Mas eu vos digo:
Mas eu vos digo
Mas eu vos digo


Em dias de encarnação, dos quais não ficaram grandes saudades, Jesus enfrentou diversas falácias, entre elas, as tais “leis”. Havia a lei judaica, mais conhecida entre nós por “Os dez Mandamentos” (graças a Cecil B. DeMille, se não me engano) e entre os israelitas por “Torá” para começar, sob a qual ele próprio foi educado. A Torá não é o texto dos tais dez mandamentos, mas o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia, que incluem as leis cunhadas por Mosa lá no morro. Embora não haja referências bíblicas de que os pais biológicos de Jesus da Galileia fossem cumpridores ardorosos dessas leis, ao contrário, eles parecem as ter desobedecido bastante, segundo o texto que lhes coube no roteiro bíblico. Começando pelos ditames judaicos quanto ao casamento, passando pelo descumprimento da MP (medida provisória, um eufemismo de decreto, muito utilizado por ditadores tiranos) de entregar todos os recém nascidos com menos de dois anos para a degola, coisa que incluía o filho único de José e Maria. Depois havia a lei Romana que se propunha a regular as ações do povo, primeiro dos romanos e depois dos povos por eles subjugados, entre eles os judeus. O que Jesus via a cerca da obediência a essas leis era só hipocrisia, pois a turma da circuncisão não dava a mínima para elas, embora fizessem de tudo para fazer parecer o contrário, situação que parece persistir entre eles até os dias de hoje, onde quer que vivam. Essa postura nada recomendável passou a ser a regra também entre os cristãos, criaturas melhor acabadas e sem pedigree dos descendentes de Abraão.

Quase todos os discursos do Mestre Galileu, que parece não terem sido numerosos, versaram sobre leis. Em todas essas ocasiões Ele deixou bem claro o fato de ter consciência do comportamento antiético do povo e tratou de incentivá-los a dar continuidade a essa prática, mas acrescentando mais classe, charme e fidelidade ao Pai Celeste dele. Acho que Jesus nunca conseguiu ver sintonia entre leis humanas, sejam elas dadas por Moisés e seus pares sacerdotais ou pelos mui dignos legisladores de todas as épocas, locais e matizes.

Refletindo acuradamente sobre as tais leis, de repente, caiu-me um ficha muito louca, ou seja, talvez Deus nunca tenha nos dado ou recomendado lei alguma. Todo mundo sabe da existência de trocentos estudiosos opositores da história de Moisés naquele monte, como de resto, onde só ele viu a Deus e depois desceu de lá com aquelas tábuas exóticas onde, quem fosse capaz (menos de 1% dos presentes), poderia ler a tal Lei de Deus. Pessoalmente, penso que o Criador, mais uma vez, deu uma incrível bola fora com esse ato, caso o tenha mesmo praticado, afinal ficou a pergunta: para que uma lei escrita para um monte de analfabetos? Em minha opinião, seria mais fácil crer em um ato de Deus se Moisés tivesse decido do morro com fones nos ouvidos e um MP4 nas mãos, ouvindo a tal “Lei” ditada por Deus, com a voz original do Magnânimo e em alguma língua que aquele bando errante entendesse. Considerando que essa história tenha acontecido, só poderia ter se dado muito, mas muito mesmo, tempo antes da passagem, por esse planeta, de Thomas Edison, Marconi e Steve Jobs, daí o milagre.

Um amigo meu, o Khalil, que vive em Israel a maior parte de seus dias, me contou outra história sobre a Lei de Deus fornecida por Moisés. Segundo ele, Moisés encontrou Deus lá no alto daquele monte, de fato. Mas o diálogo entre eles teria sido bem diferente do que se tem notícia. Mesmo por que, Moisés era ruim para narrar acontecimentos, como todos sabem, e teria distorcido tudo, a favor dele, claro. Você e eu sabemos que Deus não é muito chegado à arte de falar. Como ensinou sabiamente o monge através do Akira Kurosawa, Deus é como a montanha, silencioso e chegado a escutar, muito mais do que o contrário. Não teria sido diferente nesse encontro com Moisés. O patriarca falou e falou enquanto Deus o admirava, pensando sabe-se lá o que. Entre muitas queixas, Moisés referiu-se à proverbial insubmissão do povo em relação às lideranças e ordenanças legalistas dele e de seu irmão Aarão. Lembre que esse probleminha fora recorrente em Mosa, que antes de procurar a montanha, digo Deus, buscou conselho com seu sogro, para o mesmo tema. Mosa foi educado na casa do Faraó, onde o maioral falava e todo mundo obedecia, mesmo porque, diz a lenda que Faraó tinha uma espada do tamanho do mundo, então obedece-lo seria a melhor opção, então.

Finalmente Moisés parou de falar e Deus pode manifestar-se com uma pergunta: Moisés, se você quer que o povo lhe obedeça, por que não escreve um livro com as suas leis? Parece que foi daí que o Dr. Shedd tirou aquela pergunta que ele fez a milhares de alunos que julgavam deter alguma verdade teológica, com aquela cara de velhinho safado, dizendo depois de escutar a vítima atentamente: Muito bom, por que não escreve um livro a respeito? Segundo o Khalil, a conversa com Deus não durou mais do que duas horas, o resto do tempo, os tais quarenta dias, Mosa gastou para escrever as dez leis nas tábuas. Parece que não era muito fácil escrever nesse material naquele tempo. Sabe, talvez faltassem goivas no mercado.

Em outras palavras, nunca houve algo como uma lei de Deus, segundo esse raciocínio. Nem mesmo essa história que a rapaziada adora, a tal lei do amor, jamais existiu. Até nisso Deus seria opcional e, jamais, impositivo. Moisés começou a lei dele justamente com a transformação do que deveria ser uma atitude voluntária e absolutamente livre em um mandamento. Até hoje Deus abominaria toda essa gente “amando-o” por força de lei, se é que isso seria possível. Outra do Khalil, dá conta que nenhum ser humano jamais tenha conhecido o verdadeiro amor. No máximo, umas sombras nas paredes da gruta e olhe lá. Aliás, Platão também pensava assim.

Jesus de Nazaré (nomenclatura designativa do Cristo vivo, que o atual Papa Bento XVI copiou sem autorização dos profetas da Gruta e que prova sua presença por aqui) só fez confrontar seus seguidores ou contemporâneos e suas leis maravilhosas. Nessas poucas vezes em que participou de seminários e retiros de pastores e pastoras ele usou o método do confronto ou do ensino contraditório. Lembra? Moisés disse ( o que é só mais uma prova em favor dessa nossa tese), mas eu vos digo…

Nesse caso, quando Jesus disse que cumprira a lei, provavelmente estivesse nos dando a receita do bolo, ou seja, não haveria melhor forma de cumprir alguma lei do que desobedecê-la. Espero que nenhum engraçadinho me venha com idiotices do tipo: sem lei seria o caos, etc. Para mim, nada é mais eficaz na produção de crimes e criminosos do que as nossas leis, geralmente cunhadas no ódio e no rancor. Se elas fossem boas, não seriam escritas nos morros, e muito menos pelos corruptos.

Meu, aprendi mais uma com o Khalil, como segue: se alguém nesse mundo que nunca pertenceu a Deus, embora seja conhecido como seu criador, fizer ou viver como Deus quer e Jesus Galileu ratificou, em outras palavras, quem tomar a própria cruz e seguir a dele, e isso inclui desobedecer qualquer tipo de lei humana, religiosa, civil ou política, com a máxima certeza encontrará a morte. Não digo de cruz, porque o método entrou em desuso há séculos, mas será devida e brutalmente executado precocemente. Isso deixa-nos certos de que poucos o lograram. De memória, depois de alguns dos discípulos do próprio Mestre, houve Policarpo, Joana D’Arc, Tereza de Ávilla, Edith Stein, Simone Weil, Gandhi, Abrahan Lincon e Martin Luther King. Certamente há muitos outros, conhecidos ou desconhecidos anônimos, mas ainda assim, escandalosamente menos do que Deus e nós gostaríamos. Fora os que se encontram, nesse momento, na fase dos sofrimentos pré morte.

Da Série: As Sete coisas que Jesus não faria se fosse você:

Não Divulgue as suas curas.
Não evangelize em hipótese nenhuma
Alugar, só se for direto com o proprietário… do mundo.

Mas eu vos digo:

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