A Gruta do Lou

Melancolia Pastoral

Nós temos todo o imbróglio envolvendo Deus, a Igreja e a bíblia para resolver, aliás, não somos a primeira geração perdida nesses temas e, pelo menos, vinte séculos nos precedem. Até agora nada; Deus não é como imaginamos, a igreja patina em suas próprias mazelas e a bíblia ganha contornos cada vez mais distantes de seus propósitos originais, a cada dia.

Particularmente, não vejo mais como contribuir com nenhum dos três. Por mais que viva, resta-me pouco tempo, quando muito para dar uma ajeitada nas coisas domésticas e partir deixando o pessoal com o mínimo possível de lembranças desagradáveis. Se fosse hoje, deixaria a turma em uma tremenda sinuca de bico e com motivos suficientes para execrar a minha existência.

Jesus Cristo foi contundente em nos aconselhar a esquecer o passado, nascer de novo e começar como se fosse uma criança outra vez. Nossa vida é o que estamos fazendo agora e o futuro é incerto. Podemos planejar e tentar seguir nosso plano, desejando com todas nossas forças que acontecimentos fortuitos não estraguem tudo. Sinto tristeza ao pensar em como desperdicei meus dias, embora não totalmente, afinal sobrou o bem maior, a família que consegui construir, sem bens e um amontoado de coisas perecíveis e de utilidade discutível.

Sinto por Jesus ter se equivocado com essa história de nascer de novo. Para mim, temo ser tarde demais, se o fizesse, mal chegaria à adolescência. Pouca coisa seria pior do que me infantilizar a essa altura do campeonato. Seria ridículo sair por aí vendendo bíblias da prosperidade, escrever livros com propósitos ou sem eles, ou abrir uma igreja com cara de qualquer coisa, menos de igreja. Morro de rir só em pensar-me em um púlpito de acrílico com as calças rasgadas nas pernas, pregando igreja emergente e sem abrir mão da minha ortodoxia nada generosa.

Nos últimos anos, viver um pouco só foi possível graças à generosidade de algumas (duas ou três) pessoas, talvez movidas pelo Espírito Santo, compartilhando migalhas de suas riquezas conosco. Depois de um tempo, as oportunidades começaram a passar longe de casa e não fui sábio o suficiente para me manter em alguma boquinha, como fez um amigo meu que passou a maior parte da vida com a bunda na cadeira de secretário executivo da Portas Abertas ou todos os outros sábios que trataram de se instalar em algum serviço público, mesmo que tenha sido no de ensinar. Embora a Portas Abertas não seja o ministério dos sonhos de um cara pouco inclinado aos prazeres do capitalismo, como eu, na verdade seria algo perto de uma abominação para mim, agora, pelo menos me permitiria diminuir as vergonhas que tenho passado por não poder dar à minha família algo melhor do que sofrimento em cima de sofrimento, mesmo que o John Piper jure que isso seja vida cristã. Afinal, qual é o emprego que não se pareça como algo assim?

Preferiria não ser cristão a ver minha esposa e meus filhos tristes e desanimados, como os vejo a cada manhã. O fato é que as tais pessoas generosas resolveram (ou cansaram) de minha penúria crônica e se foram ou estão a ponto de ir, pelo menos desistiram do tal compartilhar conosco. Se era ruim com eles, agora ficou ainda pior. Claro, se Deus ou gênio da lâmpada pintassem no pedaço, escolheria ter um negócio próprio, mesmo que fosse vender DVDs em uma banca na 25 de março, desde que pagasse minhas contas e sobrasse algum para o vinho nosso de cada dia.

Engraçado é não ter perspectivas e muito menos esperança, apesar do pessoal viver dizendo que não podemos perdê-la. Não espero muita coisa mais da vida, de Deus ou da Igreja. Bom, dessa dama, não espero nada, com certeza. Alguns ainda pensam em edificar a igreja certa, mas eu não. Certamente não seria capaz. Divirto-me ensinando alguns caras pastores a tocar suas igrejas, o que e como pregar, como aconselhar, o que ler e como administrar. Paradoxal, eu sei, mas ninguém poderá me acusar de ter mentido quanto a esse ponto, sou mesmo um grande paradoxo. Sobre o que não entendo faço ousadas asseverações e, pior, consigo ser crível.

Mas essas atividades não dão dinheiro e esse é o ponto crítico. Nunca fui capaz de transformar qualquer coisa em grana. O alquimista passou longe de mim. Não gosto de cobrar. Sou um bom vendedor, até, entretanto, na hora de dar o preço, sou uma piada pronta. Se bobear, pago para não cobrar. Inconscientemente, opto por ficar devendo a ter que empobrecer alguém, mesmo às vítimas ricas. Deve ser algum defeito de fábrica. Meu pai era um pouco assim, também. A vantagem dele eram seus dotes e talentos, coisas que não cheguei a herdar. Dizem que nossa maior herança genética vem da mãe. No meu caso, o amor ao dinheiro da minha não estava na carga genética que ela me legou. Enfim, recebi o pior da cada um deles, nem mesmo a capacidade de mentir nas horas mais difíceis.

Não faço segredo para ninguém de que sou leitor constante de livros de Auto-Ajuda. Invejo os caras que se dão ao luxo de menosprezá-los. Para mim eles são imprescindíveis, como insulina para diabéticos. Preciso lê-los para tapear minha tendência pessimista, principalmente em dias como hoje, uma segunda-feira maldita com um monte de contas para pagar, nada na conta bancária e muito menos para receber por qualquer serviço prestado. Sem falar em despesas muito mais importantes do que os meros consumos de insumos domésticos. Bobagens relacionadas à saúde dos entes queridos, apenas.

Não sei o que farei, mas no passado que Jesus me aconselha a esquecer, há centenas de histórias narrando socorros milagrosos vindos do nada, em situações como a atual. Claro, temo cada vez mais a chegada do dia em que isso não acontecerá, mas prefiro manter-me na opção de não crer nessa possibilidade. Tudo isso me faz duvidar do tal amor de Deus e o da Igreja, ainda mais claudicante. Não existe vida em comunhão, apenas alguns espasmos. Talvez Barth estivesse certo e já estejamos no inferno, embora acreditando que Jesus ainda virá nos resgatar.  Não poderia haver inferno pior que esse, afinal, no inferno não deve haver uma igreja operante e muito menos Deus. Bíblia, talvez, algumas da prosperidade ou da mulher e muitos livros escritos por cristãos burgueses que se imaginam profetas proletários, embora não abram mão de suas Harleys e das camisas La Coste nas gavetas de seus armários.

Desculpa aí meu, quem sabe amanhã seja um novo dia, da mais louca alegria, como diria ou cantaria um cara que estudou comigo no ginásio vocacional.

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