A Gruta do Lou

Maniqueístas, com a graça de Deus

 

Maniqueistas
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O bom e o mau, o bem e o mal, céu e inferno, amor e ódio, Deus e o diabo, bonito e feio, inteligente e burro, blogueiro e twitteiro, batistas e neopentecas, tudo isso e muito mais poderia ser encontrado na loja do Mani, aquela especializada em artigos maniqueístas.

Outro dia, o pastor, da igreja onde tenho passado algumas horas diárias tentando organizar um serviço de telemarketing sem investimentos adequados, lembrou o escândalo que causei por ocasião da minha passagem pelo pastorado da igreja de Tatuí, filiada desta, por ter citado Agostinho, algumas vezes. Fiquei com cara de boi e depois sorri sem graça, pois era uma informação desconhecida por mim. Nessas horas, a hesitação que me assalta é insuportável. Qualquer ironia naquele momento poderia gerar consequências não calculáveis. Mas cheguei a pensar em perguntar como pode um pastor existir sem citar Agostinho, ou pior, sem ler Confissões de Agostinho.

Agostinho gastou a maior parte da vida combatendo o maniqueísmo, se não me engano. Poucos anos depois, uns mil e setecentos, essa praga continua no topo do mundo. Ontem, um cara bem mais jovem que eu, se bem que tão careca quanto, que está morando nessa igreja com o filho, me disse que largou sua honrada profissão de protético, um negócio de família próspero, lá no Guarujá, para dedicar-se ao serviço de Deus. Não pude evitar pensar porque raios então ele não foi servir a Deus? A menos que ele esteja confundindo o Eliseu com Deus. O Eliseu é um bom sujeito, mas para Deus falta-lhe estofo e creio que ele concorda comigo.

Epa! Cá estou classificando alguém de bom, outra vez. Pior é que costumo me classificar entre os maus. Mas o ponto é: as pessoas vivem, em sua grande maioria, tentando colocar-se do lado certo, ou na fila certa, como preferem os sorocabanos. O que enche o saco é constatar a preferência deles pela fila dos idosos, não importa a idade que tenham. Desde que galguei o status de idoso, não me conformo com essas invasões dos maus. E lá vou eu de novo para o maniqueísmo. Perceberam a força disso, mesmo passado tanto tempo depois que Agostinho saiu dessa para melhor… ou pior?

Mas ainda não entendi que mal eu fiz em citar Agostinho. Lembro que o pessoal da igreja Maná (aquela do apóstolo português Jorge Tadeus) se pautava por um livrinho onde havia uma lista de maus sujeitos da igreja. Entre eles, sei que figuravam Cipriano e outros párias eclesiásticos, coitados, mas não me recordo de ter visto Agostinho por lá.

Inevitavelmente, sou obrigado a citar outro herege, se é que Agostinho e eu somos dignos da lista dos tais, ou seja, nosso irmão Nietzsche e seu livro fenomenal “Além do bem e do mal”. Nossa, a alegria sentida no dia em que conquistei o meu exemplar… depois, o desespero do autor em convencer a todos de quão limitante é o pensamento maniqueísta, se bem que não coloque as coisas nesses termos. Mas é um libelo ao mundo de hoje, perdido em alguma rede social da vida, enquanto os poderosos e suas máquinas maravilhosas desconstroem o planeta de todos nós, jogando a culpa em nós e nossos horrorosos desodorantes spray, altamente destrutivos. Eles são bons e nós somos maus, na visão deles. Na minha, é exatamente ao contrário.

E a igreja, a casa de Deus, o bom, continua jogando a culpa no diabo e a turma dele, sem deixar de nos lembrar o quanto estaremos comprometidos com os vermelhos chifrudos, se não fizermos a vontade de Deus, expressada pelos pastores, claro, todos excelentes maniqueístas.

Depois, eu é que sou o louco, por citar Agostinho.

morcego-12

6 thoughts on “Maniqueístas, com a graça de Deus

  1. Este é o “sacro rompimento”, do qual falou o monge São Brabo, o qual arrisco-me a citar.

    Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa, infelizmente.

  2. Eu confundia com maquinista, acho que por isso odiava os pobres coitados, afinal eu era bom e eles só poderiam ser maus.

  3. O maniqueísmo é mal com u ou mau com l?
    Parece que há duas rotas de fuga: ser confortavelmente indiferente ou assumir a perturbação que é valorizar a diferença. Vou a largos passos pela primeira, acho. Alguém me socorra. =O

  4. Rondinelly
    O maniqueísmo é um mal, com l e muito mau com u. Acho que entre as duas opções, fico com a sua, também.

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