A Gruta do Lou

Mãe, a tirana universal

 Madona


Nem Deus consegue tanta influência sobre a vida das pessoas quanto a mãe de cada um. Claro que não estou me referindo somente à mãe presença física, mas as matronas são muito mais poderosas do que se possa imaginar. Não sei nem se já sabemos ou conhecemos tudo sobre o poder de manipular, controlar e dirigir nossas vidas, dessas senhoras tiranas.

Se não me engano, quem logrou maior êxito na pesquisa e estudo da influência da “mãe” em nossas vidas foi Sigmund Freud. Ele sistematizou nosso arcabouço psicológico em três compartimentos, o ego (o nosso consciente), o superego (o nosso sensor geral) e o id (o HD interno burro e não acessível por meios voluntários, onde são armazenados nossos dados).

                               Sigmund Freud

Além disso Freud, criativo como só, formulou o Complexo de Édipo, entre outras boas sacadas, durante sua navegação pela terra. Depois que todo mundo percebeu a pouca utilidade desse saber pois, não sei se por sentimento de culpa ou influência de sua mãe interior, Freud não foi capaz de elaborar um antídoto ou um antivírus contra esse malware indestrutível e destruidor da felicidade de todos nós, então o simpático e sacana velhinho caiu em certo esquecimento.

Freud utilizou-se da narrativa de Sófocles “Édipo Rei” para criar a metáfora com a qual explicou o fenômeno. Gostou do método e foi em frente, identificando o seu complexo nas principais histórias conhecidas, como em “Hamlet de Shakespeare e Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski, considerando o aforismo: A Arte reflete a vida”, acho.

Imagino que o bom velhinho estava nos mostrando, por esses meios, como identificar a presença de nossas queridas mãezinhas internas em todas as tragédias humanas, não só nas de Sófocles, Shakespeare, Dostoiévski, etc., mas nas de todos nós.

Não foi por muito tempo, logo apareceu outro senhor, esse muito mais astuto, falo de Jacques Lacan que estudou a obra de Freud e tratou de levantar a bola toda, novamente. Em nossos dias, identificamos o dedo de Lacan no trabalho dos mais importantes pensadores, inclusive entre os teólogos.

Posso citar um exemplo interessante, o pastor e teólogo canadense Eugene Peterson reconhece sua influência advinda de Jacques Ellul (Anarquia e Cristianismo), filósofo e teólogo francês, absolutamente lacaniano. A partir de Peterson, encontraremos todos os teólogos modernos merecedores de algum respeito, direta ou indiretamente influenciados por Lacan e Freud, inclusive eu, se não me engano

Entre os pensadores mais respeitados de nossa época medíocre está Slavoj Zizek, a quem o Rondinelli imprudentemente e exageradamente me comparou, dia desses, elevando meu ego aos píncaros para horror do meu superego, ou mais propriamente, da minha mãe, como quer o Zizek e euzinho também.

Talvez sejamos parecidos por hostilizarmos todos os Ps idiotizantes da nossa sociedade (Pais, Professores, pastores, padres, Psicólogos, políticos e Philosofers), fora os outros. Este senhor (Zizek), tirando seus tics nervosos, lacaniano até a raiz dos cabelos, amante do cinema o qual considera a maior das artes.

Além de identificar a grande tirana do universo permeando a melhor literatura, o faz brilhantemente, analisando as melhores produções cinematográficas, onde essas senhoras inescrupulosas deitam e rolam nas mentes, e as vezes fisicamente, caso do filme A Sogra, que contou com interpretação magnifica da não menos magnifica Jane Fonda. Veja o vídeo da entrevista que ele concedeu ao repórter Jorge Pontual, outro perdido no superego global.

Esses caras sabidões e outros tantos, na verdade, abrem um imenso e incalculável caminho para nós. Se olharmos com um pouco mais de cuidado e menos preguiça, a grande tirana da humanidade está presente, e de forma determinante em quase tudo que acontece com a raça humana. Uma das áreas mais impregnadas da influência nefasta dela é a religiosa.

Quase todas as religiões destilam seus rosários a partir das exigências psicológicas da grande senhora, a começar da Igreja Católica, que simplesmente cumpre o papel ridículo de canoniza-la elevando-a aos píncaros.

De quebra, os católicos fazem questão de dar a cada pais a sua tirana particular. Nós temos a Nossa Senhora Aparecida, os portugueses a Nossa Senhora de Fátima, os mexicanos a Nossa Senhora de Guadalupe, os italianos a Nossa Senhora da Achiropita e assim por diante. Todos os países de maioria católica devem ter sua santa padroeira, todas representando ninguém menos que a mãe de Jesus, a tirana das tiranas.

Jesus não poderia ter tido fim pior, também… com uma mãe dessas. Lembra dela com o jarro de vinho vazio nas mãos, com aquela cara de superego determinando ao filho que fizesse logo um milagre básico, como quem chupa uma bala ou troca de camisa? Pior é que ele reclamou e fez, como qualquer um de nós faria.

Ninguém ousa contestar a santa mãe, sem pagar um alto preço por isso, a de Jesus e muito menos a nossa própria. A sua religião e a minha só servem para aumentar o tamanho e o peso dessa horrorosa mãe interna que carregamos pela vida e que um dia, nos matará. Acho que é isso que me prende em uma Gruta, também.

As outras religiões não são menos edipianas. Quase sempre, criam um deus mãe, sempre nos controlando e ditando regras e leis. O Deus cristão, católico ou protestante, é uma grande mãe universal, a começar da criação do mundo, com uma espécie de parto do universo. Mas a culpa não é dele, mas dos teólogos que escreveram seus dogmas sob a influência nefasta de suas mães internas.

As novelas, as minisséries, as séries, os esportes, a música, a pintura, escultura, a política, enfim, tudo está nas mãos da grande mãe. Ou você acha que é por acaso que a humanidade vai materializando esse fato?

Vejam como, cada vez mais, colocamos mulheres no comando das nações, das empresas e até dos times de futebol mais queridos. Claro que essas atitudes são bisonhas. As mulheres também são vitimas do complexo freudiano. Não é privilégio dos homens.

O seriado que gosto mais, me identifico e assisto, hoje, é o “Two and a half man”, onde a metáfora edipiana de Freud é explorada deliciosamente com humor dos melhores. Além de explicar a situação psicológica dos três personagens principais, ainda diagnostica a doença mental do ator Charlie Sheen, em sua vida real, o melhor deles.

A grande tirana é uma mãe que vive em nosso interior, como quer a tese de Freud ou no nosso estado de ego Pai, como ensinou Eric Berne, aliás, o meu preferido. Ela é a somatória das exigências da nossa mãe biológica mais todas as outras influências e maternais e/ou paternais que se somam em nosso interior.

Nenhum desses caras citados foi capaz de receitar um remédio que nos livrasse dela. Ledo engano cometem os caras que saem matando suas mães em tentativas patéticas de matar sua mãe interior. Isso é impossível. Aliás, creio que o complexo de Édipo está presente em quase todas, se não todas, as notícias trágicas que enxovalham nossas queridas TVs e Internet.

Agora mesmo, recebi a notícia da morte da Amy Winehouse e todo mundo…

 Amy Winehouse

…afirmando que ela foi vítima das drogas. As drogas são só o agente, mas quem mata é a mãe interior, quando ela torna-se insuportável.

Espero que as mamães leitoras não tomem esse post como pessoal, pois estou falando da figura brilhantemente idealizada por Freud, embora as mães reais tenham participação única, com a ressalva de ser atitude inconsciente, geralmente.

O vínculo que temos com nossa mãe genitora é do tamanho do universo ou maior. As interferências delas, quando acontecem, são péssimas mas não é o pior, por mais incrível que pareça.

O genoma que elas, com ajuda dos papais, nos legam devem trazer a cota de sofrimento nosso de todos os nossos dias de vida e eles acontecem em forma de sentimentos. Ainda tenros, começamos a odiar nossos papais por ciúme dos privilégios deles com as mamães, depois nossos irmãos, o padre, pastor, o vizinho amante, etc.

Para mim, e para a grande psicoterapeuta discípula de Freud e Jung, Karen Horney, o complexo de Édipo também está na raiz no homossexualismo, se bem que, ela não deixou barato e contestou o mestre propondo uma psicologia feminina e um complexo de Electra, só para não dar o braço a torcer, sendo ela mesma mãe e psicoterapeuta não ficaria bem torturando suas crias, ou algo parecido.

Era só um ideia e acabei me estendendo tanto. O fato é que se trata do assunto mais importante de nossas vidas e não sei se completo ele caberia na Internet, quanto mais em um despretensioso post.

Você pode dar sua contribuição e quantos desejarem. Nesse mar, tem espaço para infinitos copos de água. Certo? Aliás, esse é o tipo do post que sofrerá mudanças, cada vez que for lido. Tenho certeza disso.

7 thoughts on “Mãe, a tirana universal

  1. “Os erros que a gente comete nesta vida costumam ser mais lembrados do que os acertos. Nada de novo sob o sol: rir das fraquezas alheias é uma atitude humana. Mas não precisávamos ser tão humanos assim.”

  2. nós humanos,esperamos uma estrela apagar,pra revelar que a falta do seu brilho pode nos ser insuportávelmente triste..mas,enquanto a estrela brilhava,o nosso único desejo era nos alimentar do seu brilho,da sua arte…

  3. É, só sei que dói e fica essa incômoda pergunta que nunca será respondida: Pra que?

  4. Mãe… putz! A minha acabou sendo hóspede aqui em casa, paraplégica devido a um AVC, e com pouca memória. E eu, como fico nessa? Na maior sinuca de bico: gostaria que ela estivesse longe, pra sentir saudade dela e poder visita-la quando quisesse… nem isso eu posso!!!

  5. Uma vez Lacan usou a seguinte metáfora: A gente fica com a Mãe (o Outro) como se estivesse na boca de um jacaré sustentada por um pedaço de pau pra não nos matar. É lá que queremos ficar, mas sem sermos engolidos? O que nos ameaça é o que nos permite viver? É isso? =O

  6. Bom, se não me engano, era isso mesmo que o Lacan queria dizer, não no sentido certo ou errado, mas em termos de constatação. Quando somos servos do ego, é assim que funciona. A saída, segundo meu terapeuta (Dr. Zenon Lotufo Jr.) e toda a proposta comportamental, é sermos responsáveis por nossas vidas e não deixar o ego no comando. Coisa simples.

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