A Gruta do Lou

Mestre da Vida

Presépio

Presépio

Tenho lido muitos textos a respeito do natal, tendo em perspectiva o aspecto religioso da data. Minha sensação é de que a maioria, especialmente dos cristãos militantes, procura condenar as faces consumistas e mundanas do evento sem assumir posições extremas como o banimento da festa. Mais ou menos, fica assim: Olha cuidado com isso e com aquilo e depois tudo bem, vamos lá Feliz Natal para todos nós.

Em termos de manter o bom contato e algum relacionamento familiar, mandei Feliz Natal para as pessoas e participei de um jantar mais caprichado, ao qual demos o nome de ceia de natal. Legal, não me senti um traidor sênior da causa cristã ou um praticante de algum pecado mortal pelo qual me arrependeria depois. Não vejo diferença entre essa comemoração e um cineminha, acompanhado de um jantarzinho, regado a um bom vinho. Jesus, em nossos dias, escandalizaria a todos indo ao cinema e participando de jantares com gente com eu e com bastante vinho.

Interessante notar o aspecto religioso embutido nessa celebração. Comemora-se o nascimento de Jesus. Para dizer a verdade, tomei contato com esse ensinamento em minha casa e, por mais incrível que pareça, meu pai foi o maior responsável pelo feito. Ele fazia questão de construir presépios com o maior capricho. Ficava tão bom que eu gastava horas fantasiando junto deles, como se fosse um dos personagens daquela gruta mágica. Meu pai, um baita pavio curto, me explicou pacientemente a história toda do nascimento do menino Jesus. Ele não tinha qualquer dúvida que o lugar era mesmo uma gruta (morou?). Então colocava o menino Jesus na manjedoura com palha, Maria e José, com animais e convidados. Acrescentava lago, areia e a estrela que guiou os magos. Tudo ali me encantava. Meu pai não me contou a parte ruim da história, ou seja, como terminou a vida daquele lindo ser nascido naquela humilde e tão rica situação. Para o natal era o que bastava.

A igreja católica mantinha em São Paulo, na região da Praça da Sé, onde está a igreja católica matriz da cidade, um intenso comércio de imagens e apetrechos religiosos. Na frente do negócio havia um testa de ferro cujo nome era Aldo Bovi. Durante vários anos, esse senhor contratou meu pai para construir um presépio no meio da Praça da Sé. Era de tamanho gigante, mas constituía-se na materialização daquela maquete cuidadosamente preparada em minha casa, todos os anos. Meu pai deve ter sido um dos maiores especialistas em termos do nascimento de Jesus. Ele era detalhista e fazia questão de fazer tudo conforme estava relatado nos evangelhos. Eu fui testemunha de várias brigas dele contra intrusos que queriam acrescentar coisas não pertinentes a um presépio bíblico. O próprio Aldo levava coisas (imagens) que meu pai tratava dar-lhes outro destino. Certa manhã, ao chegar à praça, meu pai percebeu (e não havia como) que alguém havia substituído a imagem da Maria por uma de Nossa Senhora Aparecida. Em menos de dois minutos a imagem de Maria voltou ao lugar e a outra desapareceu. Meu pai construía e guardava o presépio enquanto ele durasse.

Interessante como os enredos de nossas vidas nos são apresentados. A vida toda testemunhei as pessoas tentando converter meu pai a Jesus. Falavam-lhe muito da morte vicária e terrível de nosso Senhor. Ele devia achar tudo muito chocante. Em seu coração só  havia lugar para o nascimento glorioso de Jesus. Ninguém conseguiu convence-lo da morte do Filho de Deus. Ele nunca falou sobre isso comigo.

Foi nesse clima e exemplo que fui criado. Sei que os evangelhos falam muito mais da paixão e morte de Cristo. Sabemos pouco do nascimento, além da história do senso, de Belém, a gruta e os magos com sua estrela. A religião cristã está muito mais embasada na cruz, no sofrimento e na redenção. Somos muito mais o povo da morte do que o povo da vida. Transformamos a maior miséria acontecida sobre esse planeta no grande evento da humanidade. Mesmo que o próprio Jesus, Mestre da Vida, o tenha descrito profeticamente como uma atrocidade dos homens, nós resolvemos adorar sua morte. Nossa desculpa é a ressurreição.  Causa-nos prazer o fato de sabermos que o Salvador natalino sofreu as piores agruras impingidas a um ser em nosso favor. Ele nos livrou dessa, dizemos.

Não consigo conviver com isso. Lembro-me da vez que deixei um amigo cardiopata apanhar sozinho de um menino muito maior. Fiquei ali olhando com cara de Judas enquanto o cara era esbofeteado.

Estou sofrendo, no momento. O natal acabou. Durou um dia, apenas. A menor parte do evangelho. O fato das pessoas me abandonarem não tem muita importância. Duro é entender porque Deus me desampara. Não estou em minha cruz como Jesus, no máximo, estou ali como um dos ladrões repetindo aquelas palavras: Estou aqui e fiz por merecê-lo. Enquanto ele nada fez, senão amar e cuidar das pessoas, especialmente das mais necessitadas, dos doentes em suas próprias palavras.

Meu pai, a quem desprezei nessa vida, morreu muito mais feliz que eu. Levou com ele a imagem de Jesus na manjedoura.   Eu levarei a imagem do Cristo crucificado e a esperança de vê-lo ressuscitado. Teria sido muito melhor se não o tivéssemos matado. Se fizeram isso com ele, quanto mais a mim, esse inseto cósmico e insignificante.

Disse-lhe então o anjo: Maria, não temas, achaste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um filho e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó e o seu reinado não terá fim. Lucas 1:30 – 33

O anjo equivocou-se. O rei que nos governa é um ensanguentado salvador em quem teimamos crer e depositar nossa fé sem qualquer reciprocidade.  Nos locupletamos nas mentiras que  nos contam sobre um salvador vencedor, montado no cavalo branco e que sempre chega na hora H para nos livrar. É o Gandalf de Tolkien. Só que nós não somos os Hobbit guardiões do anel. Somos os descendentes dos assassinos do Senhor.

Estamos fritos, por nossa conta e com os dias contados.  Sim, Jesus nasceu e seu nascimento foi único. Não me falem mais nada sobre ele, por favor.

2 thoughts on “Mestre da Vida

  1. Legal!! Nunca havia pensado dessa maneira. Os protestantes, falam do Jesus morto e ressurreto.Condenam os católicos romanos por falarem muito do nascimento, porém o nascimento mostra o Jesus da vida, aqui e agora que viveu intensamente entre nós.

    Não paro de escrever aqui na gruta.A culpa é sua.

    Tá liberado. Pode escrever a vontade. Se perceber que tem muito a dizer, comece logo o seu blog.

  2. O problema é esse.As vezes tenho muito a dizer,mas não passam bobagens.Vou ficar por aqui mesmo.

    Mas só escrevo bobagens… que aos olhos dos outros tornam-se relevantes.

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