insuportável cheiro de garrote assado, ao ponto, sobrevoava o lugar, chegou o irmão de FP, depois de pesado dia de trabalho. Chamou um dos empregados e perguntou o que era aquilo tudo. O criado explicou. Então o cara ficou na maior bronca. Foi daí que a mulher do Manning criou a Síndrome do Irmão do Filho Pródigo ou psicopata, como querem os psicólogos. O pai veio e insistiu para ele entrar e festejar com todos, mas ele, babando, começou a resmungar quão bom, servil e obediente era. No entanto, papai nunca lhe assara nem mesmo um gatinho, quanto mais um bezerro tenro e apetitoso como aquele. Gente do reino com essa atitude toda inclusiva é muito perigosa. Abra o olho.

Conclusão:

O pai sempre celebrará a volta do FP. Não se engane. Ele não irá surrá-lo ou colocá-lo a ferros comendo o pão amassado pelo capeta. Burros somos nós com nossa mania de andar segundo os mandamentos e essas bobagens. Olha em volta e veja quem está com o anel no dedo e as roupas de grife no corpinho, sem falar nos sapatinhos vermelhos, lógico.